OPINIÃO
18/11/2014 15:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Afinal, o que está acontecendo na Faculdade de Medicina da USP?

Os alunos que se organizaram e levaram o caso à ALESP dizem que há uma cultura machista e homofóbica, um "currículo oculto" na FMUSP. Para eles, a violência é sistemática e diretamente ligada à formação médica.

Ryan McVay via Getty Images

Eu estudei na FMUSP. Ainda hoje, embora não tenha mais vínculo oficial com a Faculdade, dou aulas no curso de Psicologia Médica, para o terceiro ano.

Na FMUSP há um grupo de disciplinas de "Humanidades", que inclui a Psicologia Médica, e que vem crescendo. Desde o fim dos anos 90 foram criadas as disciplinas de Medicina e Humanidades, Cidadania e Medicina e a Tutoragem (projeto em que alunos de diferentes anos reúnem-se periodicamente com um tutor); e o Grupo de Humanidades passou a contar com um currículo integrado, junto a outras disciplinas como Bioética. Também surgiram diversas disciplinas optativas e outras atividades extracurriculares nessa área.

Na Psicologia Médica temos notado, com satisfação, que encontramos, a cada ano, alunos menos resistentes, que valorizam mais os temas propostos e parecem melhor preparados para a área de humanidades (que entendemos ser integral ao exercício da medicina).

Os recentes relatos de violência, estupros e violações aos direitos humanos, ocorrendo na FMUSP, parecem contradizer essa tendência. Não há contradição: foi por iniciativa dos alunos que as denúncias foram feitas, inclusive a audiência pública na ALESP - Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. Essa mobilização indica, justamente, que transformações estão acontecendo. Transformações que a própria Faculdade vem perseguindo há, pelo menos, duas décadas, através do estímulo à formação humanística de seus alunos. Só que ainda há um longo caminho a percorrer, e nada suave.

Quando a mentalidade de um grupo começa a mudar, ela nunca muda homogeneamente. A transformação é gradual, tem diversas causas e percursos para vir a ser, e afeta diferentes indivíduos de diferentes maneiras. Na FMUSP, alguns alunos começaram a se organizar em coletivos, especialmente voltados para debater e promover direitos de minorias. As pessoas que se identificam com grupos minoritários tendem a ser os primeiros a sentir, sofrer, e querer acusar as práticas que precisam ser mudadas.

Já os alunos que não participam desses grupos acabam resistindo às mudanças. Não precisaria ser assim. Porém, os grupos majoritários tendem a ser privilegiados pelas estruturas vigentes, lutando por elas. Além disso, as minorias raramente adotam um discurso moderado, insistindo em radicalismos e ataques frontais aos costumes, o que dificulta a conciliação. É uma dinâmica nefasta, mas, historicamente, mudanças culturais raramente acontecem sem ser pelo confronto. Uma nova voz começa a nascer e a velha, a estranhar.

Enfim, o que dizem essas duas vozes?

Os alunos que se organizaram e levaram o caso à ALESP dizem que há uma cultura machista e homofóbica, um "currículo oculto" na FMUSP. Para eles, a violência é sistemática e diretamente ligada à formação médica.

Essa cultura envolveria costumes em festas, trotes, músicas, "mocós" (gíria que se refere a vantagens concedidas a alguns alunos pelos mais velhos, baseadas em afinidades e critérios sociais subjetivos). De fato, há uma cultura, que não é exclusiva da FMUSP, mas prevalente no meio universitário, que estimula trotes violentos; músicas recheadas de palavrões e ofensas; brincadeiras que envolvem consumo de álcool; exposição e humilhação, e atos perigosos ou ilegais. Existem, sim, normas sociais não oficiais, como os times esportivos que facilitam contatos, as famas e infâmias que importam para se dar bem em certas carreiras. Muitas dessas coisas precisam ser mudadas.

