OPINIÃO
17/07/2015 14:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Diários de um jovem psiquiatra no SUS - 3

Era um manicômio, o Pinel, ou não? Fechar leitos manicomiais e colocar os pacientes ali mudava alguma coisa? Os mais radicais prefeririam que não existisse meio termo, e que fossem todos os pacientes para suas famílias, ou para residências terapêuticas, ou sei lá para onde. Mas, para onde? Que fazer, de fato, quando se sai do campo das ideias, e se tem quase uma centena de pacientes sem nenhuma referência social?

MAURICIO LIMA via Getty Images
A patient wearing a tiara with the national colors leaves the yard where other patients watch the second half time of the 2010 FIFA World Cup South Africa Group G match between Portugan and Brazil, at 'Philippe Pinel mental hospital, western outskirts of Sao Paulo, Brazil, on June 25, 2010. Portugal and Brazil tied 0-0. AFP PHOTO/Mauricio LIMA (Photo credit should read MAURICIO LIMA/AFP/Getty Images)

Parte 3 - Manicômio

Logo no primeiro ano após a residência comecei a trabalhar no Pinel. Hospital tradicional, da época dos grandes manicômios. Localizado em Pirituba, zona norte de São Paulo, e mantido pelo governo do Estado. Contratação para serviço público, como se sabe, se dá por concurso. Concurso para hospital psiquiátrico é assim: publica-se que existem vagas no diário oficial. Quem se habilitar, passou.

Isso foi 2003. A reforma psiquiátrica vinha acontecendo há alguns anos, e o Pinel já não era um manicômio. Na verdade, com o fechamento de muitos leitos manicomiais por todo o Estado, o Pinel era um dos destinos para onde iam os pacientes crônicos. Casos com mais de três décadas de internação, que já não tinham mais família, ou condições de viver com o que tivessem.

Chegar ao hospital desanuviou minhas preocupações, que vinham crescendo conforme a viagem até lá demorava a terminar. Muito arborizado, predinhos coloniais, a recepção parecia uma sede de casa de fazenda. Revoadas de maritacas. Cheiro de mato e orvalho. Percebi que seria gostoso trabalhar ali.

Fui apresentado ao hospital. Edificações espalhadas comportavam diferentes serviços. A enfermaria masculina, onde se cuidavam dos pacientes agudos, em crises graves, com internações curtas (a média proposta era de quinze dias, a real em torno de vinte e oito). A enfermaria de infância e adolescência (que surpresa! Não sabia que havia uma). O CAPS infantil, que ficava dentro do hospital, mas com uma entrada separada, como mandava as exigências da reforma. O "convívio", ou serviço de reinserção social, onde ficavam os tais pacientes manicomiais. E os lares abrigados, conjunto de residências onde dois a quatro pacientes viviam, como se estivessem de alta, mas ainda dentro do hospital. Além dos vários prédios administrativos, quadra de esportes, biblioteca, refeitório, viveiro de aves, frota, anfiteatro, etc. Impressionante.

Eu começaria a trabalhar no Convívio. Estranhei, mais acostumado aos casos agudos e floridos da residência. Primeiro dia, impressões lúgubres. Na entrada do convívio, pacientes aglutinavam-se para interagir com o médico novo. A maioria idosos, ou envelhecidos, emaciados, dentes poucos. Muitos deitados no chão. Alguns, apenas uma casca torcida, suportados com uma faixa de lençol sob os braços para não caírem da cadeira. Comento com a enfermeira sobre o cheiro de urina. "Ah, deve ser dona T. A gente não vence limpar a roupa de cama dela. Já vou lá ver doutor".

