OPINIÃO
16/09/2015 09:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

A Europa está paralisada pelo medo

Enquanto milhares de cidadãos europeus se organizam para oferecer ajuda - dando uma aula de solidariedade para a classe política --, a falta de decisões só agrava a crise. Por quê?

YASIN AKGUL via Getty Images
Migrants and refugees wait at Istanbul's Esenler Bus Terminal for buses to the Turkish-Greek border after authorities withheld tickets to Turkish border towns on September 16, 2015. Hundreds of refugees camped out at the main bus station in Istanbul for a second night running after being refused tickets for Edirne, some 250 kilometres (150 miles) away. Many of the refugees seeking to leave Turkey have been living in the country for months, sometimes years, after fleeing the bloody civil war in neighbouring Syria. AFP PHOTO / YASIN AKGUL (Photo credit should read YASIN AKGUL/AFP/Getty Images)

Milhares de vidas continuam a ser perdidas no continente europeu. Na maioria dos casos, essas perdas acontecem longe das câmeras. Ainda assim, cada fatalidade é uma tragédia única e uma perda insuportável. O único desejo das pessoas que arriscam suas vidas é fugir da guerra e das perseguições. Como consequência de nossos fracassos e medos, elas continuam morrendo no continente para onde vieram em busca de refúgio. Como chegamos a esse ponto?

Está claro que a União Europeia e seus países-membros reagiram extremamente tarde. Em 16 de agosto enviei uma carta ao presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, na qual pedia que ele convocasse uma reunião de cúpula emergencial dos líderes da UE. Ainda não recebi resposta, o que pode parecer pouco caso. Mas não podemos ser vítimas de mal-entendidos. A falta de uma resposta não é culpa das instituições da UE, que tentaram propor uma abordagem mais ampla para o problema, incluindo uma melhor distribuição dos refugiados por toda a União Europeia.

A única esperança é que os gritos do cidadãos possam influenciar os cálculos dos líderes políticos.

O ceticismo em relação à ação necessária veio dos próprios governos europeus - de certos governos em particular - que nem sequer querem considerar um esforço genuíno da Europa, temendo projetar uma imagem de medo dentro de suas casa. Enquanto milhares de cidadãos europeus se organizam para oferecer ajuda - dando uma aula de solidariedade para a classe política --, a falta de decisões só agrava a crise. Por quê? Porque nossas políticas domésticas dominam a questão, e isso reduz nossa capacidade de cumprir nossas obrigações internacionais de proteger quem precisa de ajuda.

Apesar da pressão crescente, David Cameron não concordou em desempenhar um papel na resposta da UE, o que seria denunciado pelo United Kindgom Independence Party, o Ukip, um partido de extrema direita. O líder húngaro, Viktor Orban, tampouco quer cooperar, pois ele enfrenta um partido, o Jobbik, que está ainda mais à sua direita. Mariano Rajoy também resiste a um sistema de distribuição dos refugiados porque estamos às vésperas das eleições gerais na Espanha. Todos sabemos que tomar decisões políticas firmes pode significar perda de votos. Colocar a política doméstica à frente do interesse coletivo nos deixa paralisados.

A única esperança é que os gritos do cidadãos possam influenciar os cálculos dos líderes políticos. Depois das imagens chocantes vindas da Turquia dias atrás, a abordagem nacionalista de vários líderes europeus é completamente inadequada. Apesar de as opiniões dos cidadãos e da mídia estarem mudando, ainda acho difícil acreditar que nossos líderes tenham entendido que, se quisermos administrar essa crise, precisamos de uma abordagem europeia completamente nova.

Precisamos de um sistema permanente de acolhida dos refugiados que seja equilibrado entre todos os países-membros da União Europeia.

Primeiro, precisamos fazer mais para enfrentar a raiz do problema. Sejamos claros: não foi a movimentação irrestrita dos europeus ou o Acordo de Schengen que causou esse dilema. Associar a crise dos refugiados com o livre trânsito na área do Acordo de Schengen é um erro. Guerra, perseguições e a brutalidade de Assad e do ISIS causaram a crise. Precisamos trabalhar juntos para encontrar uma solução de longo prazo na região.

Segundo, os líderes da UE precisam encarar a realidade: não existe um modelo para regulamentar em nível europeu a imigração e os asilos políticos. Precisamos de reforma já. A Regulamentação de Dublin precisa ser substituída por medidas que funcionem e operem dentro da estrutura da UE. Também precisamos de um sistema permanente de acolhida dos refugiados que seja equilibrado entre todos os países-membros da União Europeia. Há sinais de que esta semana a Comissão Europeia vai apresentar um sistema de cotas para 160 mil refugiados. Pessoalmente, não acredito que ele deva ser limitado a um número fixo. Deveria haver um sistema permanente capaz de lidar com os muitos pedidos de pessoas que precisam de proteção.

Também precisamos fortalecer a agência Frontex, de modo que ela possa desempenhar seu papel nas fronteiras da UE e salvar vidas no mar. A Frontex não pode continuar dependendo de contribuições voluntárias. Os países-membros da UE deveriam ser obrigados a contribuir.

Além disso, precisamos aumentar a ajuda humanitária para Egito, Líbano e Turquia, a fim de ajudar na questão dos campos de refugiados. Também deveriam ser criadas áreas seguras nas zonas de conflito para que os refugiados possam pedir vistos humanitários. O estabelecimento de rotas seguras e legais para a UE também é urgente.

Finalizar um acordo político para implementar essas medidas será complicado - assim como estabelecer uma abordagem básica.

Líderes como David Cameron, Viktor Orban e Mariano Rajoy serão instados a aceitar mais refugiados. Mas, ainda assim, eles não vão assinar um acordo por um sistema europeu mais justo.

Isso exigiria que eles confrontassem inimigos internos. Se a política da esperança e da compaixão não superar a política do medo, a Europa vai continuar caminhando rumo a uma tempestade de terríveis proporções.

A própria estrutura de nossa união corre perigo. Na falta de uma liderança forte, é hora de refletir sobre nosso passado turbulento e de aprender algumas lições da história. Não faz tento tempo que milhões de europeus foram obrigados a fugir da guerra e da perseguição política. Espanhois, húngaros, tchecos e italiano abandonaram suas casa para salvar suas vidas. E eles foram acolhidos de braços abertos em outros países do continente.

Sabemos o que deve ser feito. Para o bem da humanidade e da União que criamos juntos, precisamos nos unir para proteger aqueles que mais precisam.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: