OPINIÃO
19/03/2014 10:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Meu reencontro com o Metrô, quinze anos depois!

Se por um lado essa volta está me reconciliando com a ideia de viver fisicamente com o mínimo, por outro, está psicologicamente me treinando para viver com o máximo possível de paciência e tolerância.

Sim, eu ultrapassei os 20 pontos e me entreguei a um delegado do Detran-SP. Tive minha carteira de motorista suspensa por dois meses. Estou cumprindo a pena e, se tudo der certo, estarei reintegrado ao frenético mundo das buzinas em poucas semanas. O quão reintegrado eu quero estar, esta é a questão.

Não vou entrar no mérito das multas. Nenhuma grave ou gravíssima. Todas de valor médio (4 pontos).

Também não vou entrar na discussão da indústria da multa, muito menos nas condições que temos para cumprir as leis do Código de Trânsito. Afinal, que culpa tem o governo quando eu interpreto erroneamente a ótima sinalização das placas das nossas estradas?

Ou que culpa tem o governo quando, mesmo me antecipando em uma hora, avanço por 26 minutos o horário do rodízio devido a um congestionamento qualquer? Ou se passo a 47 km/h quando a velocidade máxima permitida é de 40 km/h?

Vou deixar tudo isso para lá e me concentrar no lado bom da coisa, a saber, aprender a diminuir a minha dependência do carro, o cigarro da vez, como se está dizendo.

Tenho a sorte de ter uma estação de metrô a três minutos da minha casa e outra a dois minutos do meu trabalho.

Faz duas semanas, voltei a usar esse meio de transporte, que funciona relativamente bem, apesar de todas as suas limitações referentes à sua extensão e abrangência - o Metrô de São Paulo tem apenas 75 km; o de Londres, por exemplo, tem 408 km. Funciona relativamente bem, apesar das duas complicadas baldeações que preciso fazer para percorrer menos de 10 km.

O Metrô é um velho conhecido meu: sou um motorista tardio e atravessei boa parte dos anos oitenta e noventa no "Underground". A extensão do "Tube" de São Paulo era ainda mais insignificante doze, quinze anos atrás. Ou seja, só era possível percorrer distâncias bem curtas de Metrô. Mesmo assim, eu era um heavy user. Por isso, foi o período em que eu mais li na minha vida: média de quatro livros por semana.

Costumava fazer uns jogos mentais do tipo "se não conseguir ler dez páginas até a Estação Ana Rosa, estando eu na Estação Santa Cecília, é porque vou morrer antes dos 30 anos". Estimulado por esses joguinhos, acabei lendo a obra completa de Manuel Puig. E quase toda a do Martin Amis, do Paul Auster, da Susan Sontag, do John Updike... A do Dostoievski? Bem, essa eu já havia lido antes mesmo de saber o que era transporte coletivo e, além do mais, a melhor literatura para ser consumida no Metrô é aquela de texto leve e enredos mais lineares e aristotélicos (histórias com começo, meio e fim).

A minha grande frustração na volta ao Metrô é justamente a impossibilidade de ler. Em duas semanas, ainda não consegui fazer nenhum trecho sentado. Algumas pessoas, boas de surfing, conseguem abrir um livro e mantê-lo diante dos olhos entre uma estação e outra, mas são invariavelmente acotoveladas. Outro dia, coitado de um garoto, o seu "A culpa é das Estrelas", de John Green, caiu e foi impiedosamente pisoteado. O rapaz ficou com aquela cara que o leãozinho Simba faz quando a manada de búfalos passa por cima de seu pai, o Rei Mufasa.

Ler revistas e livros físicos no Metrô de fato não dá mais. Não quer dizer que o povo não esteja lendo. Já contei: um em cada dez usuários portadores de smartphone está lendo textos no formato digital, muitos deles longos. Tem desde ficção até reportagens, passando por filosofia e muita autoajuda. Os outros nove, invariavelmente, estão jogando Candy Crush ou trocando mensagens no Whatsapp.

Outra cosia que não dá mais para fazer no metrô é transportar a minha raqueteira, como eu fazia naqueles velhos e bons tempos referidos acima. O próprio Metrô recomenda carregar a mochila na mão em vez de tê-la nas costas, "para não incomodar os demais usuários". Imagine uma raqueteira!

Essa situação também tem um lado positivo: ela está me estimulando a aprender a viver com o mínimo e ser mais organizado. Para não deixar de bater minha bolinha ao longo da semana (numa escapadinha na hora do almoço ou depois do expediente), preciso abrir mão de todo o excesso que o carro me permitia.

Nada de uma raqueteira com três raquetes, um monte de camisetas, shorts, muhequeiras. Nada de potes de proteína, frascos de vitaminas, barrinhas de cereal, toalhas limpas e sujas, balde de bolas para treino espalhados pelo porta-malas ou escondidos no porta-luvas. O carro, para mim, já havia adquirido o status de moradia.

Agora, tudo tem que caber na mochila de mão. Por isso, o tudo tem que ser obrigatoriamente o mínimo: uma única raquete, o par de tênis, um tubo de bola, uma única camiseta, um shorts e uma munhequeira, um par de meias e o desodorante. E só. Nos dias de academia, a mesma coisa, menos raquete, o tubo de bola e a munhequeira. Com o acréscimo da luva para puxar ferro.

Se, por um lado, a volta ao Metrô, quinze anos depois, está me reconciliando com a ideia de viver fisicamente com o mínimo necessário, por outro, está psicologicamente me treinando para viver com o máximo possível de paciência e tolerância.

Mas no caso do Metrô, o que poderíamos estender para todo o transporte coletivo, a paciência e a tolerância devem ser apenas virtudes táticas. Estrategicamente, eu e os milhões que compartilham comigo os mesmos vagões, deveríamos perder justamente a paciência e a tolerância com os governos que nos tratam feito sardinhas.

E há ainda outro proveito nesse meu reencontro com o Metrô: sinto-me menos paranoico e menos vulnerável à violência da cidade, aos assaltos, aos latrocínios. A sensação de segurança parece um pouco maior.

Apesar de tudo isso e diferentemente do cigarro, para mim, o carro não vai virar um vilão. Só estou buscando um equilíbrio, o "nada em excesso", como diria o Oráculo de Delfos.