OPINIÃO
14/02/2014 12:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Falar sobre a cama alheia é um prazer culposo

French President Francois Hollande delivers a speech at the French Tech Hub in San Francisco, on February 12, 2014.     AFP PHOTO / POOL / ALAIN JOCARD        (Photo credit should read ALAIN JOCARD/AFP/Getty Images)
ALAIN JOCARD via Getty Images
French President Francois Hollande delivers a speech at the French Tech Hub in San Francisco, on February 12, 2014. AFP PHOTO / POOL / ALAIN JOCARD (Photo credit should read ALAIN JOCARD/AFP/Getty Images)

No final de setembro de 1990, eu levei um furo. Melhor dizendo, a equipe da Folha de S. Paulo em Brasília, onde eu trabalhava, tinha sido furada. Afinal não havia um setorista de casos extra-conjugais no governo a quem culpar explicitamente pelo prejuízo. O Estadão, nosso principal concorrente, chegara às bancas contando detalhes da festa de aniversário da então ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello. Aos 37 anos, Zélia era a mulher mais poderosa do Brasil e a face pública do Plano Collor, que meses antes havia confiscado investimentos e depósitos bancários de milhões de brasileiros. Em sua festa, a ministra abandonara o ar sisudo e fechado e dançara várias vezes com o colega de ministério Bernardo Cabral, titular da pasta da Justiça. Quase sessentão, Cabral era um sujeito boa praça, com fama de galanteador e casado. O Estadão relatou em um saboroso texto como eles pareciam ter esquecido do mundo enquanto passeavam juntos pela pista de dança, ao som do bolero "Besame Mucho". A matéria confirmava algo que se vinha cochichando em Brasília: dois dos mais importantes ministros de Fernando Collor tinham um caso de amor clandestino.

Pode parecer pouco hoje, mas foi uma bomba na época. Tanto que a história custaria o cargo a Cabral e renderia ao Estadão o Prêmio Esso de Reportagem, em 1991. A matéria já nasceu grande, com cara de prêmio. Dá para imaginar qual era o clima na sucursal da Folha na manhã em que ela foi publicada. O interesse pelos detalhes picantes da história se misturava à tensão causada pela necessidade de "entrar no caso" e recuperar o furo sofrido. Nos mobilizamos todos. Eu acabei voltando com uma matéria que dava corpo definitivo aos boatos e pioraria de vez a situação de Cabral. E que ainda por cima era revestida com o manto de uma denúncia administrativa, em vez de ser mera fofoca de alcova.

Descobri que o ministro mantinha dois imóveis funcionais. Um, do Senado, de onde tinha se licenciado para assumir o cargo no governo. Outro, cedido pelo Executivo, para seu uso como ministro da Justiça. No primeiro, vivia com sua mulher. No segundo, era vizinho de porta de Zélia. Com a ajuda de um porteiro falador, descobri que Cabral visitava o segundo apartamento várias noites por semana, de onde saía tarde, para dormir na residência de sua família. Publiquei a matéria em tom de denúncia, mas com referências claríssimas aos estranhos horários do ministro.

Hoje, quase 20 anos depois, lembro dessa matéria sem nenhum resquício do orgulho que senti ao publicá-la, quando jovem repórter. Ao contrário, sinto o constrangimento de ter invadido a vida privada de pessoas públicas. E de ter atingido pessoas que nem sequer tinham vida pública, como a esposa de Cabral, de quem vou evitar citar o nome, por um respeito tardio.

Lembrei desse caso ao ler as matérias acusando o presidente da França, François Hollande, de manter um caso extra-conjugal. O assunto ganhou cobertura mundial. Na reportagem que começou tudo, a revista Closer também arrumou um pretexto nobre para não ser acusada de fazer fofoca. Como Hollande supostamente chegava à casa da amante na garupa de uma motocicleta e acompanhado por apenas um guarda-costas, a revista se declarou preocupada com a segurança do presidente. Claro, faz todo sentido. E eu só queria disciplinar o uso dos imóveis funcionais.

O fato da revista ter disfarçado a intenção da matéria revela, por si só, o constrangimento que os jornalistas sentem ao lidar com esse tipo de história. Falar sobre a cama alheia é um prazer culposo. Parece coisa de imprensa menor, de revista de fofocas. Ao mesmo tempo, provoca conversas, repercussão, comentários. Difícil de resistir. Desde sua criação a Closer inovou, de forma perturbadora, ao estender para os políticos fórmulas usadas no jornalismo de celebridades.

Estamos cada vez mais acostumados a ver esse tipo de pauta direcionada a artistas, atletas ou outras celebridades da mídia. Há mesmo quem faça disso plataforma para conseguir exposição pública. Vivemos em tempos em que determinados personagens se apresentam como "ex-amante de fulano". Na desastrada passagem de cantor Justin Bieber pelo Brasil, uma moça filmou a si mesma ao lado da cama do astro, que dormia, curtindo a ressaca da noite anterior.

Esses tempos de permissividade ajudam a construir a impressão de que não há limites. De que todos os que assumem qualquer tipo de vida pública assinam uma autorização implícita para ter todos os aspectos de suas vidas vasculhadas, do escritório ao quarto.

A pergunta a fazer, para diferenciar o que é notícia do que é fofoca é simples. Basta se questionar se a informação é relevante. As preferências sexuais do artista interferem no seu trabalho? O caso do político muda o conteúdo de sua atuação? Se for, publique-se. Mas não vale esticar a corda e dizer que o problema é o risco do presidente que fica andando por aí de motocicleta. No caso de Bernardo Cabral, houve quem lembrasse que adultério era crime no Brasil na época do seu affair, para justificar a atenção dada ao caso. A valer o entendimento, teriam faltado páginas em jornais e lugar nas já superlotadas cadeias brasileiras.