Os colegas me explicam o trabalho. A parte mais nobre, na verdade, é feita pela equipe multidisciplinar. Psicólogos e assistentes sociais procuram familiares, tentam fazer contato, insistem como podem para que seja possível uma reaproximação. Quando não dá, pelo menos, tentam trabalhar com os pacientes para que ganhem autonomia suficiente para os lares abrigados. Para os médicos, depois do primeiro mês, com os pacientes todos já bem conhecidos, não sobra muita novidade. Examina, conversa, cuida de possíveis agudizações e da condição médica geral, que também é precária em muitos deles. Dia, após dia, após dia. Raramente alguém vai de alta, raramente alguém novo aparece. Só quando fecham mais alguns leitos manicomiais, aí chega uma leva. Ou quando algum juiz resolve mandar internar alguém sem suporte social que não vai nunca poder ir de alta. Ou, ainda, quando um interno de manicômio judiciário - alguém que cometeu algum crime, mas foi considerado mentalmente incapaz - recebe alta e, recusado pelos apavorados familiares, não tem para onde ir. Aí a gente vai lá, conversa, conhece, cuida de possíveis agudizações e da condição médica geral. Dia, após dia, após dia.

Dona R, internada há mais de cinquenta anos, tinha o hábito de estender um pano no gramado, sentar e passar o dia se balançando para frente e para trás. Esse comportamento se chama "auto-ninar". É observado em crianças que sofreram grande privação sensorial e/ou afetiva, como crianças hospitalizadas desde muito cedo, ou abandonadas. Harlow, em seus famosos experimentos com macacos criados sem mãe, observou o mesmo comportamento nos animais. Dona R devia se sentir muito só, naquela enfermaria apinhada de gente.

A atividade preferida dos pacientes era caçar bitucas de cigarro. O uso era permitido, mas controlado. Havia horários de dispensação de cigarros, efetuada pela enfermagem, da mesma maneira que a dispensação de remédios. Para fumar mais do que a cota, os pacientes andavam pelo hospital procurando bitucas pelo chão. Era impossível transitar pelas alamedas sem ser interrompido algumas vezes por pedidos de fogo. Alguns, mais espertos, já conheciam os horários em que certos funcionários poderiam ser encontrados fumando em seus lugares favoritos, e sabiam quais funcionários preferiam dar logo mais cigarros a ficar insistindo que não. Fumar bitucas deixava os dedos e lábios queimados, em tons de preto e açafrão.

Não se haveria de esperar as habilidades sociais mais bem desenvolvidas naquela população. Eram comuns as altercações por qualquer coisa: ciúmes bobos, pisadas no calo, mal-entendidos, quem pegou o quê de quem. Qualquer desavença se resolvia com socos, chutes, mordidas, pedradas. As violências entre eles irrompiam com facilidade, parte da cultura local. Contra funcionários era bem raro (às vezes, quebravam vidros dos carros). Violência dos funcionários contra os pacientes não ocorria nunca, exceto, na medida em que a internação prolongada é violenta por si só. Na verdade, eram nesses momentos exaltados que o vínculo com a equipe era testado. Sempre havia aquele funcionário que era melhor em acalmar aquele paciente. Que sabia o que dizer, como dizer, e, logo, estavam rindo como bons amigos. Talvez, até, essa recompensa fosse suficiente para perpetuar as tendências agressivas lá dentro. Devia ser uma preciosidade, para os pacientes, serem lembrados do vínculo com alguém.

Então, era um manicômio, o Pinel dessa época, ou não? Fechar leitos manicomiais e colocar os pacientes ali mudava alguma coisa? Os mais radicais prefeririam que não existisse meio termo, e que fossem todos os pacientes para suas famílias, ou para residências terapêuticas, ou sei lá para onde. Mas, para onde? Que fazer, de fato, quando se sai do campo das ideias, e se tem quase uma centena de pacientes sem nenhuma referência social?

Eu não fiquei muito tempo no convívio, saí de lá na primeira oportunidade de voltar a trabalhar com agudos. Sei que trabalham com enorme escassez de recursos, e fazem o melhor possível. Vi muitos pacientes saírem de alta, reconectados com familiares que só conheciam o tal tio maluco como uma vaga lembrança de infância. É um trabalho duro, frustrante, que exige enormes sacrifícios e determinação para cada rara recompensa. Admiro os profissionais que trabalham nisso, e ainda têm de aguentar os olhares enviesados dos militantes da reforma, que desprezam tudo o que se faz em hospitais psiquiátricos. Não se vê nos pacientes grandes melhoras clínicas, resultados técnicos. É um lugar onde se trabalha por resultados éticos. Não é para qualquer um.