OPINIÃO
05/04/2015 14:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02

Em defesa de Luciana Genro ou 'quais vidas devem ser choradas?'

É uma questão de ordem política em sentido amplo, naquele em que cada sujeito se pergunta: o que eu faço com o poder que me cabe? Pergunta que deve ser feita pelas mídias, afinal, porque dar tanta cobertura à morte do filho do governador de SP, do que a um jovem negro, morador da favela, vítima do despreparo policial?

Artur Borzecki Photography via Getty Images

Recentemente, a ex-candidata à presidência da República, postou, em seu Twitter o seguinte comentário:

"Tudo bem lamentar a morte do filho do Alckmin, lamento também. Mas porque não lamentam também a morte do menino de 10 anos, morto por bala perdida?"

Luciana foi altamente criticada, tanto por setores da direita, quanto por setores da esquerda, diziam que faltava "sensibilidade" em sua postagem, e que tal fala fora "oportunismo político", um "pêsame seletivo". Tais interpretações da fala de Luciana me obrigam a escrever este texto, em sua defesa, com o único intuito de afirmar: ela não disse nenhuma mentira, o tweet foi oportuno e não vi nele falta de sensibilidade alguma. Agora vamos aos motivos? Antes disso, porém, algumas ponderações se fazem necessárias:

1. Luciana se solidarizou também com a morte de Thomas Alckmin, o questionamento feito no Twitter diz respeito, suponho, à cobertura midiática e comoção causadas por uma e por outra morte. Ela é mãe, e, alguns momentos depois, deixou claro o quanto sofreria ao perder um filho;

2. A morte de um é fruto de uma fatalidade, um acontecimento rizomático, imprevisível, consequência da potência da vida. Um acidente. A segunda, é fruto do despreparo da polícia, de uma polícia militarizada, de ações que olvidam os direitos humanos. A primeira gerou comoção e escândalo, pesar intenso nas redes sociais e grandes mídias, a segunda (com exceção das mídias cariocas, que falaram muito sobre o assunto), pouca comoção causou.

Dessa forma, com essas duas considerações feitas, posso afirmar: a questão na postagem de Luciana Genro não é de "sensibilidade", ou de "oportunismo" político, mas sim, uma questão de ordem política em sentido amplo, naquele em que cada sujeito se pergunta: o que eu faço com o poder que me cabe? Pergunta que deve ser feita pelas mídias, afinal, porque dar tanta cobertura à morte do filho do governador de SP, do que a um jovem negro, morador da favela, vítima do despreparo policial?

O fato não tem relação alguma com se "condoer" junto à família do governador. A morte é uma experiência subjetiva dos que cercam aquele que morreu, uma experiência íntima, uma dor que não pode ser compartilhada. As declarações "políticas" de outros políticos como a presidenta Dilma Roussef, essas sim, não passam de etiqueta. Uma etiqueta da morte. Mas realmente compartilham essa dor?

Já a morte do menino Eduardo, pode ser sentida por milhares de outros jovens e crianças negras e pobres e seus familiares, que sabem poder ser mortas a qualquer momento, como outros milhares mortos diariamente no Brasil, vítimas da violência policial (aliás este é um assunto político, não é?).

Quero aqui que pensemos além dos clichês "toda morte é triste", "ninguém deveria morrer", "toda vida tem o mesmo valor". Vamos além disso. As vidas, infelizmente, não possuem o mesmo valor, há sujeitos que são "mais humanos" que outros. Como assim? Lembremos o célebre texto do filósofo Theodor Adorno, "A Dialética do Esclarecimento", no qual ele nos apresenta dois tipos distintos de corpos: o corpo-vivo, e o corpo-natural. Este primeiro, é o corpo desejante, que se expressa em códigos morais do "ser" ( na esteira do pensamento de Heiddeger), este corpo, tem voz, tem direitos, pode agir da "pólis", é considerado pelo Estado e pelas instituições, e há o corpo-natural, entendido como mero amontoado fisiológico daquilo que tem a potência de se chamar vida. É o corpo do inseto que matamos, o corpo do mendigo ( que apesar de inserido em nossa pólis, é tratado como se não existisse), é o corpo da travesti, das crianças pobres das periferias. Corpos que não geram empatia, que não causam "condolências".

