OPINIÃO
29/03/2016 18:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

O vermelho é o novo listrado?

Se for desta maneira que em pleno século XXI o povo deseja mudar o país, então o mundo da moda precisará de muito trabalho, pois não haverá tonalidade alguma para a ignorância social e política que o país enfrenta.

Meriel Jane Waissman via Getty Images
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Sabemos que a II Guerra Mundial, em meados de 1945, foi decorrente de um conjunto de fatores: desde uma profunda crise econômica até grandes tensões políticas e sociais em várias partes da Terra.

Nesta conjuntura despontaram regimes totalitários, sobretudo na Alemanha, na Itália e no Japão. Porém, na Alemanha, este regime foi preciso: em particular, o anti-semitismo ganhou mais força por causa de teorias biológicas racistas.

Os judeus eram classificados como uma "raça deformada", uma ameaça à "raça ariana" e, por isso, nos campos de concentração eram obrigados a usar um uniforme "listrado" que os deixavam marcados como gado para serem abatidos.

FOTO: Judeus no campo de concentração em Buchenwald - Alemanha, 1938.

Mas o que o fato histórico citado acima tem a ver com o hoje?

Tudo.

Nos últimos dias tenho visto o quanto o Brasil entrou em uma espécie de colapso social e político impressionantes em manifestações diversas de apoio ao governo e contra ele. Até aqui nenhuma novidade. Mas, infelizmente, o que chamou a atenção foram notícias de agressões físicas contra pessoas que usavam "camisetas vermelhas" ou símbolos com esta cor.

Eu fui um deles.

No dia 17 de março, estava na linha amarela do Metrô de São Paulo. Eu usava uma camiseta em tom vinho, relógio e óculos vermelhos (tenho prazer em combinar as cores dos acessórios com minhas roupas). Eis que, em um determinado momento, um casal usando as camisetas da seleção brasileira de futebol me abordou de forma agressiva:

- Você votou na vaca da Dilma e no PT? Vai, fala logo, comunista de merda! - disse o homem, que tinha 1,90m de altura, uns 85kg e de pele branca.

Eu apenas fiquei quieto e não quis dizer nada por dois motivos: primeiro por que o voto é secreto e individual e, segundo, por que vi ali uma fúria tão latente que não conseguia dizer nada. Em seguida, a mulher de cabelos loiros lisos, com 1,70m de altura e muito afeiçoada endossa:

- Olha a camiseta dele combinando com o relógio, deve ser gay essa porra. Por isso tem cara de quem votou nesse partido de ladrão.

Enquanto tudo isso se desenrolava, nenhum dos outros passageiros sequer veio prestar ajuda. Não houve sensibilidade. Para minha alegria, eles desceram me xingando e eu segui o meu rumo. Mas a sensação marcou, assim como o medo. A minha orientação sexual, bem como o que eu visto ou em quem votei é de minha importância; não de terceiros.

Me senti como se estivesse usando o "listrado" do começo do texto, e um grupo de nacionalistas alienados, tentando, a qualquer custo, me culpar pela economia e política atual.

Se for desta maneira que em pleno século XXI o povo deseja mudar o país, então o mundo da moda precisará de muito trabalho, pois não haverá tonalidade alguma para a ignorância social e política que o país enfrenta.

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