OPINIÃO
25/02/2015 19:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

O maravilhoso mundo mágico do ateísmo

O mundo é muito mais curioso, até mais mágico, quando observado pela ótica do ateísmo. A hipótese Deus resolve rápido demais todas as grandes questões. Sem contar as grandes angústias. Como é possível que sejamos conscientes de nós mesmos? Como é possível que escrevamos poesias, que criemos religiões e sistemas simbólicos? Como pode ser que nos emocionemos ao som de clarinetes? Como pode haver moral? Qual a origem do universo? Enquanto algo em torno de 90% da população mundial responde a essas questões com uma saída mágica, outros 10% continuam fascinados, intrigados, curiosa e ativamente estudando a natureza e o fenômeno humano.

chandra.harvard.edu/photo/2010/sgra/Image credit: X-ray: NASA/CXC/MIT/F. Baganoff, R. Shcherbakov et al. Caption credit: Harvard-Smithsonian Center for AstrophysicsRead more about Chandra:www.nasa.gov/chandrap.s. You can see all of our Chandra photos in the Chandra Group in Flickr at: www.flickr.com/groups/chandranasa/ We'd love to have you as a member!" data-caption="Astronomers have long known that the supermassive black hole at the center of the Milky Way Galaxy, known as Sagittarius A* (or Sgr A* for short), is a particularly poor eater. The fuel for this black hole comes from powerful winds blown off dozens of massive young stars that are concentrated nearby. These stars are located a relatively large distance away from Sgr A*, where the gravity of the black hole is weak, and so their high-velocity winds are difficult for the black hole to capture and swallow. Scientists have previously calculated that Sgr A* should consume only about 1 percent of the fuel carried in the winds. However, it now appears that Sgr A* consumes even less than expected -- ingesting only about one percent of that one percent. Why does it consume so little? The answer may be found in a new theoretical model developed using data from a very deep exposure made by NASA's Chandra X-ray Observatory. This model considers the flow of energy between two regions around the black hole: an inner region that is close to the so-called event horizon (the boundary beyond which even light cannot escape), and an outer region that includes the black hole's fuel source -- the young stars -- extending up to a million times farther out. Collisions between particles in the hot inner region transfer energy to particles in the cooler outer region via a process called conduction. This, in turn, provides additional outward pressure that makes nearly all of the gas in the outer region flow away from the black hole. The model appears to explain well the extended shape of hot gas detected around Sgr A* in X-rays as well as features seen in other wavelengths. This Chandra image of Sgr A* and the surrounding region is based on data from a series of observations lasting a total of about one million seconds, or almost two weeks. Such a deep observation has given scientists an unprecedented view of the supernova remnant near Sgr A* (known as Sgr A East) and the lobes of hot gas extending for a dozen light years on either side of the black hole. These lobes provide evidence for powerful eruptions occurring several times over the last ten thousand years. Read entire caption/view more images: chandra.harvard.edu/photo/2010/sgra/Image credit: X-ray: NASA/CXC/MIT/F. Baganoff, R. Shcherbakov et al. Caption credit: Harvard-Smithsonian Center for AstrophysicsRead more about Chandra:www.nasa.gov/chandrap.s. You can see all of our Chandra photos in the Chandra Group in Flickr at: www.flickr.com/groups/chandranasa/ We'd love to have you as a member!" data-credit="NASA's Marshall Space Flight Center/Flickr">

Há uma expressão, em inglês, que os críticos do ateísmo usam para identificar uma falácia desse pensamento: "nothing-buttery". Algo como: "nada-maisice". Ela acusa a mania dos pensadores da ciência e do ateísmo de empregar frases como: "O homem nada mais é que um animal", ou "A mente nada mais é que um subproduto da atividade neurológica". É uma crítica inteligente. Ela ataca diretamente o ponto onde a discordância é mais essencial, e mais afetivamente carregada.

É muito antiga a história das grandes desilusões a que a razão submeteria o ser humano. Considere Sócrates, condenado à morte por ousar pensar demais, subvertendo as crenças da época. Considere Galileu, que quase queimou na fogueira por afirmar que a Terra gira em torno do Sol. Afinal, se ele estivesse certo, nosso planeta seria nada mais que, apenas, outro planeta, e não o centro da Criação. A nada-maisice sempre ameaça, mas, como se vê, nem sempre leva à conclusão errada.

