OPINIÃO
05/05/2015 17:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02

O dia em que mergulhei no pântano com Troy Landry

No último dia 22 de abril, tive a oportunidade de visitar a Fazenda Arurá - onde o veterinário Glenn Collard cria Jacarés-do-Papo-Amarelo no interior de São Paulo - com a companhia do astro do reality show Mergulhados no Pântano, da A&E, Troy Landry. Troy é um caçador de crocodilos licenciado em Louisiana, nos EUA, e juntos com seus três filhos, abastece o mercado de carne e couro da região em temporadas de caça de apenas um mês no ano, além de registrar tudo para a série.

Os jacarés, répteis conhecidos também como crocodilos, aligatores ou até mesmo caimans, habitam o planeta Terra há 250 milhões de anos e possuem enorme adaptabilidade a diversas condições ambientais. Mandíbulas potentes, um corpo musculoso e agilidade para caçar, nadar, submergir e controlar a temperatura do corpo garantiram a sobrevivência e a proliferação da espécie em todo o globo, existindo hoje muitas espécies na Austrália, Ásia, África e América.

No último dia 22 de abril, tive a oportunidade de visitar a Fazenda Arurá - onde o veterinário Glenn Collard cria Jacarés-do-Papo-Amarelo no interior de São Paulo - com a companhia do astro do reality show Mergulhados no Pântano, da A&E, Troy Landry. Troy é um caçador de crocodilos licenciado em Louisiana, nos EUA, e juntos com seus três filhos, abastece o mercado de carne e couro da região em temporadas de caça de apenas um mês no ano, além de registrar tudo para a série.

Com uma cota de caça que já chegou a até 560 animais em 2015 (variando todos os anos de acordo com a população dos animais), Troy ajuda a controlar a reprodução da espécie, a fim de evitar desde desastres ambientais até ataques a animais domésticos e seres humanos em comunidades próximas aos pântanos. No Brasil a caça ao jacaré só é permitida na Amazônia para uma das cinco espécies existentes no país, mas não há rigor no controle, o que pode acarretar em sérios danos ambientais. Por outro lado, o Jacaré-do-Papo-Amarelo - que já chegou a entrar em processo de extinção em um passado recente - é uma espécie que há cinco anos pode ser comercializada e criada em cativeiro, o que também revela sucesso na manutenção da espécie.

Entenda como estes animais brilhantes são vistos e tratados nos dois países nesta matéria e tire suas próprias conclusões.

O debate sobre o controle da espécie

Mas afinal, é legal caçar jacarés? Por que matar o bichinho? E a criação, adianta? Jacarés serão tratados como vacas nas fazendas? E por que não? São muitas perguntas polêmicas que podem ser feitas, mas é importante conhecer os motivos que levaram os países a adotarem suas políticas para entender um pouco mais sobre o mercado de consumo do animal.

Por ocupar lugar de destaque no topo de todas as cadeias alimentares e pela capacidade de gerar média de 40 ovos por ninhada, existem regiões onde algumas espécies acabam se proliferando em excesso, e isso acarreta em um enorme prejuízo ambiental. Com muitos jacarés em um mesmo ambiente, as outras espécies ficam ameaçadas e portanto, é preciso controlar o número de predadores.

A carne do jacaré é saborosa, sendo vermelha nas pernas e branca no restante do corpo. A parte mais saudável em termos de proteínas e colesterol é o pescoço. Abaixo da cauda também há uma região mais valorizada para a gastronomia. É possível aproveitar as costelas, os rins, o pulmão, a língua, quase todo o corpo do animal é digno da culinária.

As fazendas de jacaré não são meros matadouros de animais. De acordo com Glenn Collard, a criação em cativeiro é uma das formas reconhecidas internacionalmente de preservação da espécie, pois é uma maneira de preservar o código genético.

O jacaré nos EUA

Nos Estados Unidos, a caça ao jacaré é legalizada e é a forma encontrada de controlar a reprodução da espécie. Com um número considerável de rios e pântanos, os jacarés se proliferam durante o ano e, uma vez ao ano, durante 30 dias, a caça é permitida para os portadores de uma licença especial. Existem duas espécies americanas destes predadores: o aligator americano e o crocodilo. Bioólogos fazem um rígido controle da população e determinam, ano a ano, a quantidade que será permitida caçar por um mês, distribuindo em cotas para os caçadores.

Mesmo com a permissão, o controle é muito rígido, existindo fiscalização, horários para a caça, e um limite, uma cota, estabelecida para cada caçador, de acordo com seu histórico e estrutura para caçar. No caso de Troy, que caça há muitos anos com seus filhos, sua licença já chegou a permitir que eles caçassem 560 jacarés em uma temporada. O couro e a carne são aproveitados no comércio, vendidos a cerca de três dólares o quilo e, quando há muita procura, chega a 10 dólares o quilo. Mas não é a única fonte de renda da família de Troy. Eles também pescam outras espécies de peixes para complementar a renda que tem com os jacarés. O controle é feito também para evitar ataques a animais de estimação e a pessoas em suas casas nas redondezas dos pântanos. Só na Luisiania, onde Troy reside, estima-se que existam 2 mil licenças para a caça do jacaré, então imagina quanto jacaré há por lá!

Para caçar, eles usam ganchos com iscas de frango e armas. Os animais são bastante territorialistas, então quando um grande jacaré é removido, outro ocupa seu lugar. De acordo com Troy, na natureza, cada jacaré coloca entre 35 e 60 ovos, e demora muito tempo para eles ficarem realmente grandes. Ele conta que uma vez pegou um de 150 anos de idade, com mais de 110 libras (cerca de 250 kg) e mais de 13 pés (4 metros) de comprimento.

