OPINIÃO
24/02/2015 21:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

10 razões pelas quais os EUA deveriam acabar com o envolvimento militar no Iraque e deixar os outros destruírem o Estado Islâmico

AP Photo

Tropas americanas estão em combate há mais tempo do que em qualquer outro ponto da história dos Estados Unidos. Além de duas grandes guerras, forças especiais foram enviadas a 133 países (cerca de 70% das nações do planeta) em 2014. Faz pouco sentido continuar com a mesma tática de guerra perpétua, sem garantias de um resultado estratégico melhor. Em 2013, dois terroristas loucos provocaram mortes e caos em Boston, mas eles não agiram sob ordens do ISIS. Acreditar que outra guerra no Iraque vai nos manter "seguros" não lida com a natureza do terrorismo ou com a natureza das guerras fracassadas. Portanto, eis dez razões pelas quais continuar com a mesma abordagem não só é a perfeita definição de insanidade, mas também não leva em conta o que aprendemos no outro conflito no Iraque.

1. O presidente Obama acabou com a guerra do Iraque em 2011, depois de 4 489 americanos mortos e 32 223 feridos.

Iraque e Afeganistão sobrecarregaram o Departamento de Assuntos de Veteranos. Se o Congresso aprovar uma guerra contra o ISIS, será que o orçamento do DAV, de 168,8 bilhões de dólares, comporta as repercussões de um futuro conflito?

Afinal de contas, o senador republicano Tom Burns recentemente bloqueou um projeto de lei de prevenção de suicídios de veteranos, afirmando: "Sou contra esse projeto porque é jogar dinheiro fora".

O raciocínio do senador deveria ser usado para criticar os 6 trilhões de dólares que gastamos no Iraque e no Afeganistão, não uma lei que ajuda as pessoas que o país diz honrar e respeitar.

2. Políticos iraquianos queriam os Estados Unidos fora do Iraque até 2011, e os deixamos suficientemente "capazes e competentes" para encarar as ameaças de segurança.

O almirante John Kirby explicou por que os iraquianos precisam de apoio militar, apesar de mais de uma década de presença americana no Iraque, em um briefing de imprensa do Departamento de Defesa realizado em 7 de novembro de 2014.

Almirante Kirby: Sim, investimos muito dinheiro e esforço treinando o Exército iraquiano. Quando saímos, em 2011, eles estavam capacitados a lidar com as ameaças que enfrentavam. A oportunidade que eles tiveram, as habilidades que aprenderam, a liderança que tinham foram desperdiçadas pelo governo Maliki nos últimos três, três anos e meio.

Segundo um artigo do Wall Street Journal de 2010 intitulado "O Iraque quer a saída dos Estados Unidos", "o premiê Nouri al-Maliki descartou a presença de quaisquer tropas americanas no Iraque após o fim de 2011".

Os líderes políticos iraquianos, especialmente Nouri al-Maliki, queriam que os Estados Unidos saíssem em 2011, e o premiê Ayad Allawi deu a seguinte declaração:

"Manter os americanos por mais tempo no Iraque não é a resposta para os problemas do Iraque. Pode ser uma resposta para os problemas americanos, mas definitivamente não é a solução para os problemas do meu país."

Os políticos iraquianos não vão proteger os interesses americanos, pois têm seus próprios objetivos e rivais políticos. Imagine o Tea Party forçado a se juntar à ONG MoveOn.org. Sem cooperação do governo iraquiano, qualquer sucesso militar americano contra o ISIS será jogado fora (como aconteceu na guerra passada) por gente como Nouri al-Maliki.

O Parlamento iraquiano também é uma confusão, mesmo com o novo primeiro-ministro, Haider al-Abadi. Disputas e derramamento de sangue entre xiitas e sunitas levaram os sunitas a boicotar o governo. Consequentemente, muitos sunitas apoiam o ISIS porque se sentem alienados pelo governo dominado pelos xiitas.

3. As "Táticas de Contra-Insurgência" do Exército americano afirmam: "No fundo, uma contra-insurgência é uma luta armada pelo apoio da população".

No caso do Iraque, milícias sunitas e xiitas estão envolvidas num conflito sangrento, e 80% da Província de Anbar já é controlada pelo ISIS. Os dois lados cometem ataques suicidas http://news.yahoo.com/suicide-truck-bomb-kills-8-people-iraq-155048716.html e atrocidades um contra o outro. A população iraquiana está dividida entre lealdades religiosas e culturais.

Segundo o Georgetown Journal of International Affairs, "o apoio americano ofereceu indiretamente a Maliki os incentivos para atuar contra os interesses americanos". Os Estados Unidos criaram aliados "inúteis", porque o apoio que demos para Maliki e seu governo xiita foi usado para consolidar o poder, em detrimento dos sunitas.

Se a estratégia contra os insurgentes diz que "precisamos do apoio da população" para vencer o conflito, não vamos ter esse apoio, porque os iraquianos são mais fieis às suas afiliações religiosas que aos interesses americanos.

4. O ISIS existe por causa da rivalidade sangrenta entre os sunitas e xiitas do Iraque.

A briga é antiga e é a razão pela qual o ISIS controla 80% do da Província de Anbar, um reduto sunita.