Para os críticos, a tal falácia da nada-maisice é um exemplo de superstição. O que eles chamam de "superstição materialista", a crença de que só o que existe é o mundo material. Restaria aos ateus uma visão opaca da natureza, triste, limitada. O homem nada mais é que um animal. O amor nada mais é que uma reação química. O teto da Capela Sistina nada mais é que um aglomerado de pigmentos. A Quinta Sinfonia, nada mais que vibrações nos tímpanos. Mas, a pior de todas as consequências do pensamento científico, o ápice do desencanto, seria o ateísmo. O universo não é nada mais que poeira de estrelas. E nós, após a morte, nada mais que pó, de terra mesmo. Dói tanto, que é inacreditável. Inaceitável.

Em "A Teoria de Tudo", filme em cartaz sobre a vida de Stephen Hawking, essa tese é desmontada, sem que se toque no assunto. Logo no começo, a pérola: "Cosmologia é uma espécie de religião para ateus inteligentes" - diz o sempre irônico Hawking. No final, alguém lhe pergunta em uma entrevista: "O senhor já declarou que não acredita em Deus. Tem alguma filosofia de vida que lhe dê suporte?". Essa é outra preocupação comum dos crentes: como saber o que é certo ou errado, sem Deus? Como aspirar por algo melhor, sem Deus? Como se apegar à vida, sem Deus? Se os ateus acreditam que não somos nada mais que animais, eles devem viver como animais, não? A história de Hawking, como contada no filme, é uma história de amor; humor; inspiração e apego. É uma história de felicidade, aquela real, temperada pela tragédia da vida. E é a história de um ateu fascinado pelo mistério.

O que os críticos parecem não entender é que o mundo é muito mais curioso, até mais mágico, quando observado pela ótica do ateísmo. A hipótese Deus resolve rápido demais todas as grandes questões. Sem contar as grandes angústias. Como é possível que sejamos conscientes de nós mesmos? Como é possível que escrevamos poesias, que criemos religiões e sistemas simbólicos? Como pode ser que nos emocionemos ao som de clarinetes? Como pode haver moral? Qual a origem do universo? Enquanto algo em torno de 90% da população mundial responde a essas questões com uma saída mágica, outros 10% continuam fascinados, intrigados, curiosa e ativamente estudando a natureza e o fenômeno humano.

Existem ateus supersticiosos, é claro, como existem crentes racionais e curiosos. Mas, a ideia de que o ateísmo pressuponha alguma diminuição do humano, alguma tristeza, é um engodo. Eu sou ateu. É uma constatação da realidade, para mim, mas também é uma escolha, e uma muito prazerosa. Eu não tenho a reposta para as grandes questões, mas a busca é fascinante, e gratificante. De volta a Hawking, no filme: "Essa foi minha tese de doutorado. Minha pesquisa atual busca desbancá-la". Essa é a atitude mais típica do ateu científico, que surpreende o crente típico: não há lugar para superstições, crenças, ideias fixas inquestionáveis. Nada é "nada mais que só isso". Tudo é uma dúvida, um desafio, uma busca. A religião, essa sim, é o domínio da nada-maisice: "O homem é nada mais que uma dávida caprichosa de Deus"; "O universo é nada mais que uma tela para a criatividade do Criador", "O mundo em que vivemos é nada mais que um estágio transitório, antes do Outro Mundo, que seria eterno". Para o ateu, a natureza não é menor, ao excluir o sobrenatural. Toda a maravilha continua existindo e, melhor ainda, aqui mesmo, no mundo real.

O ateu não é cego. Ele não nega o amor, a arte, o encanto, a moral. Pelo contrário, ele se esforça por entender como tudo isso é possível, dada a realidade de nossas experiências. A explicação sobrenatural é que subtrai a magia de todos esses fenômenos. Se não vamos para o céu ou para o inferno, por que ser bom? Por que ser altruísta, caridoso, generoso, se não há nada além? Ora, propor que agimos moralmente com vistas à recompensa eterna é como dizer que não agimos moralmente. Seríamos apenas interesseiros. Retirar o Reino dos Céus da jogada torna o estudo do fenômeno da moralidade humana muito mais interessante. E muito mais humano. O mesmo com a arte. Se a beleza da Capela Sistina, ou a harmonia da Quinta, puderem ser explicadas pela mágica de uma alma imortal, isso é um grande mérito para Deus, mas nem tanto para Michelangelo ou Beethoven. Parece magia, mas foi um intrincado aparato neurológico em constante interação com o meio, capaz de responder a estímulos físicos externos e internos - de hormônios a símbolos culturais - que produziu tantas maravilhas. Isso equivale a dizer que somos nada mais que um conjunto de neurônios? Não. Equivale a dizer que nosso conjunto de neurônios é fascinante, incrível, apaixonante. Tão mágico, que é capaz de criar deuses.