Talvez não fosse comum pensar em corpos humanos dessa forma, como "corpo-natural", entretanto, nós já aprendemos a banalizar tais coisas. Não nos espantamos com mendigos na rua, não nos espantamos com corpos mutilados em acidentes que olhamos confortavelmente de dentro do ônibus ou de nosso carro. Algumas vidas, são vidas que nossa cultura construiu como o antigo "homo sacer" romano, indignos de ser chorados.

Neste sentido é que quero, através de duas citações do texto "Marcos de Guerra: Las vidas lloradas" de Judith Butler, pensar acerca do " valor" distinto concedido a ambas as vidas. Segundo Butler "certas vidas não se qualificam como vidas, ou, desde o princípio não são concebidas como vida, dentro de certos marcos epistemológicos, então, tais vidas nunca se considerarão vividas ou perdidas no sentido pleno de ambas as palavras" (2010, pg. 13). Notem o "não se considerarão vividas ou perdidas", são indignas de ter valor. É no horizonte destas vidas, abjetas, que está a morte do jovem Eduardo, é no horizonte de mostrar a dureza desta realidade, desta balança existencial, que está o post de Luciana Genro.

Alguns poderão argumentar: "mas era o filho de um governador, alguém importante". Então eu perguntaria: importante por que? O político e sua família, em um Estado democrático de direito, não deveriam passar de servidores, tão comuns, tão humanos, quanto quaisquer outros. Não estaríamos nós herdando o processo de distinção dos nossos tempos coloniais? Criando uma aura de pompa e poder em torno de sujeitos que ocupam cargos de poder? (sim, pois poder está no cargo que investe o sujeito, e não o contrário). A super cobertura midiática é apenas mais um dos discursos e elementos tão pouco democráticos na produção da distinção do poder.

Não é apenas a "vida" de Eduardo que é desqualificada da condição de "vida". Mas a do Amarildo, a dos moradores da favela da Maré, no RJ, da Cláudia, mulher negra morta e arrastada por quadras. A das travestis mortas e mutiladas Brasil a fora. Muitos são os corpos abjetos, indignos de serem chorados, justiçados.

O tweet de Genro apenas nos revela essa bruta realidade, talvez por isso tenha incomodado a tantos. Afinal, é mais fácil representar comoção, do que aceitar que não estamos fazendo absolutamente nada para impedir o genocídio de jovens pobre e negros, de travestis, de indígenas. Nada. É melhor manter a etiqueta da nossa "Era do Cinismo" ( vide "A Realidade do Virtual" de Slavoj Zizek), do que por em ação algo que possa salvar tais vidas. É mais fácil dizer "respeitem o luto do governador", do que abraçar um mendigo, ou comprar-lhe um lanche ( ou mesmo vê-lo).

Circulava, nos tempos da Revolução Francesa, uma anedota interessantíssima. O Rei Luís XVI, perguntado sobre a pobreza em Paris, disse: "Não gosto de ver a pobreza de meu povo, ela me faz mal", para solucionar o problema, o monarca, ao invés de alimentar o povo, teria construído uma ponte exclusiva entre Versalhes e o Palácio das Tulherias em Paris, assim poderia passar sem ver a pobreza. Talvez, a exigência moral de se condoer com Alckmin, neste momento, seja apenas, uma forma de passar pelas outras mortes intragáveis.

Este é um texto em defesa de Luciana Genro, mas sobretudo, em defesa das vidas abjetas. De travestis, como eu. De negros e pobres. De todos os que não tem nem ao menos o direito à morte, pois só se pode morrer aquilo que alçou antes a condição de estar vivo.