OPINIÃO
05/03/2015 16:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Se a lista de aprovados da Fuvest pudesse falar

Opa, parece que o seu nome está aqui. Como é mesmo? Ah sim, está aqui, bem aqui, veja. Carreira N, aprovado, primeira lista. Muito bom, pode comemorar.

Ethnocentrics/Flickr
Fotos de Jorge Tung e Débora Ribeiro

Opa, parece que o seu nome está aqui. Como é mesmo? Ah sim, está aqui, bem aqui, veja. Carreira N, aprovado, primeira lista. Muito bom, pode comemorar.

Mas, espere um pouco. Não vá se animando demais ou chegando a conclusões precipitadas. Digo isso porque você, certamente, começou a experimentar algum arroubo emocional, sentindo-se cheio de si, orgulhoso. Calma lá, vamos pensar juntos sobre o que isso significa. Não vá ter sentimentos injustos. Como injustos? Ora, vejamos. Será mesmo que foi você, por seus próprios méritos, quem conseguiu esse resultado? Quantos anos você tem? Nem fez dezoito ainda? Ora, está claro que seus pais têm muito mais motivos para se orgulhar que você. Com certeza, foram eles quem se esforçaram para lhe dar uma boa educação, pagar os melhores colégios, infundir em você os valores da disciplina e do amor pelo conhecimento. Ou, você acha que as horas diárias que dedicou aos estudos resultaram de algum esforço heroico que nasceu de você, do nada? Não. Você foi capaz de estudar enquanto seus amigos gazeteavam. Mas, só porque é essa a sua índole. Mérito de seus pais.

Você pode, agora, sentir uma tentação de ir agradecer aos seus velhos, exaltar-lhes as virtudes que resultaram nessa conquista. Mas, calma. Seus pais, também, não seriam capazes de lhe dar todo esse apoio se não tivessem essas mesmas virtudes devidas a seus avós, e assim por diante. E nem, considere, seria possível passar esse tipo de valores sem um suporte social, condições materiais, etc. Enfim, se você parar para analisar com calma, verá que esse seu nome na lista deve-se quase nada aos seus esforços, mas aos seus privilégios. Talvez seja mais adequado sentir culpa que alegria. Pense bem.

Além disso, não se esqueça de que os resultados dessa lista não refletem, exatamente, uma competição entre iguais; nem, muito menos, uma disputa meritocrática. A universidade pública não é lugar para os "melhores", se é que essa palavra tem algum sentido. Ela deve, na verdade, espelhar a composição da sociedade. Há cotas, ajustes, bonificações. Você foi aprovado. Eu espero que isso lhe deixe muito feliz. Só quero garantir de você fique feliz pelos motivos corretos. Sua aprovação significa que você satisfaz os critérios para compor uma seleção representativa e igualitária da sociedade, que permita ao corpo discente da universidade cumprir sua função social. Parabéns, você tem o mérito de corresponder ao que era esperado para esse momento histórico. Isso pode parecer mais um acaso que o resultado de seu esforço. Mas não se deixe abater. Você serve para entrar, isso é o importante.

Eu sei, eu sei. Você só queria sair gritando, com lágrimas nos olhos, abraçar seus pais. Por favor, não deixe que eu lhe impeça de fazer nada disso. Quero que seja muito feliz. Só lhe digo essas coisas para que você não se iluda. A felicidade real, justificada, está para a ilusória como o vinho para o vinagre. É um bem que lhe faço, acredite. Aliás, sinto-me obrigado a mencionar, não se esqueça que a faculdade vai lhe modificar de maneira indelével e não só de forma positiva. Ao ingressar no estudo superior existe uma chance considerável de que você passe a integrar, se já não o faz, a elite intelectual e econômica da sociedade. E o que isso significa? Ora, que você será culpado pelas injustiças, pela desigualdade e pela violência. Desde já, a vaga na universidade pública é um privilégio que você está ganhando como resultado de outros privilégios. Sua presença nas salas de aula já é uma enorme injustiça. Eu sei que você carregará esse fardo com galhardia e que irá dedicar anos de sua vida a pagar por essa culpa com o seu trabalho.

Só tome cuidado para não se encantar com a faculdade. Lá, encontrará desavisados que se sentem orgulhosos, que se permitiram acreditar serem dotados de alguma quimera de capacidade ou inteligência que poderia ser usada para o bem, mas que, na verdade, serve apenas para manter privilégios. Mas não você. Você, paciente para me dar ouvidos, lúcido para acatar a razão, sabe que até essas características não são nenhum mérito seu, mas resultam de uma conjuntura social que o favoreceu. Ainda assim, não as despreze. Ouça-me e saiba que você não foi aceito para se tornar um profissional seja lá de qual profissão tenha escolhido. Isso pode até acontecer, se houver tempo e oportunidade. Isso é secundário. Você foi aceito, na verdade, para se tornar um agente de transformação social. Isso não depende de nenhum mérito seu, nenhuma característica pessoal, muito menos de algum conceito burguês de virtude. Não, fique tranquilo, nada disso depende de você. A verdade lhe será relevada, e você saberá o que fazer.

Muito bem. Então, agora, vá e seja feliz. Parabéns por ganhar essa oportunidade de servir a algo maior, mesmo que você não tenha feito nada concreto para merecê-la. Só não abuse da comemoração. Lembre dos casos de estudantes morrendo de tanto beber. Não entre nesses absurdos de fazer festas e consumir álcool. Comemore com um baseado entre amigos. Isso pode.

*Esta sátira foi inspirada por um trecho de "Justiça", de Michael Sandel (pág. 222, 223 - Ed. Civilização Brasileira).