OPINIÃO
03/11/2014 11:16 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A Lua é o fim da linha

Nasa escolhe empresas para construir o sucessor do ônibus espacial, mas a exploração humana do espaço além do quintal terrestre continua em baixa.

George Diebold via Getty Images

Nasa escolhe empresas para construir o sucessor do ônibus espacial, mas a exploração humana do espaço além do quintal terrestre continua em baixa.

A Nasa, agência espacial dos Estados Unidos, anunciou recentemente a escolha das empresas Boeing e SpaceX para construir sua nova geração de veículos espaciais tripulados. Demorou. Desde a aposentadoria do programa Space Shuttle, em 2011, os norte-americanos têm transportado astronautas até a Estação Espacial Internacional (ISS) com veículos da Rússia, em uma tremenda ironia histórica.

Em 1962, em plena Guerra Fria com os então soviéticos, a proposta de depender de foguetes inimigos para continuar seu programa espacial seria impensável para os Estados Unidos. Em setembro daquele ano, em um discurso na Universidade Rice, o então presidente John F. Kennedy ressaltou o compromisso de levar astronautas do país à Lua até o fim da década. Ir, descer, andar e voltar a salvos.

Hoje, quando tudo isso virou história, parece simples. Mas, na época, o desafio tecnológico era gigantesco. E os Estados Unidos levavam uma surra da União Soviética no campo espacial. Primeiro satélite construído pelo homem a orbitar a Terra? O Sputnik, soviético, em 1957.

Primeiro animal a ir ao espaço? A cadela Laika, soviética, também em 1957, que morreu na missão. Primeiro homem no espaço? O cosmonauta Yuri Gagarin, em 1961. Em 1962, quando Kennedy fez seu "discurso da Lua", o placar da corrida espacial estava de fazer inveja ao imposto pela Alemanha ao Brasil na última Copa.

A situação iria piorar. Ainda em 1962, o mundo quase teve sua Terceira Guerra Mundial com a crise dos mísseis em Cuba - no Brasil, o episódio acabou na lendária marchinha de Carnaval "O Brasil vai lançar foguete; Cuba também vai lançar; Lança, Cuba lança; Quero ver Cuba lançar", com trocadilho de causar inveja aos rappers de hoje. Em 1963, os soviéticos mandaram a primeira mulher - e civil - ao espaço, Valentina Tereshkova. No mesmo ano, Kennedy foi assassinado. Em 1967, o primeiro foguete da missão Apollo, projetada para levar o homem à Lua, pegou fogo em testes, queimando seus três tripulantes.

No jogo espacial, os norte-americanos só tinham uma chance: serem os primeiros a pisar na Lua. Conseguiram aos 40 minutos do segundo tempo, em 20 de julho de 1969, quando a Apollo 11 levou Neil Armstrong e Buzz Aldrin ao solo lunar - o terceiro astronauta, Michael Collins, ficou no módulo em órbita do satélite.

A "conquista" da Lua pode não ter igualado o placar, mas pôs fim à corrida. Foi uma das maiores proezas científicas e tecnológicas da história, mas acabou com a graça. Na época, com a euforia mundial promovida pelo episódio, Armstrong e Aldrin pareciam apenas os primeiros de uma longa série. Depois da Lua, seria a vez de Marte, de Vênus e dos demais planetas do Sistema Solar. Anéis de Saturno? Pode colocar na lista. Em seguida, o além. "Audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve", como dizia o bordão de Jornada nas Estrelas. O que não se imaginava é que a Lua seria o limite quase meio século depois.

Doze homens estiveram na Lua, em seis missões do programa Apollo. Fizeram medições e experimentos científicos, caminharam na poeira, coletaram pedras, jogaram golfe. Voltaram. Os primeiros ficaram conhecidos; os últimos, não.

A distância média da Terra à Lua é de 381 mil quilômetros. Um motorista que quisesse percorrer de automóvel tudo isso precisaria dar 30 voltas em torno da Terra. Da Terra à Estação Espacial Internacional, são 415 quilômetros em média. Não daria para dirigir de São Paulo ao Rio de Janeiro.

Desde 1972, quando os últimos astronautas voltaram da Lua, a ISS é o destino mais longe da Terra para o homem -- incluindo um brasileiro, Marcos Pontes. A exploração humana do espaço voltou da Lua para logo ali na esquina. O fôlego do maratonista de então hoje não dá para percorrer 50 metros.

Maratona é um exagero. Pois se ir à Lua for uma maratona, o que pensar de Marte, que está em média a 230 milhões de quilômetros da Terra? E Saturno, que está a mais de 1 bilhão de quilômetros? Isso para ficar apenas nos arredores do Sistema Solar.

Boeing e SpaceX vão construir a nova geração de veículos que levará missões da Nasa à ISS. Mas isso é o mesmo que fazem - e muito bem - os Soyuz russos. O que aqueles que se interessam pela exploração espacial e fãs de ficção científica querem é ir além. Voltar à Lua? Interessante, mas que tal Marte?

A sonda Maven, também da Nasa, entrou recentemente em órbita marciana. Será usada para experiências que poderão ajudar a explicar o que ocorreu com a água que um dia fluía no planeta vermelho.

Sondas são ótimas, pois permitem ao homem conhecer muito sobre o espaço sem sair daqui. Uma delas, a Voyager 1, lançada em 1977, está nos confins ou pode até ter deixado o Sistema Solar. Sondas são tão eficientes que fazem questionar a validade de continuar com missões tripuladas. Para que mandar pessoas em uma missão longa e perigosa se podemos enviar veículos autônomos?

O principal motivo é o desejo (muito) humano da exploração. De descobrir, de ser o primeiro. Por conta disso, os Estados Unidos não abandonaram a ideia de levar o homem a Marte. Nem os russos ou outros interessados, como chineses e indianos - que, aliás, também mandaram uma sonda ao planeta.

Empresas privadas também manifestam a vontade de levar o homem a Marte. O projeto Mars One, coordenado por uma organização holandesa, lançou em 2013 uma chamada para interessados em ir a Marte - e não voltar. Sim, subir em um foguete, descer no planeta vermelho e ali ficar até o fim da vida. Parece ridículo, mas mais de 200 mil pessoas se inscreveram. O projeto pretende selecionar 40 astronautas este ano, dos quais quatro seriam escolhidos para ir a Marte em 2022 e dar início à colonização do planeta. É esperar para ver.

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