OPINIÃO
22/05/2015 19:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Elogio ao Mérito: 'Hoje admitir a virtude em outra pessoa é ofensivo'

Montagem/iStock

Eu não entendo nada de política, ou de economia.

Como psiquiatra, eu acho que tenho uma ideia de como a mente humana funciona (há controvérsias).

Como pai de uma menina de quatro anos, eu tenho muitas opiniões apaixonadas sobre o que é importante para ela (e quase todas serão questionadas, por ela mesma, em uns dez anos).

Mas, eu sei que a mente funciona com base em incentivos econômicos. Nós somos bombardeados, o tempo todo, por informações e estímulos, que despertam interesse, ou repúdio. E, a cada segundo, a cada instante, apenas uma ação será realizada pelo corpo. Ou seja, esses diversos interesses competem pelo privilégio de ser o determinante de nosso próximo comportamento. É um ambiente de brutal escassez de recursos: múltiplos interesses, um só corpo para atuar.

Isso quer dizer que uma das capacidades mais essenciais do cérebro é a de atribuir valor. Precisamos sempre hierarquizar tudo o que nos afeta, determinando o que será bom, e o que será mau, quantitativamente. Ninguém percebe que faz isso, é claro, mas, estaríamos condenados à eterna indecisão e imobilidade se não fossemos, instintivamente, capazes de hierarquizar incentivos.

Historicamente, essa necessidade básica do ser humano - atribuir valor a tudo o que experimenta - foi o substrato psicológico para uma visão de mundo dominante durante milênios. É a visão de que existe algo muito maior, mais valioso que o homem: um deus, um céu, um reino superior. Enquanto que, de outro lado, há algo muito pior, mais baixo que o homem: a besta, o subterrâneo, um mundo de impulsos animais e abjetos.

O filósofo alemão Karl Jaspers chamou isso de Era Axial: o nascimento de um ser social, e a experiência de estratificação, religiosa e política, que constitui o que chamamos de humano. O "ser que hierarquiza" criou a sociedade à sua imagem, organizada em um eixo: o rei; o sacerdote; os nobres; os comuns; os escravos, cada um assumindo a parte que lhe cabe em uma ordenação hierárquica superior ao próprio homem: natural, orgânica, inquestionável.

Até ser questionada. Começou com o Humanismo do Renascimento, e a apoteose da Revolução Francesa. Pouco depois, o grande Experimento Americano inventou um país baseado em uma nova ordenação política, democrática, "todos os homens são iguais perante a lei". Efeitos do nascimento de um novo mundo, baseado em noções como clareza científica, racionalidade, e contestação de valores. O rei podia cair à plebe, e o mendigo podia ascender à nobreza. Transcendendo o "lugar de cada um" na hierarquia axial, foi possível surgir a ideia de homens iguais.

Se o pensamento hierárquico de outrora serviu para justificar milênios de opressão e tirania, a nova égide da igualdade não será menos tirânica. Hoje, nos novos tempos, vivemos a ditadura da mediocridade. Não há mais uma habilidade superior, não há mais atribuição de valor, não há mais o reconhecimento embasbacado da grandeza. A racionalidade científica transformou bem e mal em certo e errado. A educação universal nivela a todos: não existem os mais e os menos capazes, somos todos iguais. Logicamente, temos de ser iguais ao menos capaz, ou a ilusão não se sustenta.

Assistindo a "Os Incríveis" com minha filha, vi uma mãe dizer ao seu filho: "Todos são especiais". E o menino: "Isso é só um jeito diferente de dizer que ninguém é". Tem razão, o desenho animado. E dizer que ninguém é especial parece ser reconhecido como um valor, hoje em dia. Pode até ser, mas é um valor quimérico. As pessoas não são iguais. Elas merecem respeito, e direitos iguais. Mas não são iguais.

O mundo de iguais é um mundo sem cor. É como tentar apreciar uma tela de Picasso feita só com tintas brancas. Todas as pinceladas são iguais, mas não dizem absolutamente nada. A visão só nasce do contraste. E a vivência humana só nasce do conflito de interesses. Para ser possível atribuir sentido à vida, o homem precisa enxergar matizes de valor, reconhecer bom e mau, sentir-se atraído, movido, encantado ou repelido.

Não é possível retirar a experiência de valor do ser humano, mas é possível cooptá-la. Estamos autorizados a admirar alguns valores: a beleza de corpos esculturais, ou a habilidade de um atleta olímpico. Mas não podemos mais olhar para um indivíduo e admirar suas virtudes de caráter. Falar em caráter é quase imoral. Não podemos dizer que preferimos quem estudou, quem tem inteligência, quem tem garra e determinação, quem tem coragem, quem tem, palavra feia: competência.

Quanto mais um indivíduo se destaca por suas virtudes, mais pernicioso ele é, por gerar mal-estar. Na tirania da mediocridade, admitir a virtude em outrem é vê-la negada em nós mesmos. Melhor negá-la a todos por igual. Houve um tempo em que nada era mais inspirador que estar na presença da virtude. Hoje, é ofensivo.

Eu vejo minha filha crescer. Eu espero que ela possa olhar para alguém com profunda admiração, como olhávamos para os líderes de outrora. Eu quero que ela se sinta inspirada por grandes pessoas. Bons professores, ídolos, chefes, parceiros, até, quem sabe, seus pais. Não basta que ela se sinta próxima a eles, uma igual, simpaticamente ligada por reconhecimento. Isso é bom, também. Mas, há um valor em se sentir diante de algo que espanta, e inspira: é reconhecer em certas pessoas aquilo que você nem sabia que podia ousar ser.

Defendo, então, a volta da hierarquia estanque? Das ditaduras teocráticas? Claro que não. A função de um líder na antiguidade era personificar uma ordem hierárquica, e garantir sua manutenção. A função de um líder hoje, parece, é representar a mediocridade reinante, e garantir sua manutenção. Isso é tão estanque quanto.

Sonho com um mundo, para que minha filha viva nele, em que a função de um líder seja inspirar o movimento, o desenvolvimento, a evolução. Um mundo em que se debatam valores, virtudes, e em que o mérito seja reconhecido como a bússola fundamental para que saibamos para onde queremos ir.

Existem, sim, os bem preparados, os que se destacam; os mais corajosos; mais inteligentes, mais caridosos. E eles merecem reconhecimento. Negar esse mérito é negar a possibilidade de que sejamos, um dia, melhores do que somos hoje.