OPINIÃO
26/03/2016 20:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02

O Facebook está longe de ser uma rede social 'tímida'

Naquele quadradinho de 160 pixels o que menos importa é sua vida real. Ainda mais se, como a minha, for 90% sentado na frente de um computador. Acho que até por isso o perfil-lifestyle é tendência. Aquele que usa o hobby como escada, sabe? Surf e guitarra ainda são os mais pedidos, mas o cross-fit e o yôga correm por fora.

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Se alguém lesse este post vinte anos atrás, estaria lendo no papel, não entenderia a palavra "post" e imaginaria a foto de alguém de lado. Isso era foto de perfil.

Mas duvido que algum de vocês tenha pensado em outra coisa que não aquela fotinho linda e tão bem pensada que você colocou no seu Facebook. É, eu sei que você pensou muito bem antes de colocar ela lá.

Tudo bem não admitir, eu também finjo que não é comigo. É como sair por aí dizendo que curtiu a última música do Justin Bieber - se bem que depois que a Jout Jout fez um vídeo sobre esse "problema", a música até ganhou ares cool.

E nesses tempos de análises rasas e especialistas de comentários, resolvi dar minha contribuição às ranhuras no caixão de Freud.

Desço um pouco na minha timeline e lá está ele: o inseguro que não achou nada melhor e seu rosto é obrigado a dividir espaço com um pedaço de bochecha do amigo que ele teve que recortar da foto.

Um pouco mais de scroll e são os tímidos-pegos-de-surpresa-porque-são-muito-tímidos-para-tirar-uma-foto-sozinho que aparecem. Quase uma variação do tímido-foda-se, que "bota qualquer uma", mas no fundo é louco pra encontrar um fotógrafo em uma festa que pegue ele em um momento espontâneo-descolado.

O problema é que o Facebook está longe de ser uma rede social tímida e, logo ali, no post vizinho, encontro os modelos digitais: que posam e até tratam a foto antes de coloca-la.

Entro em um grupo e lá surge o medroso-cômico, que prefere uma foto falsa ou hipster o suficiente para as pessoas não o reconhecerem e, ainda assim, acharem legal. Vai entender.

É tanto pensamento nas fotos de perfil que desenvolvemos até o olho enganador, geralmente azul ou verde, em close bem fechado, porque se tirar o zoom o resto não favorece.

Naquele quadradinho de 160 pixels o que menos importa é sua vida real. Ainda mais se, como a minha, for 90% sentado na frente de um computador. Acho que até por isso o perfil-lifestyle é tendência. Aquele que usa o hobby como escada, sabe? Surf e guitarra ainda são os mais pedidos, mas o cross-fit e o yôga correm por fora.

E por falar em correr, não nos esqueçamos dos maratonistas e dos bikers, modalidade em alta desde que não seja na ciclovia do Haddad. Mas em alta mesmo estão os adotadores de causa.

Aquele amigo que já foi Kaiowá-Guarani, que mostrou que o amor venceu nos EUA, que fez questão de dizer que as mulheres são donas do próprio corpo, que se solidarizou com a França e que com certeza marcará seu perfil na próxima grande pauta de discussão. Eu iria de grades pela prisão do Cunha. Ou do Lula. Ou dos dois.

E se todo mundo tem aquele amigo chato, todo mundo tem aquele amigo perfil-compulsório: que troca de foto a cada semana, às vezes com uma nova, às vezes com aquela do ano passado quando o rosto estava mais fino.

E a graça é que para cada compulsório solto por aí, tem um one hit wonder correspondente: acertou naquela foto uma vez e nunca mais fez sucesso.

É, meus caros, têm para todo gosto. Até foto de lado tem, em nome dos velhos tempos.

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