OPINIÃO
28/12/2015 13:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Ideologia de gênero e os desafios da educação pública

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É difícil que a gente pare para pensar com cuidado sobre questões que não nos afetam diretamente. Eu não trabalho com educação. Minha filha estuda em escola particular. Então, não é comum que eu me dedique a refletir profundamente a educação pública.

Eu penso muito sobre o meu trabalho, no entanto. Eu gosto de refletir com calma, entender os cernes dos problemas que se apresentam para tomar as melhores condutas. Um exemplo:

Há uns dez anos, quando eu coordenava uma enfermaria psiquiátrica de crianças e adolescentes, a enfermeira veio me procurar com um pedido da mãe de um paciente. Ela gostaria de levar o pastor de sua igreja à enfermaria, para conversar com seu filho internado. A assistência religiosa é um direito do paciente, portanto não havia muito o que discutir. Autorizei.

O pastor, no entanto, acabou transformando a visita em um culto que envolveu a enfermaria toda. Eu não presenciei, mas todos relataram que foi uma experiência muito boa. Os pacientes gostaram, os funcionários também. Muitos saíram emocionados. No geral, pareceu algo positivo.

Mas completamente errado, é claro.

Dei minhas broncas, discutimos em equipe. Eventualmente o hospital definiu normas internas para regularizar esse tipo de atividade. Mas, se todos gostaram, se não fez mal a ninguém, por que foi errado?

Porque o Estado não pode atrelar seus serviços a nenhuma ideologia. Principalmente sem dar escolha a quem os utiliza.

No caso, ninguém se ofendeu. Mas poderia ter se ofendido. E se os pais budistas, ou católicos, de uma das crianças reclamassem ao saber que seu filho participou de um culto evangélico durante a internação? Teriam razão em achar um absurdo.

Crianças e adolescentes estão expostos a uma infinidade de estímulos, incluindo propaganda religiosa ou ideológica, sem que seus pais tenham controle sobre isso. Mas, quando sob a tutela do Estado, quando usufruindo dos serviços públicos a que têm direito, deveriam estar protegidas disso.

Ou, dito de outra forma, toda criança - e todo cidadão, na verdade - deveria ter o direito de usufruir de serviços públicos sem ser submetido a proselitismo religioso ou ideológico.

Isso me pareceu bem claro, no contexto do meu trabalho, e passei a sempre cuidar para que os serviços onde trabalhei observassem essa premissa.

Essas considerações me foram úteis, ao longo deste ano de 2015, para refletir sobre o intenso debate a respeito da ideologia de gênero nas escolas.

A educação pública no Brasil enfrenta vários desafios. Muitos deles estão atrelados à má gestão, à pobreza econômica e cultural, à irresponsabilidade de nossos líderes. São problemas difíceis, mas que permitem um direcionamento claro ao buscar soluções. Dependem de implementar soluções.

O desafio que a questão da ideologia de gênero propõe, no entanto, é mais profundo. Depende de discutir o papel da educação pública, sua função, sua essência.

A educação é obrigatória. Toda criança tem de estar na escola, por lei.

Quem tem dinheiro pode escolher o perfil de escola em que quer matricular seus filhos. Pode até escolher não se importar com isso e matricular na escola mais perto de casa, ou mais barata.

Já quem não tem dinheiro, quem depende da escola pública, não tem escolha. Seu filho é obrigado a estudar na escola onde lhe deram vaga.

Esse fato atribui ao Estado uma enorme responsabilidade. Imagine que, em um surpreendente desenrolar de eventos, a Bancada Evangélica se torne absolutamente dominante na política, controlando Executivo e Legislativo de tal maneira a tornar o Brasil um Estado com denominação religiosa oficial.

De repente, as escolas públicas voltarão a ter nos currículos as disciplinas de "Educação religiosa" e "Educação Moral e Cívica" obrigatórias. Sem escolha, os pais que seguem outras denominações religiosas seriam obrigados por lei a enviar seus filhos para uma escola que lhes ensinará o que o Estado mandar. Imagino que esse seja um cenário de horror bem óbvio para a maioria dos leitores.

Por outro lado, o Estado também vê na educação pública uma enorme oportunidade. O controle sobre o conteúdo ensinado na escola permite algum controle sobre o futuro da cultura.

Se a preocupação com o meio ambiente é importante, acrescente aulas de ecologia nas escolas. Se há uma epidemia, acrescente aulas sobre as medidas de higiene relevantes. Se gravidez na adolescência tem sido um problema social, antecipe as aulas de educação sexual. Se minorias estão sendo perseguidas, vamos discutir diversidade e aceitação.

Só que isso tudo está a um passo muito curto de algo como: se os adolescentes estão se rebelando contra o governo [liberal/socialista], bombardeie as crianças com a ideologia [socialista/liberal].

Qual o limite para a legitimidade dessas ações? Quem controla o poder que o Estado passa a ter sobre a sociedade através da educação pública?

O debate sobre a ideologia de gênero trouxe essas questões à tona de forma contundente. Quem defende a inclusão nos planos de educação infantil traça uma dicotomia conveniente: de um lado estão os defensores da tolerância e da diversidade; do outro, aqueles que acreditam ter o direito de ter sua intolerância respeitada. Mas não é bem assim.

A ideologia de gênero é, como o próprio nome diz, uma ideologia. É uma crença, embasada em uma postura filosófica muito bonita.

É a visão de que existe uma minoria, que tem dificuldade em ser reconhecida e respeitada pela maioria. E de que a maioria só tem a ganhar ao ser perpassada pela minoria.

O movimento que vai do oprimido para o opressor é uma expansão, é um movimento de emancipação e liberdade. Ele leva a tolerância e à experiência afetiva do comum. É o caminho para uma sociedade justa, inclusiva, livre.

É uma ideia muito bonita. Como também são o Cristianismo e o Budismo. Como também são o ateísmo e o racionalismo. E até, em suas versões mais enlevadas, como o conservadorismo.

Nenhuma delas deve servir como instrumento de doutrinação nas mãos do Estado. Nenhuma delas deve ser imposta a crianças por força de lei.

Ter clareza e ética para respeitar esses limites é o maior desafio da educação pública.

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