OPINIÃO
20/02/2015 11:41 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

7 coisas que descobri no Brasil

Como consultora em sustentabilidade, blogueira, e também gringa morando no Rio de Janeiro há quase dois anos, tem muitas coisas que mais me surpreenderam e me fascinaram no Brasil.

Como consultora em sustentabilidade, blogueira, e também gringa morando no Rio de Janeiro há quase dois anos, tem muitas coisas que mais me surpreenderam e me fascinaram no Brasil. Vejam esses sete pontos que o Brasil me ensinou:

1. As mulheres brasileiras são verdadeiras líderes.

Não só são líderes em casa: Em 2012 o IBGE apontou que famílias chefiadas por mulheres eram 37,3% do total no país e esse numero vai crescendo. Mas também líderes na empresa: na última década, o número de mulheres empreendedoras no país e o numero de mulheres em cargos executivos vem com uma forte mostra de crescimento também. Eu trabalhei três anos no Women's Forum, uma empresa que promove mulheres na liderança no mundo, e o Brasil realmente se destaca nesse assunto.

2. A criatividade, a desenvoltura e a mentalidade empreendedora fazem parte do DNA brasileiro

O Brasil tem um ecossistema de startup muito forte e dinâmico, incluindo startups com impacto social e modelos colaborativos. Nos últimos anos surgiram plataformas de financiamento colaborativo (crowdfunding) como a Benfeitoria, Catarse ou a Queremos! A Queremos realmente criou um modelo único que foi inventado no Brasil e copiado depois em outros países. Existem espaços de coworking, criativo como o Templo ou a GOMA no Rio. O ambiente está tão favorável que até marcas internacionais como Airbnb de aluguel de apartamento, a Uber e a Blabla Car, que oferecem serviços de carro compartilhado, decidiram aproveitar essa situação no Brasil. O Brasil avança empreendendo!

3. A maioria dos brasileiros vive em contato com a natureza e a natureza está presente no dia a dia.

Praias, florestas e agricultura abundante (diversidade de frutas, nozes, legumes que os brasileiros comem todos os dias). No entanto isso não se traduz em hábitos de preservação. Há muito pouca iniciativa de reciclagem, os rios e as praias estão gravemente poluídos, e a rapidez do desmatamento é preocupante. Algumas leis foram aprovadas para preservar o meio ambiente, mas achoo que seria importante investir em mais campanhas públicas para incentivar as pessoas e as empresas a mudarem os seus comportamentos na sua base diária, bem como infraestruturas públicas de apoio a esses esforços.

4. As questões sociais são mais discutidas e consequentemente abordadas que os assuntos ambientais.

Ao discutir com algumas empresas sobre sustentabilidade (que geralmente inclui aspectos sociais e ambientais), percebi que no Brasil existe uma preocupação muito mais forte para os programas sociais do que para os programas ambientais. Isso pode estar relacionado com o fato das desigualdades sociais afetarem a vida das pessoas de forma tão inevitável neste país, como por exemplo, as comunidades por vezes serem localizadas tão perto de bairros privilegiados. Um número crescente de brasileiros não acha aceitável o atual desequilíbrio na educação, na saúde e segurança entre ricos e pobres. Isso explica em parte a revolta social que temos visto nas ruas nos últimos dois anos. Também explica por que as empresas em geral têm programas para apoiar as comunidades locais e tentar promover a iniciativa local, tais como micro empresa ou micro franquia. (ex: Projeto Matrix da L'Oréal Projeto Matrix, Projeto Coletivo do Instituto Coca-Cola.)

5. A dívida pessoal é um grande problema no Brasil. Mas um que pode ser resolvido.

Entre 2007 e 2013, os empréstimos ao consumidor mais do que duplicaram, para cerca de US$ 600 bilhões em cinco anos (fonte Banco Central do Brasil). Isto é devido a uma grande oferta de cupons e cartões de crédito, incluindo alguns cartões chegam a cobrar 80% de juros anuais ou até mais. A oferta abundante e a falta de transparência levam a uma utilização incorreta dessas ferramentas. Em uma pesquisa realizada pela FGV sobre cartões de crédito, apenas um terço das 1.000 pessoas entrevistadas entendiam as taxas de juros. Consequentemente, muitas pessoas acabam estrangulada em dívida, incumprimento no crédito e em grave crise financeira.

A solução para este problema encontra-se em regulamentos governamentais mais fortes, bem como na educação financeira, campanhas de conscientização, treinamento gratuito, que algumas instituições, como a Escola de Educação Financeira e a Planet Finance, uma ONG que apoia e implementa iniciativas que melhorem acesso a serviços financeiros, já estão oferecendo.

6. O governo às vezes privilegia ações visíveis em vez de infraestrutura básica.

Um exemplo é a decisão de construir um teleférico na Rocinha, quando na verdade o que a comunidade realmente precisa e quer é um sistema de esgoto e de lixo decente. Outro exemplo é quando as autoridades lutaram para sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, mas as estradas raramente são renovadas ou construídas. A população está cansada desta situação. Mas ao invés de apenas reclamar, eles encontram jeitos (veja ponto 7). Isso é uma das forças dos Brasileiros.

7. Os cidadãos são muito otimistas e preferem organizar soluções para contornar a ineficiência do governo.

Para compensar as fraquezas do serviço publico, os brasileiros tendem a colaborar espontaneamente e encontrar soluções de bricolagem. A tecnologia capacita esses movimentos espontâneos e isso vai provavelmente mudar a cara da democracia (Cidades Nossas, Cidade Democrática, Sociais Bom Brasil etc). A geração mais jovem que perdeu fé nas instituições políticas e nos políticos, se engaja novamente graças a esses novos meios de expressão.

Morar e trabalhar no Brasil é um privilégio para mim. Ver um país desse tamanho passando por tantas transformações, adotando as tecnologias e as mudanças com ânimo e determinação inspira muito respeito. Espero ter a sorte de seguir observando acompanhando a construção do seu futuro.