OPINIÃO
22/01/2018 12:29 -02 | Atualizado 22/01/2018 13:01 -02

‘The End of the F***ing World’: A série de TV que finalmente mostrou pais ausentes do jeito certo

Para uma pessoa que não conhece seu pai, a série calou fundo para mim.

Netflix

Num domingo recente assisti de uma tacada só todos os episódios de The End of the F***inkg World, obra-prima do humor negro da rede britânica de TV Channel 4 sobre a qual todo mundo está falando. Ela estava à altura do hype. É uma série brilhante, especialmente por lidar com temas bem pesados (assassinatos, ataques sexuais, suicídio) de maneira inovadora – e muitas vezes de um jeito bizarramente engraçado --, ao mesmo tempo sem banalizar o tema central só porque ele é vivido por adolescentes. Pelo contrário, a sensação era de uma crueza emocional ainda mais intensa do que se costuma ver na TV.

Além do elenco excelente, dos diálogos pouco convencionais e da fotografia diferente, o que chamou minha atenção foi o tratamento dado aos relacionamentos familiares. Mais especificamente, a Alyssa (Jessica Barden) e sua relação com o pai distante, mantida viva por nada mais que alguns cartões de aniversário todo ano – o que, mais tarde, descobrimos que são forjados pela mãe numa tentativa de suprir a ausência paterna.

Como alguém que não conhece o próprio pai, a série calou fundo para mim.

Cresci assistindo programas que glamourizam quem não teve um pai. Sempre vejo esse recurso usado como um clichê, um trauma da infância que permite que os personagens ajam de forma egoísta e imprudente – esperando que todos os perdoem (alô, Serena de Gossip Girl). Na infância, vivi sob um silêncio constrangedor quando perguntavam sobre meu pai; hoje, deparo com esse silêncio quando respondo às perguntas sobre ele. É um assunto muito pessoal, e sempre fico curiosa para ver como ele será tratado nas telas.

Produções que lidam com pais ausentes, especialmente com o relacionamento entre pais e filhas, costumam se render a rótulos fáceis e retratos batidos do que é ser pai. Esse tipo de estereótipo não ajuda a entender as complexidades da família e dos relacionamentos complicados entre pais e filhos. O que poderia ser uma trama interessante e informativa, se fosse costurada do jeito certo, acaba virando só um traço que define o personagem.

Igualmente, da perspectiva da filha, em geral há duas alternativas: ela conhece o pai e eles superam a distância, recuperando o tempo perdido na infância: tudo é perdoado numa ida à sorveteria (e com diálogos enjoativos de tão doces); ou então acontece uma separação dramática e irreconciliável, porque as mágoas do passado são difíceis de superar.

Mas não é o que vemos em The End of the F***inkg World. A série cria uma terceira opção. O pai de Alyssa é problemático, com certeza, mas nunca é retratado como um monstro, como costuma acontecer com pais ausentes. É uma representação muito mais realista de um pai que fugiu de suas responsabilidades e que não o pinta como um ser humano necessariamente ruim. Por esse motivo, a série merece ser aplaudida.

Durante um período, Alyssa está feliz de estar de novo com o pai, mas a ilusão não dura muito tempo: o homem de quem ela se lembrava ainda está lá, mas diferente. A consequência disso é uma compreensão mais adulta do que é ser abandonada. Apesar de a relação ser importante para a trama, ela não define Alyssa como personagem – assim como não me define como pessoa.

Apesar disso tudo, não vou fingir que não conhecer meu pai não me afeta. Obviamente machuca saber que você não tem um amor que deveria ser incondicional. E, embora isso não me defina, sou produto das minhas experiências.

Por outro lado, isso me trouxe coisas incríveis. Fui criada pelos meus avós, minha mãe é uma das minhas melhores amigas e, por isso, meu laço com eles três é mais forte e mais precioso do que qualquer outra coisa que eu consiga imaginar. Perdi meu pai, mas sinto que acabei tendo três.

Tanto Alyssa como James (Alex Lawther) descobrem que, apesar de serem adolescentes rebeldes que acham que não são amados por suas famílias, estão errados. No nível mais básico, a família é nada mais que uma coleção de parentes de sangue.

Mas aprendi, assim como eles, que os laços mais fortes que você pode ter na vida às vezes estão na família que você mesmo criou.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Photo galleryAs melhores séries da história, segundo quem trabalha em Hollywood See Gallery