Além da temporada de um mês ao ano, os caçadores também estão autorizados a caçar os jacarés que invadem terrenos de habitantes como forma de proteção às pessoas e animais de estimação, e têm autorização para usar o animal caçado como mercadoria também. Todo jacaré caçado deve ser limpo para a comercialização, não sendo permitido apenas a morte dos animais sem o objetivo de consumo da carne e do couro.

Também há casos de criadores que pegam os jacarés na natureza e os criam em cativeiro para que nasçam mais ovos, mas 15% de todos os ovos devem ser devolvidos à natureza. Isso também ajuda a preservar a espécie, vez que na natureza lagartos e pássaros atacam os ovos dos jacarés e a taxa de sobrevivência é de apenas 4%. Com esse procedimento, o sucesso de sobrevivência da espécie aumenta em três vezes por haver mais ovos para eclodirem. Outra manobra de preservação é a realocação de animais, que por vezes são levados para lugares com menos incidência de exemplares para popular a região.

Nos EUA, o jacaré é o topo da cadeia alimentar, não existindo predadores para eles. Mesmo com a existência de ursos, os hábitos alimentares diferentes não causam conflitos entre as espécies. Já no Brasil, a sucuri e a onça pintada são os únicos animais que podem vencer o jacaré, mas isso só ocorre onde habitam as espécies, na Amazônia e no Pantanal.

O jacaré no Brasil

No Brasil, há cinco espécies de jacaré, com três delas tendo incidência mais expressivas no território nacional. Na amazônia, o Jacaré-Açú (também conhecido como Jacaré-Aruará ou Jacaré-Gigante), maior da espécie no País, não enfrenta problemas de população, mas a caça legalizada e sem fiscalização pode vir a causar danos em um futuro próximo. De acordo com Glenn Collard, criador de jazarés-do-papo-amarelo em SP e no RJ, com mais de 1200 exemplares criados em cativeiro, a falta de fiscalização na Amazônia pode vir a causar um prejuízo grande à espécie amazônica, porque os caçadores podem matar mais animais que o necessário.

Já na região do Pantanal matogrossense, onde habita o Jacaretinga (também conhecido como Jacaré-do-Pantanal ou Jacaré-Negro) há exploração comercial legalizada da carne e couro do animal, e existem fazendas de criação para estes bichos, preservando os exemplares que vivem na natureza. Lá também é feito retorno dos ovos à natureza, assim como nos EUA.

O terceiro animal brasileiro de grande incidência é o Jacaré-de-Papo-Amarelo, que já esteve ameaçado de extinção e, graças aos projetos de preservação e criação da espécie, hoje já foi liberado para comercialização também. Ele habita a mata-atlântica, que já teve 90% de sua extensão destruída, o que levou o animal, há alguns anos, a beirar a extinção. Há cinco anos sua criação foi liberada por ter atingido um controle da população, o que demonstra sucesso na preservação da espécie. As outras duas espécies brasileiras, de menor incidência, são o Caiman-de-Cara-Lisa (ou Jacaré-Coroa) e o Paguá, não muito representativos em número e extremamente ameaçados de extinção.

Além do couro, muito valorizado para a confecção de calçados e acessórios diversos como carteiras, cintos e bolsas, a carne do jacaré também é muito apreciada e hoje é comercializada no Brasil dentro de rígidas normas e controles ambientais. O valor da carne varia entre 25 e 40 reais o quilo, e a carne de todo o corpo do jacaré pode ser aproveitada. O gosto se assemelha ao frango, um pouco mais rígido.

Durante o período de hibernação, que dura cerca de quatro meses, os jacarés não são alimentados na fazenda, porque não produzem as enzimas necessárias para a sigestão na mesma quantidade e podem se prejudicar com a ingestão de alimentos.

Para o jacaré-do-papo-amarelo, não é preciso devolver ovos para a natureza, mas caso o Governo decida, os criadores devem devolver ovos ou animais à vida selvagem sem titubear. Na fazenda, os animais convivem em casais. Não existem problemas com doenças, mas as brigas são constantes, e algumas vezes custam um membro de um animal ou sua vida. Para justificar a morte de um animal é feito um laudo veterinário que deve ser apresentado ao governo e aos órgãos competentes, a fim de controlar os motivos que levaram o bicho a óbito.

A fiscalização, no Brasil, é feita por meio de microchipagem. Os jacarés criados em cativeiro são microchipados e, quando é pequeno, também é colocada uma etiqueta de alumínio em uma de suas membranas. Como na natureza podem haver brigas e eles podem perder a etiqueta, também há uma outra marca na crista da cauda. Isso é feito com os filhotes assim que nascem, como um código de barras, e é feito a partir do momento que vão para o tanque coletivo, após saírem da incubadora. A punição para a criação fora dos padrões estabelecidos no país pode acarretar na perda da licença para a comercialização.

Em conclusão, cada país tem suas formas de lidar com espécies e cada território tem seus problemas. Enquanto nos EUA há excesso de jacarés, no Brasil há programas de criação em cativeiro de algumas espécies para aumentar sua população. É muito gratificante saber que o jacaré-de-papo-amarelo não é mais ameaçado e isso se deve a pessoas como Glenn, que contribuem com a fauna brasileira de forma consciente. Na América do Norte, apesar da carnificina, é possível compreender a posição do governo frente à enorme população de aligatores americanos nas cercanias da casa de Troy. O importante é saber que, se depender das atuais conjunturas, os jacarés ainda viverão por outros 250 milhões de anos.

Imagens: Gustavo Angimahtz (baixa resolução) e Evandro Monteiro/A&E (alta resolução)