OPINIÃO
30/04/2014 17:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Sinceridade e propaganda eleitoral

Há uma forte rejeição dos eleitores ao velho modelo de propaganda política. Os marqueteiros estão tentando se adaptar à novas exigências. E o caminho mais simples para isso é ser sincero.

"Interrompemos nossa programação para apresentar a propaganda eleitoral gratuita de jingles que só falem a verdade". Com essa provocação, o humorístico Tá no ar, da Rede Globo, abriu um vídeo de 3 minutos, mimetizando nos mínimos detalhes um comercial daqueles que a gente vê no horário político. Ou melhor: com a desconstrução de um comercial.

Na letra do jingle, em vez de promessas, a denúncia da segunda intenção por trás das imagens editadas. "Um ator negro olha pro céu, com ar de esperança; um índio, uma catarinense, uma japonesa criança. O candidato quer passar a imagem de que é amado por toda a gente. Coloca um chapéu de engenheiro e aponta para a frente". Ao final, a mensagem: "Esqueça tudo o que eu roubei, mas não esqueça do meu número!"

A piada de Adnet parece inspirada em outro falso comercial eleitoral, produzido na época da campanha eleitoral de 2012 no Rio Grande do Sul. O vídeo gaúcho, com pouco mais de 3 minutos de duração, vai mais longe. Com o título "Como fazer uma propaganda eleitoral", apresenta um programa político completo.

Já obteve mais de 1,2 milhões de vizualizações, superando praticamente todos os vídeos reais de propaganda eleitoral na internet da mesma campanha.

Logo na abertura, o personagem fala: "Olá, eu sou o candidato. Enquanto a câmera se aproxima calmamente, eu falou pausado, para que você, eleitor de classe baixa, entenda. No momento em que a câmera fecha em close, eu preparo uma frase de efeito para terminar o discurso". Seguem o apresentador jovem "com hormônios a flor da pele", escalado para dar impressão de modernidade e o político consagrado do mesmo partido. E, claro, o jingle. Ao refrão "candidato, número do candidato!", somam-se frases como "agora é a hora do jingle. Pessoas felizes, se dando as mãos. Agora é a hora que eu finjo, que para apoiar não ganhei um tostão".

Os vídeos tem duas características em comum. Para começar, são ótimos. O humor é cáustico, o texto bem construído e nasceram para viralizar. Mas, acima de tudo, vem da mesma fonte. A convicção de que políticos mentem o tempo todo para a população e a propaganda eleitoral é o instrumento para transmitir toda essa enrolação.

A percepção existe. Basta acompanhar as redes sociais, ou mesmo as conversas sobre políticas. Ou ver o percentual de eleitores que se mostra disposto a votar em branco ou anular o voto, segundo as pesquisas de opinião pública. Os próprios vídeos tirando onda com a propaganda eleitoral são um testemunho do sucesso da tese com uma parte da população. O filme de Porto Alegre tem mais de 1,2 milhões de visualizações. Enquanto isso, o clipe com o jingle de José Fortunatti teve cerca de 20 mil. E Fortunatti venceu as eleições de 2010 em Porto Alegre.

O fenômeno apareceu também com força nas pesquisas para consumo interno dos partidos políticos e pré-campanhas eleitorais. Há uma forte rejeição dos eleitores ao velho modelo de propaganda política. Esse dos jingles melosos, imagens de obras feitas por helicópteros e promessas apresentadas por um locutor de voz grave.

As manifestações de junho de 2013, com sua mensagem de rejeição à política tradicional e aos partidos aumentou o risco. Alguns partidos chegaram a abrir mão do espaço que teriam em rede nacional, por entender que não havia o que fazer para se conectar à população.

Os marqueteiros estão tentando se adaptar à novas exigências. No comando dos programas partidários do PMDB há alguns anos, Elsinho Mouco inovou. O último programa trouxe uma companhia de dança e atores falando sobre escolhas. Os medalhões do partido tiveram que se adaptar à mensagem. O de agosto de 2013 praticamente não abriu espaço para os políticos.

Na pré-campanha de 2014, a busca por uma linguagem nova está presente no material apresentado, especialmente pelos candidatos de oposição. Num esforço para se aproximar dos eleitores de sua aliada e candidata a vice, Marina Silva, Eduardo Campos, do PSB, arriscou na forma e no conteúdo. Optou por um estúdio com decoração minimalista. Contra um fundo escuro, apenas duas poltronas. Nelas, com uma fotografia quase em preto e branco, Eduardo e Marina conversaram durante dez minutos. As opiniões se dividiram entre críticas e entusiasmo, mas o programa marcou uma tentativa de estabelecer linguagem própria.

O programa nacional do PSDB, pensado pelo marqueteiro Paulo Vasconcelos para apresentar Aécio Neves ao país também abriu mão de jingles e imagens grandiosas. Na abertura, uma provocação, quase no estilo do "Tá no ar". O apresentador começa em frente à TV, de costas para o telespectador. Levanta, se vira e diz: "Olha, política é igual a televisão sem controle remoto. Se você não levantar para mudar, vai continuar assistindo o que não quer".

A câmera permaneceu focada no senador mineiro, ao longo de uma entrevista em que Aécio falou de sua história, valores e de política, dentro do mote adotado pela pré-campanha dele: "vamos conversar".

A campanha eleitoral de 2014 exigirá uma imensa capacidade de reinvenção não apenas dos candidatos, mas de todos os profissionais envolvidos. As pessoas não tem mais tolerância para receitas prontas ou velhas fórmulas. Será fundamental parecer sincero. E o caminho mais simples para isso é ser sincero. Quem não conseguir, está condenado a parecer velho.