Ela também explica por que os sunitas recentemente boicotaram o Parlamento. A revista Newsweek recentemente publicou um artigo intitulado: "As tribos sunitas vão apostar no cavalo mais forte, e ele é o ISIS". Sem paz entre sunitas e xiitas, não há intervenção militar americana que capaz de alcançar uma estabilidade de longo prazo.

Como explicado pelo Instituto Brookings, a estratégia do ISIS é incentivar o caos sectário:

Essa faceta central da estratégia militar do EI tem o objetivo de iniciar ou sustentar conflitos sectários - "provocar a radicalização e a união [dos xiitas] com milícias patrocinadas pelo Irã para que eles cometam atrocidades semelhantes contra os sunitas". Se o governo xiita do Iraque e o governo alauíta da Síria forem percebidos como repressores pela maioria dos sunitas, o EI pode se apresentar como protetor dos ideiais puros e verdadeiros dos sunitas.

Com essa estratégia de incentivar ainda mais o derramamento de sangue, como é que as tropas americanas vão resolver a questão do ódio entre sunitas e xiitas?

5. O Iraque faz fronteira com a Síria.

Se o ISIS for derrotado no Iraque, como os Estados Unidos vencem o grupo na Síria? Essencialmente, o presidente Obama pediu ao Congresso os recursos para uma guerra em duas frentes: tanto no Iraque quanto na Síria. Os combatentes do ISIS podem sempre se refugiar na Síria, assim como o Talibã tem onde se esconder com segurança no Paquistão.

Pense no Camboja e no Laos durante a guerra do Vietnã.

6. O Iraque faz fronteira com o Irã, país dominado pelos xiitas. O Irã financia e arma três das maiores milícias xiitas no Iraque.

Um dos líderes milicianos xiitas, Muqtada al-Sadr, já avisou os Estados Unidos de que vai combater os soldados americanos. Ele disse: "Se vocês voltarem, também voltaremos". Essas milícias vão combater o ISIS, mas também vão combater soldados americanos, como fizeram no passado.

7. Quando o ISIS for derrotado, soldados americanos terão de ocupar territórios e estarão expostos a ataques com AEIs.

Entre metade e dois terços dos soldados americanos mortos ou feridos no Iraque e no Afeganistão foram vítimas de artefatos explosivos improvisados, ou AEIs. Gastamos quase 6 trilhões de dólares nas duas guerras, mas muitos AEIs podem ser produzidos com apenas 30 dólares (http://www.npr.org/2011/12/18/143902421/in-iraq-fighting-an-improvised-war). Somente em 2007, houve quase 34 000 ataques com AEIs contra as tropas americanas. Enviar tropas de volta a uma guerra em que elas serão alvos fáceis faz com que a maior força militar do mundo sucumba às táticas de guerra assimétricas dos terroristas e insurgentes.

8. Os interesses de outros países interferem com os objetivos dos americanos.

A Rússia apoia o presidente da Síria, Bashar al-Assad. O Irã apoia al-Assad e as milícias xiitas do Iraque. A Arábia Saudita já foi ligada à criação do ISIS e apoiou revoltas sunitas na Síria e no Iraque. A Turquia usou o ISIS para enfraquecer os curdos.

Se o ISIS foi derrotado no Iraque e seus combatentes fugirem para a Síria, os Estados Unidos não poderão enviar tropas terrestres, pois a Rússia não deixará isso acontecer. Além disso, a Síria está no meio de uma guerra civil.

9. A Frente al-Nusra é outro grupo terrorista que pretende criar um Estado islâmico.

Se o ISIS for teoricamente destruído na Síria e no Iraque, a Frente al-Nusra preencheria o vácuo, com seus próprios planos de criar um califado. A organização também quer criar um Estado islâmico sunita e, como o ISIS, é uma dissidênciada al-Qaeda no Iraque.

Um aspecto assustador da Frente Al-Nusra é que ela compete com o ISIS no recrutamento de combatentes estrangeiros; é a mesma atividade que faz do ISIS tamanha ameaça ao Ocidente. A al-Nusra também está "determinada" (http://www.al-monitor.com/pulse/fr/contents/articles/security/2014/05/jabhat-nusra-isis-branch-iraq.html) a estabelecer presença no Iraque, segundo o Al-Monitor.

10. O Egito bombardeou o ISIS, o rei Abdullah, da Jordânia, prometeu uma "guerra dura" com tropas terrestres, os curdos do Iraque o unidades militares iraquianas lutam contra o ISIS e até mesmo o Irã bombardeou o ISIS.

Há uma razão para a The Atlantic ter afirmado que "evidências sugerem que o poder do Estado Islâmico vem diminuindo há meses."

Em vez de mandar mais tropas, armar os curdos (apesar dos protestos da Turquia), as forças xiitas e o Exército iraquiano, além de mandar mais ajuda militar para países como a Jordânia, seria uma estratégia mais eficaz contra o ISIS. O presidente Obama recentemente estendeu as operações de combate no Afeganistão, portanto essa guerra continua. Seria razoável acreditar que as pessoas estivessem fartas de guerras, mas os vídeos de decapitações do ISIS aterrorizaram milhões de eleitores. Os americanos deveriam lembrar, porém, que as pessoas que defendem guerras no Congresso serão as mesmas que depois vão reclamar do financiamento de projetos para impedir o suicídio de veteranos.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.