OPINIÃO
27/05/2015 18:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

A fantasia da masculinidade: sexo, poder e mentira

Os homens devem, entre si, buscar superar as normas impostas por uma masculinidade utópica. Essa é a responsabilidade deles em relação ao machismo, ao patriarcado e a violência contra a mulher: desconstruírem a si mesmos.

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Hispanic shirtless male model showing his muscular built on black background

A masculinidade hegemônica é um mal? Uma fantasia em que os "homens" participam para tornarem-se quem são? Sim. A masculinidade, enquanto regime de dominação, de poder, é como uma fantasia que os homens vestem para oprimir, e o fazem, justamente, para garantir o lugar de poder que historicamente ocupam no patriarcado. Poder político, econômico e sexual. A masculinidade hegemônica é monstruosa e perversa.

Não me acusem de estar aqui querendo que "homens sejam como mulheres". Estou aqui querendo que possamos ser o que quisermos, e dizendo que a masculinidade, enquanto postura e comportamento hegemônico em relação ao mundo, não passa de uma ficção dominadora. Um discurso performatizado pela tradição, atualizado por mecanismo biopolíticos. Pode parecer triste dizer, mas o "homem machão e violento" não é nada além de uma caricatura opressiva das normas que frustradamente tenta atingir. É importante notar que a masculinidade hegemônica é apenas uma dentre as tantas possibilidades de masculinidade. Ela corresponde a uma masculinidade normativa, ou seja, aquela que se tem "como modelo", e que, tendo tomado emprestado o termo de Gramsci, se torna hegemônica.

O conceito de masculinidade hegemônica surge com a socióloga australiana Raewyn Connell. Segundo ela:

"O termo 'hegemonia', emprestado de Antonio Gramsci, não designa a masculinidade da maioria dos homens, e sim aquela soberana na sociedade. Diferencia-se da noção de dominação por não fazer uso, necessariamente, da força bruta. Uma hegemonia de fato efetiva depende de certo consenso ou participação dos grupos subalternos (CONNELL & MESSERSCHMIDT, 2005)"

Veja que nos estudos de Conell a masculinidade hegemônica depende também da "participação de grupos subalternos". Como assim? Gostaria de usar, como exemplo, as pessoas LGBTs. Muitas delas vivem um culto ao homem heterossexual, branco, forte, normativo. Como se isso fosse um troféu. É o caso exemplificado pela recente matéri publicada pelo site LGBT que explicava "Dez maneiras de 'pegar' um heterossexual". Ali o site "endeusava" heterossexuais, sobretudo aqueles dentro de uma perspectiva "hegemônica" da masculinidade.

É importante problematizarmos que nada disso está isolado. Que a masculinidade hegemônica, quando endossada por grupos subalternizados, é feita através de mecanismos de dominação já introjetados por estes grupos. Não pretendo culpar ninguém pela existência dessa masculinidade, apenas demonstrar que existe um sistema de valores sexo-semióticos que sustentam essa masculinidade hegemônica, e que hierarquizam as formas de ser homem, e a sustentação dessa masculinidade é a sustentação do sistema patriarcal.

Slavoj Zizek, em seu vídeo "A Realidade do Virtual", nos explica que a violência é um "ato" que existe antes de si mesmo, e que tem mais poder "em sua ameaça" do que em sua concretização. Além disso, ele diz também que a violência ( o bater para manter o controle), é um ato perversamente infantil, destituído da capacidade cognitiva da discussão racional e argumentativa.

Os discursos da masculinidade hegemônica se constroem dessa forma: "Seja homem", " Você tem que bater, é assim que homens resolvem as coisas", "Se te baterem na escola, vai apanhar mais quanto chegar em casa".

Ainda seguindo Slavoj Zizek, em " La fantasia de la masculinidad" percebemos que o homem, considerado no paradigma falocêntrico, patriarcal, heteronormativo, mesmo em suas relações sexuais, relaciona-se ( pensando a partir da tríade lacaniana) com uma imagem de si, e com uma imagem da mulher com a qual está. Vive na fantasia do direito de dominar. Essas fantasias patriarcais de dominação, de potência, às vezes os possuem.

"Eu o vi levantar-se da cama. Olhar para ela, ofendê-la de todas as formas. Era uma puta, com a qual jamais devia ter casado, uma mentirosa que queria-lhe tomar os bens. Ela e sua família inteira não prestavam. Sua comida o enojava, sua presença o enojava. A filha dela era uma puta, apanhou na cara como ' deveria', e ela apanhou junto por tentar impedir. Seu neto era ' um viado que devia morrer, uma praga para o mundo".

Essas foram as falas com as quais me deparei essa semana. Vinham de uma pessoa próxima a mim e eram direcionadas a uma pessoa que amo muito. Eu pensei: de onde vem toda essa violência? De onde vem essa necessidade de transformar o outro, a mulher, em um ser inferior. De onde vem tanto poder, para que ela, a vítima, ficasse muda, ouvindo, chorando; resignando-se como se aquela violência toda lhe fosse destino, parte de seu papel "de mulher". Estaria este homem, que a partir de agora chamarei de J., possuído por sua fantasia de masculinidade?

Ele procurava ali motivos para "ser o homem", motivos para " ominar" e para "inferiorizar" a mulher. Precisava colocar-se enquanto homem, numa perspectiva da fantasia da masculinidade hegemônica. Fantasia que eles vestem, que não possui uma "essência", que não possui um fator genético que determine, uma estrutura anatomo-fisiológica, nada. É apenas a encarnação de uma ficção política de gênero que sustenta a ordem patriarcal.

Obviamente, não podemos, e eu já apontei isso, resumir toda a masculinidade à "masculinidade hegemônica". Existem formas de masculinidade não legitimadas pela sociedade e que recebem todo tipo de agressão, de crítica, de violência. São as masculinidade desviantes, o homem afeminado, o homem sensível, o gay, o homem não-viril. Os que não buscam provar o tempo inteiro sua masculinidade.

É amplo, no movimento feminista, que homens não devem fazer parte no sentido de tomar o protagonismo das mulher. Entretanto, os homens devem, entre si, buscar superar as normas impostas por uma masculinidade utópica, essa é a responsabilidade deles em relação ao machismo, ao patriarcado e a violência contra a mulher: desconstruírem a si mesmos. Pensarem em si mesmos, em seus confrades (afinal, a confraria é uma estratégia patriarcal imensa não é?), e é preciso, sobretudo, que os homens aprendem sobre os lugares de poder que ocupam, os privilégios que possuem.

Alguns podem considerar este texto desnecessário. Mas isso é porque não tiveram contato com grupos que pregam uma masculinidade pré-histórica, grupos masculinistas, shibumistas (nem sei o que é isso, e não tive paciência pra descobrir), e no Brasil, um grupo, chamado "Real" ou "Metendo a Real", que vão desde a apologia ao estupro, até a criação de "códigos" de humilhação psíquica de mulheres. Estes grupos se aproveitam de um imenso problema da criação patriarcal: a pouca profundidade emocional expressada pelos homens, e, sobretudo, a dificuldade de receber um não de uma mulher.