Mas, embora ninguém em sã consciência defenda práticas discriminatórias ou estupros, há uma voz entre os alunos que não aceita esse diagnóstico apresentado pelos coletivos. Até por ser majoritária, essa voz é mais heterogênea. Há os alunos que se sentem bem, amam a Faculdade, curtem as tradições e chamam a FMUSP de "Casa". Pessoas que apreciam a formação técnica e humana, e passam por grandes experiências acadêmicas e sociais. Há os alunos que respeitam as reivindicações dos coletivos, mas não se sentem submetidos a uma cultura sistematicamente perniciosa. Há alunos que gostariam que tais reivindicações fossem varridas para baixo do tapete, só para não ofender um ideal de Faculdade. E também há os alunos que assumem discursos mais radicais, em confronto direto com as minorias.

Esse é outro mecanismo pelo qual uma dinâmica de conflito acaba se desenvolvendo naturalmente: como as vozes das minorias estão em um extremo do espectro de discursos, as moderadas acabam misturadas às dos radicais do extremo oposto. Cria-se uma situação em que, ou você está a favor das minorias, ou radicalmente contra. Discordar, por extensão, significaria estar contra vítimas de estupro e de discriminação. É uma situação insustentável para os moderados (algo muito parecido com a absurda polarização que marcou a campanha presidencial).

Há, ainda, uma terceira voz, além das dos alunos, que é a da instituição. Qual a postura da própria FMUSP? Também é uma voz humana, é claro. É a posição da Diretoria, da Congregação. As vítimas afirmam que a Faculdade se omitiu, não lhes deu apoio e, pior, teria contribuído para abafar os casos. Se for verdade, é gravíssimo, e merece ostensivo e inequívoco repúdio. É causa para derrubar os responsáveis e recomeçar do zero. Porém, é preciso considerar que, para a FMUSP, tanto os acusadores quanto os acusados são seus alunos. É perigoso exigir uma conduta punitiva pela instituição, antes da investigação e do julgamento. Todos devem ser tratados como inocentes até prova em contrário, ou vira uma caça às bruxas.

Nos depoimentos, as vítimas também relatam que foram desestimuladas a falar do assunto por seus próprios colegas. Sentiram-se pressionadas a silenciar para não "sujar o nome da Faculdade". Isso pode ter acontecido? Acredito que sim. Não por haver uma cultura X ou Y na FMUSP, mas porque isso reflete a pequenez humana, em geral. Essa é a postura mais frequente em qualquer lugar. É a cultura do "melhor não", do medo, do acobertamento. A vontade de fingir que não viu, que não houve nada desconfortável, nada sujo, nada que ameace o status quo. Sim, isso existe. Isso é lamentável. É humano, no que temos de pior.

Na minha opinião, a voz dos coletivos escorrega ao interpretar o fenômeno por um viés ideológico. Adotaram um discurso que propõe a existência de mecanismos culturais que servem à manutenção de estruturas de poder. Submetidos a esses mecanismos (trotes, hierarquias, etc.) os alunos já não responderiam mais por si, sendo imaginados como meros reprodutores dessas estruturas. É um discurso violento, também, porque só consegue ver como livres aqueles que concordam com essa visão. Os que discordam, coitados, estariam ainda submetidos, massificados.

Acredito que existe, sim, alguma explicação cultural, supra individual, que deve ser examinada, para além da investigação de cada caso de crime, e da punição de cada criminoso. É preciso ir além dos indivíduos machistas, homofóbicos, ocultadores. E, também, além do suposto "currículo oculto" da medicina. O que há é uma formação moral deficiente em toda a sociedade.

Há uma cultura machista. Há uma cultura homofóbica. Há uma cultura de intolerância e de ocultação. Há uma cultura que idolatra o álcool, as drogas, o abuso. Há uma cultura que subverte valores, que relativiza a moral, que desvirtua a virtude. Ela não é da FMUSP. Ela é sua! É nossa. E não vai mudar por via de ataques ideológicos, mas se cada um de nós mudar. Se ensinarmos nossos filhos a fazer melhor.

Daqui a poucas semanas, infelizmente, a mídia vai ter se esquecido da FMUSP. Mas, outros escândalos continuarão acontecendo. E nós continuaremos olhando, curiosos, para as notícias, sem perceber que somos nós quem construímos a sociedade, e seus escândalos.

Se puder, tente não se esquecer de perguntar: afinal, o que está acontecendo na minha casa?

Pergunta que todos devemos fazer. Inclusive, quem chama a FMUSP de Casa.

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