OPINIÃO
04/12/2014 11:39 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Como eu aprendi a parar de me preocupar e amar a tecnologia. Ou: qual o tamanho de uma aranha?

reprodução

O consenso geral hoje em dia é que a tecnologia está nos fazendo mal. A acusação é de que estamos cada vez mais isolados, com os olhos fixados nas telas de tablets e celulares, desconectados do mundo real.

Gostaria de fazer um contraponto.

Dizem que Sócrates, o famoso filósofo grego, era contra a escrita. Segundo consta, Platão era um aspirante a escritor de tragédias quando conheceu Sócrates, que o convenceu a largar as platitudes (ops!) da ficção para se tornar um investigador do que realmente importa: a verdade. E esta, diria Sócrates, não se obtém escrevendo, mas conversando. Ao escrever, o pensador registra o que quer, sem antagonismo, sem esforço. É estéril. O exercício da filosofia dependeria do diálogo. Sócrates não deixou nada escrito.

Os grandes épicos gregos, Ilíada e Odisseia, pertencem à tradição oral. Eram baladas cantadas por artistas errantes chamados "aedos". Sem dúvida, há uma virtude perdida nesse prodígio de memória, e no ideal romântico de ter tradições perpetuadas por poetas heroicos. Se passarmos a depender da escrita, diriam os antigos, deixaremos de exercitar a memória.

A escrita, no entanto, venceu qualquer oposição, e se tornou parte integrante das capacidades do ser humano. É uma tecnologia que nos tornou mais potentes do que éramos antes, de tal forma que não haveria a civilização humana, como a conhecemos, se não fosse por ela. O surgimento da escrita marca o que convencionamos chamar de História.

Imagine um pedreiro fenício que saiu para trabalhar há cerca de seis mil anos atrás. Ao chegar à oficina, percebeu que esquecera um instrumento importante em casa. O pedreiro pega, então, um bloco de argila e entalha alguns desenhos estranhos. Ele dá o bloco a um escravo e diz: "Leve isso à casa e mostre para minha esposa". Esta, ao observar o bloco por alguns segundos, pega um certo instrumento e entrega-o ao escravo. Confuso, ele leva o instrumento ao seu mestre, que comenta: "Ótimo, é exatamente o que eu precisava". O escravo, profundamente admirado, passa a chamar o mestre de "Feiticeiro".

A história acima é adaptada de Monteiro Lobato (em História do Mundo Para as Crianças). Ela evidencia um efeito que parece mágica: a expansão cognitiva. A escrita é capaz de operar um deslocamento da cognição do pedreiro, que afetará sua esposa à distância. Ao invés de competir com a memória, a escrita a aumenta, pois também desloca nossa cognição no tempo. Graças a ela, somos capazes de "lembrar" dos ensinamentos de Sócrates.

Mas, também é memória o que depende de uma tecnologia como a escrita?

Para responder a isso, peço que considerem a aranha.

Uma teia é uma tecnologia de expansão cognitiva. A aranha tece sua teia, planta-se no meio dela, e aguarda. Ao toque de um inseto, a aranha sente a vibração dos fios, e desloca-se de acordo. O movimento da aranha é quase que automático, uma resposta a um estímulo táctil. Exatamente como nós reagiríamos a uma picada de mosquito. Só que o tato da aranha é expandido pela teia. Então, pergunto: Qual o tamanho de uma aranha? Será que ela se angustia com a questão: ainda é tato o que depende de uma tecnologia como a teia? Ou será que ela vivencia o que acontece na teia com se fosse em si mesma? Jamais saberemos com certeza, mas desconfio que uma aranha seja tão grande quanto sua teia.

Assim como a teia é uma produção natural da aranha, parte dela, também a escrita é uma produção natural e parte de nós. Só é preciso entender que nossa natureza é muito mais complexa: social, cultural e tecnológica. Assim como a teia deixa a aranha maior, a escrita tornou cada um de nós em gigantes que habitam a História.

Eu acredito que o mesmo fenômeno acontece com a internet, e com as interfaces de acesso a ela, cada vez mais ubíquas. Vemos as pessoas imersas em seus celulares e imaginamos alguém inerte, subtraído, sequestrado do mundo real para um ambiente virtual obscuro. Será? Quando nós mesmos estamos conectados, será isso o que experimentamos?

Minha resposta pessoal é não. Quando estou conectado me sinto enorme, como se eu estivesse em todos os lugares ao mesmo tempo, em contato com diversos amigos, e com todo o conhecimento do mundo ao alcance da minha mente. Eu pego muito menos trânsito, porque posso expandir minha cognição para que ela investigue todo o caminho que farei em busca de acidentes, e me sugira rotas alternativas. Eu ouço um curso da Open Yale enquanto espero o elevador, porque minha mente pode ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Um amigo americano que eu nunca vi pessoalmente me sugere um livro enquanto jogamos um RPG online e em alguns segundos o livro está no meu Kindle. Meu celular mostra imagens em uma linha de tempo que constituem minha memória tanto quanto as reais lembranças. Isso é expansão. É minha mente sendo mais potente, não menos.

Todo exagero é insalubre, claro. Mas eu tomaria muito cuidado com as evidências apresentadas contra as novas tecnologias. Quando sugerem uma associação entre crianças usando celular e o TDAH, por exemplo, eu desconfio. Será que a tecnologia gera crianças hiperativas? Ou será que nosso modelo educacional não se modernizou a ponto de atender às demandas de uma geração tecnológica? Quando sugerem que "as telinhas" estão nos alienando do mundo, eu pergunto: não foram as mídias sociais fundamentais para a primavera árabe, e para as manifestações de 2013 no Brasil?

Assustados com o que ainda não compreendemos, geramos discursos inflamados contra um movimento que me parece irreversível, e que vai definir o que é a cultura humana, tão natural e inseparável de nós quanto a escrita. Estamos nos tornando, todos, tão grandes quanto a Web. E as crianças de hoje serão tão maiores que mal podemos conceber. Não espanta que já não caibam em uma carteira escolar.

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