OPINIÃO
06/07/2015 16:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Sense 8, dos diretores de Matrix, é progressismo feito (quase) direito

Comecei a assistir sem muitas expectativas. Logo no primeiro episódio, a cena de sexo entre uma mulher branca e uma negra parece receita de bolo para atrair atenção, ao melhor estilo HBO. Os personagens, espalhados por oito cidades, mostram diferentes culturas, mas, também, muitos estereótipos. Abundam clichês. Decepção. Até que, aos poucos, a trama vai revelando que nada disso está ali à toa.

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O Netflix vai dominar o mundo. Assim que tomaram de assalto o emergente mercado de streaming, resolveram dar o próximo passo: produções próprias. Lançaram Lilyhammer sem muito barulho, seguida do sucesso de House of Cards. Hoje, já existem diversas séries em vários estilos, produções infantis, spin-offs da Dreamworks, animes, documentários e, até, uma parcela do universo cinemático da Marvel. Todas produções originais.

No mês passado estreou mais uma, Sense 8. A série chamou muita atenção por ter sido dirigida pelos irmãos Wachowskis, os famosos diretores de The Matrix. Ainda melhor, mas só para os mais nerds, um dos criadores e roteiristas da série é J. Michael Straczynski, de Babylon 5, e prolífico escritor de quadrinhos (Homem-Aranha e Thor, entre outros). O tema, em si, não me chamou muita atenção: oito personagens ao redor do mundo começam a experimentar sensações compartilhadas, como se fossem uma só pessoa. Eu já comecei a imaginar aquele roteirinho básico de Hollywood: um monte de histéricos, um incomodando o outro, brigas constantes, comédia, até que eles aprendem a se unir e combater o mal.

**Aviso aos muito puristas: não contém nenhum spoiler relevante, mas comentarei uma ou outra cena, como exemplos, que não entregam nada.**

Comecei a assistir sem muitas expectativas. Logo no primeiro episódio, a cena de sexo entre uma mulher branca e uma negra parece receita de bolo para atrair atenção, ao melhor estilo HBO. Os personagens, espalhados por oito cidades, mostram diferentes culturas, mas, também, muitos estereótipos. Abundam clichês. Decepção.

Até que, aos poucos, a trama vai revelando que nada disso está ali à toa. A mulher branca da referida cena, logo descobrimos, é uma mulher trans. Uma personagem fascinante e muito bem interpretada. Interessantemente, um dos Wachowskis, Lana, nasceu Laurence. E essa é a primeira vez que eles abordam o tema, diretamente, em seus trabalhos. Os outros personagens principais são tão diferentes entre si quanto se poderia conceber: O ladrão alemão; o ator mexicano; a DJ islandesa em Londres; o policial padrão em Chicago; o motorista de lotação no Quênia; a indiana bonitinha prestes a se casar, a CFO Coreana que é mestre em artes marciais, cada um vai experimentar a vida um do outro. Parece a receita para as cansativas desavenças histéricas que eu estava esperando.

No entanto, o que não escapou aos Wachowskis, e a Straczynski, é que experimentar a vida de outra pessoa tem consequências. E é aí que Sense 8 se torna uma ode ao que de melhor existe no progressismo: a aceitação alegre do outro. O progressismo se torna um movimento meio estranho, uma espécie de fundamentalismo, quando esquece dessa alegria. Progressismo não é, ou não deveria ser, a luta contra o conservadorismo. Progressismo é a afirmação alegre de valores como respeito, liberdade, aceitação, autodeterminação. Os personagens de Sense 8 conseguem sentir o que o outro sente, intimamente. Por isso, não se odeiam, não se culpam, não se acusam. A cena mais emblemática é a "orgia mental" que todos experimentam no episódio 6. Cada um na sua, mas unidos em uma experiência comum, humana, uma espécie de "forma platônica" da sexualidade, que não reconhece barreiras.

O jeito mais fácil de explicar como é ter uma ligação empática tão profunda com alguém é pensar na relação que temos com nossos filhos. Tudo o que vemos de bom neles nos alegra. Tudo o que vemos de ruim neles, nos afeta de compaixão. Não há lugar para ódio, ou rejeição. Percebendo isso, os criadores bolaram seus personagens, os "sensates": uma espécie capaz de ultrapassar o individualismo. Eles interagem entre si de diversas maneiras. Às vezes, um empresta alguma habilidade ao outro, resultando em cenas de ação espetaculosas, bem à maneira dos Wachowskis. Mas, na maioria das vezes, eles conversam. E eles se aceitam. Às vezes, até, se amam.

Todo o exagero e virtuosismo, marca registrada dos diretores, está nas cenas de ação. Em lindo contraste com a simplicidade e sutileza das interações entre os personagens. O policial de Chicago não titubeia ao corrigir quem chama a transexual de Michael ("Nomi, her name is Nomi"). Não porque ele adere a algum movimento progressista, ou é militante LGBT. Não. Ele simplesmente sente o que ela sente, e a aceita como ela se sente. É só uma frase que ele diz. Às vezes, é só um sorriso entre eles. Ou a alegria inocente do queniano no avião, lembrando à depressiva islandesa da mágica que é estar acima das nuvens. Há uma trama de aventura, explicações pseudo-científicas, e o vilão esquecível. Há furos de roteiro e atuações irregulares. Mas, nas pequenas cenas que demonstram o poder do encontro com o diferente, Sense 8 deixa sua marca.

Talvez não haja uma segunda temporada. A recepção crítica foi dúbia. De fato, Sense 8 tem muitos defeitos, principalmente, por não escapar de alguns clichês. Por exemplo, a representação dos partos dos oito personagens é estereotipada ao extremo. Apesar disso, é uma obra audiovisual sui generis. Não é fácil de se classificar, faz tudo muito diferente do que se espera, provoca sensações e questionamentos incomuns. Como Matrix, tem um subtexto filosófico instigante. Afinal, não é preciso ter habilidades paranormais para aprender a entrar em contato com o diferente, munido de aceitação e alegria. Seria brega dizer que a única habilidade necessária é o amor. Mais correto é dizer que, quando se aprende a fazer isso, resta pouco espaço para outros sentimentos além do amor.

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