OPINIÃO
23/03/2014 08:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Brasil: um país de críticos e chatos

De uns anos para cá temos nos deparado com uma sociedade que não mede esforços para criticar tudo e todos - ok, falamos mal de tudo mesmo, é do ser humano, mas será que o limite não esta ultrapassando barreiras?

O Brasil está produzindo "brasileirinhos chatos". De uns anos para cá temos nos deparado com uma sociedade que não mede esforços para criticar tudo e todos - ok, falamos mal de tudo mesmo, é do ser humano, mas será que o limite não esta ultrapassando barreiras? Estamos presenciando uma censura que anda pelas sombras, e que nos mostra o quanto estamos regredindo ao invés de evoluir como sociedade. Hoje em dia qualquer piada é tomada por um grupo de "bons costumes" e rapidamente eles correm para que as medidas necessárias sejam tomadas, e para que isso não ocorra novamente (no caso a piada).

A cada dia aumentam-se as vagas para todos os tipos de crítico: o de blog, o de selfies, das celebridades, o de moda, o da coxinha e por aí vai. Criticar a tudo e a todos virou algo com carteira registrada; estas pessoas são formadoras de opinião sendo assim, colocam-se como as donas da transformação social e que nelas está embasado o "correto". Se você não seguir detalhadamente as dicas mencionadas por eles poderá colocar-se numa posição de afastamento do mundo reinado por eles.

Irônico é ver algo como "quem vê novela não gosta de ler" seria a meu ver um posicionamento burguês alienado e retrógrado de que o entretenimento em si serve apenas para a sociedade de massa e não para os intelectos. Somos TODOS dominados pelo conceito de pão e circo (aquele, onde os governantes romanos utilizavam de eventos e comida farta para que a sociedade não se importasse com a política), fugir disso é como viver no mundo marinho de Atlantis. As pessoas não querem assumir o papel ridículo e dizer em alto e bom tom "sou manipulado pela mídia". Obviamente ninguém quer isso, mas de um jeito hipodérmico (por debaixo da pele sem sentir e nem ver estamos sendo controlados) seja pelos meios midiáticos, amigos, política ou qualquer forma de comunicação. Basta ver a nossa política para ver que até a nossa economia é uma influência de investimento de outros países que consequentemente moldam nossa infraestrutura.

No ano passado o Brasil bateu recordes de vendas de livros e não podemos menosprezar toda e qualquer leitura. Aprendi que o mais importante para uma pessoa melhorar sua escrita, leitura e conversação é ler de tudo, pois não existe inteligência sem sabedoria. Ser sábio, por exemplo, é você falar com uma pessoa que não tenha tido a mesma oportunidade educacional que você, e explicar a ela a mesma informação que será passada para um CEO de uma multinacional, com o único fator que venha a distinguir um e outro que será a palavra e a maneira como você expõe tua ideia. Entenda, você e o teu amigo podem ler o mesmo livro o que irá modificar a compreensão para a obra, será a base cultural de cada um, ou seja, quando alguém não entende o que você quer dizer, isso significa que você não está sendo sábio e humilde o suficiente para ver onde esta a dificuldade do outro, para que ele não entenda a sua visão sobre as coisas. O fato de alguém adjetivar uma obra como boa, não significa que ela tenha de ser bem quista por todos, o que importa para um país onde anos atrás batiam-se recordes de analfabetos, é que hoje em dia, as pessoas leem por prazer e com a finalidade de ampliar aos poucos o que julgam bom para si mesmas, e não por que um crítico disse que apenas uma meia dúzia de livros são os necessários para que você seja considerado inteligente e consequentemente sábio.

De acordo com Felipe Castilho, autor de "Ouro, Fogo e Megabytes" e "Prata, Terra & Lua Cheia" da editora Gutenberg (Grupo Autêntica), os diversos gêneros literários da editora como: aventura, chick-lit, história e HQs em geral tiveram na sua grande maioria, que serem republicados devido á intensa procura pelos mesmos. "Falar que a literatura no Brasil está em baixa é errônea. Temos como "leitura recomendada" obras de Machado de Assis e/ou Aluisio de Azevedo, mas existe um mercado editorial crescente e a partir do momento em que um jovem está lendo ele automaticamente é inserido em um novo modelo de aprendizado que não se via antes no país.".

Quando você busca algo que venha a te tirar da realidade (sim ela é injusta: acordar cedo, pegar metrô/ônibus lotado, correria no trabalho, muitos trabalhos da faculdade etc.), a única coisa que pode aliviar este choque de stress é uma série, novela ou filme; que estão ligados de certa maneira com a manipulação e entretenimento também, onde o que varia além do gênero é a relevância data pelo telespectador. Não é de que hoje que as telenovelas tem um papel crucial no desenvolvimento da sociedade, e como produtora de um merchandising social (MS), que visa prioritariamente melhorar certos "buracos" deixados pela ineficiência política. Um ótimo exemplo foi em "Laços de Família", exibida pela Rede Globo em 2000, a personagem Camila (Carolina Dieckmann), tinha leucemia e precisava de um transplante de medula, mas faltavam doadores, com o apelo emocional o telespectador sentiu o sofrimento da personagem, que numa cena emocionante chegou a raspar o cabelo. O resultado da trama de Manoel Carlos não poderia ser melhor: o registro nacional de doadores de medula óssea passou de 20 para 900 inscrições por mês. Veja a cena abaixo:

O merchandising social das telenovelas não é algo tão atual assim, em "O Espigão" (1974), a trama veio a debater sobre a ecologia e planejamento urbano, o que automaticamente estimulou o telespectador a plantar mudas de plantas. Outros exemplos são a minissérie "O Portador" (1991), sobre a prevenção à AIDS; a novela "O Rei do Gado" (1996) discutiu o explosivo tema da reforma agrária. Ao abordar os maus-tratos a idosos, as mortes por armas de fogo e a violência doméstica contra mulheres, o sucesso "Mulheres Apaixonadas" (2003), de Manoel Carlos, contribuiu para a aprovação dos estatutos do Idoso e do Desarmamento, além da lei que tipifica o crime de violência doméstica.

Qual o problema de escolher a melhor forma de se entreter sem ser julgado? A presidente Dilma Rousseff assim como mais da metade da população brasileira buscou ver o final da novela "Avenida Brasil", assim como o presidente americano Barack Obama mostrou-se fã da série "Breaking Bad" e recentemente o mesmo solicitou ver de antemão "Game of Thrones". E tem mais, até o famoso casal da realeza britânica Príncipe William e Kate Middleton disseram serem fãs do seriado "Downton Abbey". Agora devemos dizer que estas produções por serem estrangeiras são melhores do que as nossas telenovelas? O valor social que cada uma deseja passar é discrepante, mas nem por isso, devemos desmerecer sua narrativa, contexto social e ideologia intelectual. Cada um tira para si o proveito que julgar melhor para sua vida, e não é devido a gostos individualistas que algo deve ser menosprezado. Deve-se parar de "pagar pau" dos "gringos". Assim como a campanha de que "São Paulo precisa de mais amor", acho que ela deve ampliar e devemos pedir "Mais humildade, menos chatice e amor dentro e fora do Brasil".