OPINIÃO
11/03/2014 15:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

'Eu os declaro conectados' - o amor via USB

"Chego em casa, seja durante o dia ou a noite -- até aí nada de anormal, mas logo após jogar minhas coisas no sofá, mesa e até no chão uma das primeiras atitudes que tomo é ligar o computador e instantaneamente conectar-me nas interfaces sociais, horas depois tomo um banho e faço algo para comer, isso já com o smartphone em mãos para não perder nenhuma atualização do feed de notícias."

O que descrevi acima parece algo totalmente comum nos dias de hoje, não por menos. O "boom" tecnológico veio exatamente para diminuir a distância e criar vínculos que, consequentemente, irão aprimorar o nosso network. Mas o poder da informação e velocidade nos transformou em pessoas viciadas/dominadas pela internet, e suas teias cibernéticas estão além deste belo mundo virtual. O mais irônico está no fato de que me veio à mente o clipe "Do the Evolution" (1998), da banda Pearl Jam, que explora numas das cenas da animação a "máquina" dominando o homem. O que antes era apenas um estimulo criativo e especulação, hoje está aí como prova de um jeito mais bonitinho, mas altamente ancorado com o que a música deseja passar.

As pessoas estão preguiçosas no mundo real, e nitidamente ativas no virtual. Atualizar o "status" no Facebook, por exemplo, se tornou algo ultra necessário, mas será mesmo que todas as pessoas estão torcendo por você ali? Reflita sobre a necessidade de colocar o teu sentimento para pessoas que realmente querem o bem estar delas e não o teu. Algo óbvio de entender é que o ser humano sempre pensará nele mesmo, e, como tal, desejará ter vantagem ou ganhar algo com o que vê. Por isso, na década de 60 e 70 (época dos nossos pais e avós), um namoro de portão era informado para poucos e bons amigos, e assim seguiam as suas relações que duram até hoje. A exposição passou a gerar nas pessoas a busca pela perfeição, pois se alguém não preenche todos os requisitos da sua lista, ela estará automaticamente deletada da tua vida no campo amoroso, e até mesmo no social. Parece que neste meio tempo, perdeu-se o amor pelo próximo e o resultado está no fato de que as relações têm durado menos tempo do que o preparo de um macarrão instantâneo.

Antes, para mostrar que estávamos com alguém bastava uma aliança de prata, hoje, precisamos colocar isso no Twitter, Facebook e todas as outras plataformas, que instintivamente irão criar um buzz de elogios, likes e compartilhamentos, que sinceramente... Não tem o menor valor se você não estiver vivendo isso fora destes bytes. Vejo que a vida virtual destas pessoas é nada mais nada menos do que aquilo que elas gostariam de ser, e expõem muitas vezes o conceito de "bonecos de cera" iguais às encontradas no Museu Madame Tussauds. Bonitas, incríveis profissionais, talentosas e sem falhas, ou seja, não são pessoas. Somos errados, nos queimamos na cozinha, odiamos lavar louça e andar descalço num dia bem quente é o que realmente queremos, ou ir de bermuda para o trabalho.

Não sou contra o desenvolvimento humano e todas as viabilidades que venham a melhorar nossa sociedade, mas do que vale ler um "eu te amo no Whatsapp", ou receber um emoticon de coração via Facebook, sendo que na realidade quando estamos com esta mesma pessoa em um restaurante, ela não faz jus destas mesmas palavras. Parece que o ócio criativo e emocional dela é útil somente no modo online.

Não sugiro que as pessoas peguem um violão e façam uma serenata, bem ao clássico estilo Romeu e Julieta. Mas onde estão os poemas feitos á mão? Tem coisa mais deliciosa do que ter guardado numa gaveta ou em um espaço secreto aquela "cartinha" escrita em letra cursiva o quanto você é especial, única e querida? E as canções românticas criadas para aquele momento ou pessoa? Repito, não busco regredir a evolução das coisas, mas estamos a cada dia sendo saciados por imagens, situações e formas totalmente ilusórias. O real tem cheiro... Tem sabor... Tem textura, já o online é apenas um holograma daquilo que deveria ser feito fora dos Macs, PCs e smartphones.

O prazer de ganhar um abraço apertado é tão maravilhoso que em questão de segundos, sabemos que aquele ato por si só diz muito sobre o que a pessoa sente por nós e vice-versa. E quando, sem querer ou querendo, temos um beijo roubado da pessoa que amamos seja na sala de estar ou numa lanchonete, sentimos nossos pés flutuarem, o coração dispara e a vontade de ficar em um cômodo apenas com aquela pessoa se torna o objetivo do nosso "jogo da vida".

Precisamos aprender a separar o real do imaginário, necessitamos expor menos a nossa felicidade, pois a inveja tem internet 4G agora. Devemos falar mais olhando nos olhos das pessoas ao invés de olhar a mini-tela do celular. Pense assim: Essa pessoa saiu do lugar onde estava para ficar e falar comigo e como devo agradecer? Simples, dando atenção á ela, caso contrário poderiam ficar conversando via internet, certo?

Recentemente li a obra Jogador Número 1, de Ernest Cline e publicado pela Editora LeYa, o livro narra a história de um jovem que vive no ano de 2044 e assim como o restante da humanidade da época, ele prefere viver no mundo virtual chamado OASIS do que se expor na vida real. Esta obra fala de uma era distante ou de agora? Fiquei confuso! Não irei fazer spoiler e contar o final, mas recomendo como um bom entretenimento que conecta o amanhã de uma forma que você no mesmo instante encontrará semelhanças com o hoje.

Desconecte de todos os aplicativos, pegue uma folha de sulfite em branco e escreva (mesmo se você tiver a letra mais feia do mundo), para quem você deseja ou ama, desenvolva uma música ou algumas palavras de carinho e depois coloque num envelope. Entregue para o destinatário em mãos, e pode ter a plena certeza ela ficará em choque com esta atitude, pois ninguém mais foi capaz de fazer isso e o resultado estará no fato de que você plantará naquela mente, coração e alma algo que banco de dados nenhum poderá apagar: o amor e carinho como devem ser, reais!