OPINIÃO
03/04/2015 11:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Quando a tragédia bate à porta

Vamos regulamentar mais. Vamos encarecer e complicar vários processos, aumentar exigências e criar mecanismos de controle. Vamos desenvolver novas e melhores tecnologias. É assim que progredimos. E que ninguém me tome por alguém que é contra o progresso. Pelo contrário, acho fascinante essa vontade, essa determinação humana para ser cada vez melhor.

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Milênios atrás, no coração da selva africana, um hominídeo caçava. A lança em sua mão enchia-o de audácia, em antecipação pelo golpe mortal; o sibilo que prenunciaria o abate; a euforia do poder. Sentia-se forte, o mais perigoso dos animais, com sua tecnologia de pedra. Tão forte que ousou ir além do território habitual, confiante e curioso. A selva foi se adensando, as folhagens barrando cada vez mais a luz do sol. Viu-se, repentinamente, em um dia noturno.

Cuidou de fazer menos barulho, demorando o olhar em cada arbusto, atento ao som do vento em folhas inertes. Onde podia enxergar padrões, nas folhagens, nos troncos das árvores, fantasiava rostos ameaçadores; olhos de leoas; dentes de hienas. Mantinha seu medo como um animal domesticado, e pressionava a lança com força, sentindo o conforto da madeira talhada como uma carícia em sua palma suada. Enfrentaria o predador que fosse, e venceria.

O que o derrotou, no entanto, não foi nenhuma grande fera, real ou imaginária. Foi da ausência de ameaças que seu olhar se tornou prisioneiro. Dentre as formas e relevos que mal discernia, uma mancha de pura escuridão se formara. Olhou, profundamente, para aquele nada que, a princípio, lhe pareceu um tecido negro como a pele de sua mãe. Depois, como se crescesse, e se aprofundasse, tornara-se um poço que lhe dava vertigem. Por mais que fizesse não podia desviar o olhar, mesmo quando sentiu seus pelos eriçarem e o coração parar, como se tivesse sido jogado nas águas escuras do lago no alto do inverno. Pareceu ter ouvido todos os sons que já temeu na vida; o estalar de passos leves se aproximando; um rosnar lento e feroz; um uivo no meio da noite. Pensou ter visto olhos lhe encarando, mas não eram. Não eram os olhos brilhantes dos grandes gatos, faíscas fatais. Eram olhos calmos, opacos, negros, como os de seu pai. Como os seus.

Correu dali com todas as suas forças, e só parou quando seu peito ardia como se respirasse o próprio sol, que agora lhe dava abrigo. Deitou-se, acarinhado pelo calor, e abraçou sua lança como uma criança agarra o peito que lhe amamenta. De longe, podia ver a tribo, as cabanas de galhos e peles, a fumaça do fogo. Examinou sua arma, sua construção rudimentar de pau e pedra, e pensou: "Isso é o que posso hoje. A lança, a cabana, o fogo. Mas, um dia, poderei mais. Um dia farei melhor, e jamais correrei de medo novamente".

***

Quando um piloto decide derrubar um avião, é inevitável que olhemos para os procedimentos, os diagnósticos, as tecnologias de segurança, e pensemos sobre o que podemos fazer melhor. E que bom! É por isso que progredimos tanto.

Quando um menor comete um crime hediondo, é inevitável que façamos o mesmo. Vamos questionar as leis, a maioridade penal, a educação, os valores. Que bom. É assim que progredimos.

Vamos regulamentar mais. Vamos encarecer e complicar vários processos, aumentar exigências e criar mecanismos de controle. Vamos desenvolver novas e melhores tecnologias. É assim que progredimos. E que ninguém me tome por alguém que é contra o progresso. Pelo contrário, acho fascinante essa vontade, essa determinação humana para ser cada vez melhor. Voar cada vez mais alto. Como Ícaro.

No fim, a maior de todas as tragédias é a natureza humana, que depende inextricavelmente de suas próprias misérias para atingir a grandeza.