OPINIÃO
19/01/2015 16:39 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Eu te amo

Indiferença nunca foi nossa doença, embora achássemos tantas vezes que fosse a cura. Não era. Nunca foi e, no fundo, eu sempre soube disso. Um sentimento como esse não costuma aparecer muito, faz-se de difícil, raro, quase extinto, para que aquele que o encontre, guarde-o com cuidado.

Eu não soube guardar. Mas o tempo passou e aquilo que era para ter enfraquecido, permaneceu intacto. Um sentimento honesto, ingênuo até, mas profundo como nunca tinha sentido antes. Bem não faz, eu sei, mas passa longe de me fazer mal.

Faz muitas vítimas. Sim, vítimas, porque o que acaba antes de começar, acaba prematuro, deixa resquício. Pobres outras mulheres que passaram pela minha vida depois de você. O que pude oferecer à elas que não um carinho xoxo, uma atenção vaga? Nada. Desde você não consigo fugir das comparações, nem de Jack Kerouac. Não arrisco uma tradução:

"The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars"

Não precisaria nem ter lido a obra-prima de Kerouac, você me ensinou tudo isso. E, de repente, todas as outras perderam o sal, o sabor, ficaram sem alma perto de você. Por que não deu certo? Porque um amor como o nosso não é instantâneo, não é vulgar. Ele não é lugar-comum. Ele queima!

O olhar mais cheio de vida que já tive prazer de receber, o desprendimento que me encanta e me atormenta todos os dias da minha vida. Você me completa. Consigo imaginar sua voz paradoxalmente calma e incisiva me dizendo como isso tudo é piegas, mas e daí? Homem apaixonado é homem bobo, é homem clichê. E por você eu sou um apaixonado de cara de limpa.

Deixa os outros falarem, pensarem. Eles só sabem aquilo que falamos e teimam em achar que somos o que dizemos. Somos tão maiores que nossas palavras. E até prefiro assim: de um lado eles e do outro, nós.

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O que você me ensinou e me mostrou jamais caberiam nessa declaração e por isso, por algum instante, pensei em só te agradecer. Mas não quero dizer 'muito obrigado' pois ele tem tom de despedida e não vou me despedir de você porque escolhi que nós não vamos ter um final feliz simplesmente porque não vamos ter um final.

Minha cabeça insiste em sonhar, meu corpo insiste em desejar e me faz capaz de descrever cada passo seu comigo, cada sorriso mais lindo do mundo que recebi: sinceros, cheios de vida como você sempre foi. Tão cheia de vida que teve a generosidade de compartilhar um pouquinho dela comigo.

O prazer em assistir a lua, em só ficar deitado deixando a vida passar lá fora. A graça de uma bebedeira, de uma música no escuro com os sopros do outono entrando pela janela (Ah o outono!). Um jeito meigo que martelou minha onipresente razão e abriu espaço para tantos mundos que, isso sim, sem medo da despedida, posso dizer: muito obrigado.

Se é uma verdade que penso melhor escrevendo, talvez seja também meu maior arrependimento: nunca ter conseguido falar tudo isso, expressado esse meu amor sem fim. Os pecados são todos meus, como canta o Gil, e por isso mesmo há de haver mais compaixão. E se pra ser foda precisa ser tortuoso, difícil, quem ousa dizer que o nosso caminho não foi?

Quero sua boca, seu corpo, seu cabelo. Seu cheiro inconfundível, delicioso, que se perde em algumas lembranças e me atrai todos os dias. Mas não quero te machucar. Prometi que jamais te machucaria outra vez e não vou. Com você perto de mim, agora, é só para a felicidade. Com tristezas, é claro, afinal uma não existe sem a outra, mas nunca mais, nunca mais com feridas, machucados desnecessários.

Você é linda. Uma pessoa linda, uma mulher linda, e vai viver todos os momentos mais fodas nesse planeta tão mesquinho em que vivemos. E eu quero estar ao seu lado em cada um deles.

Eu te amo.