OPINIÃO
18/05/2015 17:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Abrace um misantropo

Será mesmo que você acha que uma foto sua com a sua mãe numa situação constrangedora-descolada, dentro de um filtro vintage realmente diz alguma coisa sobre você? Será que você realmente acredita que morar numa quitinete de frente pro Minhocão e postar uma foto da hortinha orgânica na janela com #existeamoremsp é alguma forma superior de se vender?

Eu gosto de pensar que mais pessoas, além de mim, vez ou outra, param para questionar a hipocrisia de nossa sociedade e refletir que, no fundo, estamos vivendo de aparências e amenidades. Mas não é verdade. Sei que estou mais sozinho do que deveria e menos do que gostaria.

De repente, ser ameno transformou-se em uma virtude insuperável e a velha máxima de que o único desvio de caráter que ninguém perdoa é a chatice, voltou a imperar. O que no meu mundo não passa de egocentrismo e falsidade, por aqui chamam de marketing pessoal.

Será mesmo que você acha que uma foto sua com a sua mãe numa situação constrangedora-descolada, dentro de um filtro vintage realmente diz alguma coisa sobre você? Será que você realmente acredita que morar numa quitinete de frente pro Minhocão e postar uma foto da hortinha orgânica na janela com #existeamoremsp é alguma forma superior de se vender?

A verdade é que nós paramos de privilegiar a inteligência para engrandecer o circo. E esse circo não tem origem romana. É o circo grotesco e bizarro que, sabe-se lá quando, todo mundo passou a achar graça e a curtir indiscriminadamente.

Tão indiscriminadamente que quando alguém se rejeita a entrar nesse freak show, é chamado de estranho. Pode até ser estranho, como eu sou, mas a palavra certa, amigos, é misantropo: aquele que odeia a raça humana. E não há outro sentimento honesto possível que não o ódio a nós mesmos.

A gente se acha bom porque diz que ajuda a construir um barraco melhor na favela para melhorar a vida das pessoas, quando na verdade só quer alguns likes a mais no Instagram e um tópico novo no currículo. Chega de pose, chega daquele matinho que nasce no meio do cimento sem importância e filosofia alguma, mas que insistimos em metaforizar.

Assume que em algum momento, você aí, fofo sem causa, quis e foi muito escroto com alguém. Que enquanto você defende a ciclovia do Haddad, repassa multa pra avó que nem dirige mais. Isso é a vida.

E ela é dividida entre os horríveis e os miseráveis, como Woody Allen nos ensinou, sendo os horríveis os aleijados e casos terminais, o que, por extensão, faz de todo o resto, inclusive eu, você, o Papa e a Gabriela Pugliese, miseráveis. E temos que agradecer por isso. Porque a gente se acostuma com ruim para o bom não perder sentido. Percebe como tudo é esquisito?

É por isso que entre tantas neuroses, disfunções, doenças e fobias espalhadas por aí, eu demorei, mas finalmente encontrei uma para chamar de minha. Para assumir como minha.

Eu não tenho preconceito com raça, orientação sexual, crença ou qualquer outra coisa pelo simples motivo de que na minha Constituição todos são iguais. Igualmente incapazes. Inclusive eu mesmo. Me abrace.