OPINIÃO
09/03/2016 16:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Medicina, jazz e a busca pela excelência

Recentemente assisti a Whiplash e fiquei surpreso com quão relevante é esse filme para quem estuda e ensina medicina. O filme acompanha um baterista de jazz, estudante em prestigiado conservatório, e o professor que o submete a abusos e humilhações. É belíssimo e muito bem realizado, mas bastante polêmico.

Reprodução/IMDB.com

Recentemente assisti a Whiplash e fiquei surpreso com quão relevante é esse filme para quem estuda e ensina medicina.

O filme acompanha um baterista de jazz, estudante em prestigiado conservatório, e o professor que o submete a abusos e humilhações. É belíssimo e muito bem realizado, mas bastante polêmico.

Há, não se pode negar, alguma apologia ao método abusivo.

O aluno abandona o curso, o professor é processado, perde o emprego, comenta-se que um ex-aluno seu foi levado ao suicídio pelo método.

Então, também há crítica.

Mas, no final, a expressão do pai ao descobrir-se estupefato, inebriado pela performance genial do filho, deixa a sugestão de que, diante do deslumbramento, tudo vale a pena.

Será que Whiplash é uma apologia ao abuso?

Não creio.

Mas é uma provocação corajosa.

É um chacoalhar na apatia acomodada da mediocridade reinante.

Eu não tinha ideia de o quanto esse filme falaria diretamente a mim.

Em educação médica, o debate sobre o valor pedagógico do sofrimento é muito atual. Essa tirinha, do site Meus Nervos, situa bem a discussão:

É bem intuitiva a ideia de que para fazer medicina é necessário ser resistente ao sofrimento. É uma carreira muito exigente.

Há muita pressão, responsabilidade, cobrança.

Um erro pode ter consequências gravíssimas.

Há uma ética de trabalho e resiliência no meio médico que valoriza o sacrifício: as cirurgias que levam dezenas de horas; as rondas hospitalares que adentram a madrugada; os plantões de 24 sem descanso no dia seguinte; trabalhar doente, arrastando o soro endovenoso pelos corredores do hospital.

É esperado que o médico não só aguente, mas vibre com essas vivências.

É esperado que aqueles que não aguentem desistam enquanto é tempo.

A prática médica é para os fortes.

Nem tão intuitivo, no entanto, é o valor do discurso oposto, que tenta apontar o quão perniciosa essa ética pode ser.

Ao longo da formação, o médico aprende que demonstrar fraqueza, adoecer ou não suportar pressão são defeitos.

Acontece que assim serão muitos dos pacientes que ele irá atender: indivíduos em grande sofrimento, doentes, incapacitados, muitas vezes lidando com dificuldades que os sobrepujam absolutamente.

O melhor que se pode esperar da formação médica abusiva é que ela gere médicos altivos e benevolentes que, mesmo tão superiores aos pobres mortais que sofrem, os tratem bem.

Mas, na média, ela gerará médicos ensinados a serem insensíveis ao sofrimento, que verão seus pacientes como pertencentes ao outro lado: os fracos, os que não resistem.

Eu engrosso o coro dos que acreditam que a formação médica deve ser mais humana. Devemos preparar os alunos para respeitar seus limites, lidar com a impotência, reconhecer suas falhas e incertezas.

Isso não é nenhuma revolução. Já está acontecendo nas faculdades de medicina, e já estamos observando os resultados. Como eu já comentei em outro texto, nunca se trabalhou tanto os aspectos humanísticos da medicina, durante a formação, quanto hoje em dia.

Mas é aí que entra Whiplash e seu sonoro tapa na cara. Não para defender os abusos.

Mas para que não abandonemos a busca pela excelência.

Melhor ainda, para que não destronemos a excelência de sua posição de direito como uma virtude.

Infelizmente, o processo de desvalorização da excelência está a todo vapor. Junto à bela ideia de estimular a formação de médicos mais humanizados, inseriu-se a ideia de que ser médico não é nada demais.

Qualquer um pode ser e sem nem muito esforço. Afinal, mérito e esforço são invenções capitalistas.

Basta um pouco de empatia e habilidades sociais, ser carismático e acolhedor, e pronto.

Está lá um bom médico. Bom o suficiente.

É na onda de ideias como essa que assistimos à importação de médicos do exterior aos milhares. Não é preciso que tenham sido aprovados em nada.

Não há nenhum critério de excelência. Basta que estejam lá, presentes, para segurar a mão dos pacientes, até então abandonados.

É assim que aprovam dezenas de novas escolas de medicina sem hospitais, professores ou recursos.

A carência na saúde é tanta que basta qualquer um, fazendo qualquer coisa, que já nos sentimos aliviados.

Em qualquer profissão é muito difícil almejar à excelência. Um baterista de jazz tem de superar limites para chegar ao panteão dos fora de série.

Em Whiplash, o professor prega que não importa o que ele tem de perder pelo caminho: relacionamentos; amizades; prazeres; hobbies, até mesmo sua humanidade. Nada importará quando ele realizar o solo perfeito.

Em medicina é diferente. Não é possível ser excelente perdendo de vista que só se faz medicina em relação com outro, e para o benefício do outro.

O médico excelente tem de ser incrivelmente técnico e incrivelmente humano. É um desafio muito difícil, mas cortar caminho descuidando de qualquer um desses aspectos é impossível.

O médico é, verdadeiramente, um profissional de elite. Passa por rigorosas seleções, sempre disputando vagas em altíssimo nível; tem de ter um domínio amplo e profundo de diversas áreas das ciências e humanísticas; frequentemente assume posições de liderança, compatíveis com a enorme responsabilidade que carrega; é estimulado a desenvolver, além da prática da profissão per se, atividades de ensino e de pesquisa; precisa estar constantemente engajado em educação continuada e reciclagem.

Só que ser "elite" ganhou toda uma conotação nefasta. De repente, aceitar essa pecha de excelência passou a ser mal visto. Causa mal-estar.

De repente, ser aceito na faculdade ou residência não é mais coisa para os melhores, mas para quem tem mais bonificações por vir de escola pública ou ter trabalhado na atenção básica.

De repente, a hierarquia entre professores, residentes e alunos caiu por terra, como apenas mais um sintoma do autoritarismo da sociedade moderna.

Aristóteles pregava a famosa doutrina do meio-termo, segundo a qual uma virtude está sempre entre dois extremos.

Por exemplo, a coragem se situa entre a temeridade e a covardia. Mas ser virtuoso não é ser mais ou menos corajoso. É evitar, ao mesmo tempo, os extremos e a mediocridade.

A virtude é a expressão mais excelente de tudo o que esses extremos negam, e deve ser perseguida ao máximo.

A excelência da medicina, também, está entre dois extremos. De um lado, a competência técnica que beira o narcisismo, levando a autoritarismo e abusos.

De outro, uma espécie de humildade complacente que solapa valores e reduz todo o mérito a uma função social.

A medicina não pode abrir mão de nenhum desses lados. Mas deve ser a expressão de tudo o que esses extremos negam.

O médico excelente deve, sim, ser brilhante. Só precisa saber que seu brilhantismo está sempre a serviço do outro.

Sem isso, é só um narcisista. O oposto, no entanto, não é um médico humano e humilde.

É só um incompetente mesmo.

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