OPINIÃO
09/03/2015 10:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Frank Underwood, Dilma e panelas

E eu que até então achava que esse dia 15 ia ser só mais um domingo, provavelmente preguiçoso e ressaquento, comecei a ficar com medo. Medo do que vou ouvir até lá, do que vou ver até lá e, principalmente, do que vai acontecer por lá. Infelizmente.

Frank Underwood se preparava para receber o presidente da Rússia quando eu, afundado no canto do sofá, comecei a ouvir alguns barulhos na rua. O Pussy Riot só está na frente da Casa Branca, vai passar. Não passou. Fui obrigado a abandonar meu canto, congelar Frank e fechar a janela.

Acontece que o barulho lá fora aumentava. Pessoas começavam a sair na varanda, xingar, buzinar e piscar as luzes dos prédios. Alguma coisa estava acontecendo.

- Tá rolando alguma coisa, tem uma galera saindo na janela, gritando... - falei pro meu pai, outro viciado nas tramóias dos Underwood.

- Bota no Fantástico que a gente descobre.

- Pensei no Twitter.

Fizemos os dois e entendemos tudo: o acesso à TV fechada e ao Netflix no Brasil ainda é muito baixo. Não era o Zeca Camargo (ele ainda apresenta o Fantástico?), nem o Faustão com mais uma camisa brega quem falava. Era a Dilma, em rede nacional. Ih ela deve estar anunciando alguma coisa séria e a galera está protestando, cheguei a pensar.

Não, idiota, nada disso. O panelaço que àquela altura já havia dominado meu bairro era uma manifestação contra a Dilma e contra o PT, o cerne de todo o mal e toda corrupção que assola nosso país.

Já eu, muito mais interessado em saber o que aconteceria entre Francis e Viktor Petrov do que em ouvir o João Santana, só queria voltar para o meu sofá - mas a falta de janelas anti-ruído não me deixava.

Então peguei o celular e comecei a gravar tudo e, por um instante, tomado por alguma esperança ingênua, pensei que aquilo poderia ser uma demonstração legal de insatisfação e tomada de consciência política que sempre sonhei em ver no Brasil. Não, idiota, nada disso.

Aquilo era bobagem simplista com um toque de machismo. Se no pronunciamento Dilma anunciava a volta da escravidão ou papeava sobre o Comendador, ninguém sabia. O que todo mundo sabia é que já não se falava em outra coisa na internet e no WhatsApp.

E eu que até então achava que esse dia 15 ia ser só mais um domingo, provavelmente preguiçoso e ressaquento, comecei a ficar com medo. Medo do que vou ouvir até lá, do que vou ver até lá e, principalmente, do que vai acontecer por lá. Infelizmente.

Porque eu não tenho nada contra bater panela, vaiar, buzinar, criticar o político que cada um quiser. Pouco me importa também se essa foi a revolta da varanda gourmet. Todo mundo tem o direito de se expressar e ponto final.

O que me importa é que o que está acontecendo não é crítica, nem revolta ou engajamento. O que está acontecendo é ódio. E ódio não cria um país melhor, cria inimigos. Frank que o diga.