OPINIÃO
22/04/2014 18:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

Liberdade ainda que tardia

A população local estava ultrajada por ter que receber uma festa que não era para ela, que não fazia parte da sua comunidade, que não a acomodaria nas cadeiras brancas.

Estadão Conteúdo

Os inconfidentes lutaram contra o despotismo de Portugal e sua política de arrecadação perversa, que destituía os moradores da colônia dos seus direitos de posse e cidadania.

Todos os anos, no dia 21 de abril, o governo de Minas Gerais transfere simbolicamente a capital do Estado para Ouro Preto e ali, celebra a data que relembra o enforcamento e esquartejamento do líder do movimento, Tiradentes, símbolo da luta pela liberdade e igualdade e aproveita, claro, para divulgar sua plataforma política.

Desde o dia anterior à comemoração, a cidade de Ouro Preto é invadida por centenas de trabalhadores que chegam de BH munidos de poderosos crachás, com a inscrição "Oficial" e que tomam a praça central, a Praça Tiradentes, isolando-a da cidade com tapumes e grades, enchendo-a de cadeiras de plástico branco, espalhando tapetes vermelhos, construindo palcos para os discursos oficiais, instalando dezenas de poderosas caixas de sons.

Toda essa parafernália, que consumiu muito dinheiro público, provocou por dois dias um grande caos na cidade inteira: o trânsito foi desviado ladeira abaixo e ladeira acima e inúmeras passagens de pedestres, bloqueadas.

Isso tudo sem contar que, neste ano, o feriado do 21 de abril juntou-se ao da Semana Santa, o que fez com que a cidade estivesse lotada de turistas de todas as partes do Brasil. Pobre deles, sem lugar para andar. Pior para os que pagaram diárias caras para estar perto do ponto principal da cidade. Os testes de sons noite adentro e a movimentação do gigantesco staff não permitiram o descanso dos justos.

Durante toda a noite, foram cercadas por grades, as ruas que davam acesso à Praça, fechando todas as passagens.

No dia 21 de abril, a situação piorou, centenas e centenas de policiais chegaram de Belo Horizonte e foram espalhados por toda a cidade. Estavam armados até os dentes, como que preparados para uma guerra.

Vamos lembrar que era um feriadão e que os turistas estavam ávidos para visitar as igrejas e os museus de Ouro Preto. Não conseguiram. À exceção da Igreja de São Francisco de Assis e do Museu da Inconfidência, que só abriu pela manhã, estava tudo hermeticamente fechado.

Frustração geral! A partir do meio dia, os turistas começaram a ir embora indignados ao saberem que todas as entradas e saídas da cidade estariam fechadas a partir das 16 horas. Entrariam apenas dezenas de ônibus povoados por figuração contratada para aplaudir os discursos e as autoridades que viriam de BH, integrando a comitiva do governador Alberto Pinto Coelho, que assumiu o cargo no ultimo 4 de abril, após a renúncia de Antonio Anastasia.

Festejada, e liberada também, estaria a presença do principal homenageado com uma das 240 medalhas da Inconfidência que seria entregue, e orador oficial da noite, senador Aécio Neves.

A população local estava ultrajada por ter que receber uma festa que não era para ela, que não fazia parte da sua comunidade, que não a acomodaria nas cadeiras brancas.

Para os habitantes da antiga Vila Rica, tratava-se apenas de uma celebração autoritária da Capital.