OPINIÃO
02/07/2018 16:46 -03 | Atualizado 02/07/2018 16:51 -03

O golpe de Trump contra a China: O primeiro de muitos?

A imposição das tarifas dos Estados Unidos sobre importações chinesas representa um passo mais concreto na direção de uma guerra comercial.

Donald Trump e Li Keqiang, premiê da China, se reuniram em Beijing em novembro passado.
Pool via Getty Images
Donald Trump e Li Keqiang, premiê da China, se reuniram em Beijing em novembro passado.

A imposição de tarifas sobre importações chinesas, determinada pelo presidente Donald Trump, constitui mais um exemplo daquelas ações que, apesar de prometidas e planejadas, a maioria esperava que nunca viesse a acontecer. Represente um passo mais concreto do que qualquer outro na direção de uma guerra comercial, cujas repercussões são tão perigosas quanto imprevisíveis.

Trump anunciou tarifas de 25% sobre importações originárias da China em uma gama de setores da economia, atingindo aproximadamente 50 bilhões de dólares em produtos, ou 10% do fluxo de bens e serviços chineses importados pelos norte-americanos. Destes, tarifas sobre 34 bilhões entram em efeito imediatamente e o restante nos próximos meses. Ato contínuo, o governo chinês anunciou tarifas retaliatórias de igual escopo, mas sobre setores diferentes da economia: produtos agrícolas, pecuários e automóveis.

Essas medidas protecionistas vieram na esteira de tarifas impostas pelo governo norte-americano sobre aço e alumínio importado da Europa, Canadá e México. O resultante clima de animosidade dominou a última reunião do G-7, no Canadá.

A razão pela qual muitos duvidam que Trump tomará esse tipo de ação é uma incompreensão sobre quem constitui sua real audiência. O presidente atua, interpreta, avança e recua tendo em vista apenas aquele público que comprou sua promessa em 2016 de que ele, sozinho, faria os EUA grande de novo ("Make America Great Again" foi o slogan da campanha). Não há qualquer pretensão de expandir sua base.

As repercussões políticas dessa ominosa guerra comercial, entretanto, poderão vir antes do que se imagina. Em jogo, nas eleições norte-americanas deste ano, está o controle da Câmara dos Deputados e do Senado. Enquanto o consenso parece ser que os Democratas têm uma boa chance de recuperar a maioria da Câmara, a história no Senado era bastante diferente. A maioria dos assentos em jogo é de senadores democratas que representam estados que votaram em Trump. Isso oferecia o prospecto de aumento da magra maioria republicana.

Depois de um ano e meio de mandato de Trump, o cenário é bem diferente. Os democratas estão cada vez mais otimistas e já começam a vislumbrar a possibilidade de capturar a maioria também no Senado. E, para isso, será central o desempenho da economia, agora ameaçada pela guerra comercial que já se iniciou. Para além de uma diminuição generalizada do comércio exterior, estados como Dakota do Norte, Montana e Indiana estão vendo ameaçadas as exportações agrícolas, das quais dependem. O que estes estados também têm em comum? Disputas pelo Senado, essenciais para determinar o seu controle.

A aposta de Trump é clara. E é a mesma que lhe garantiu a Casa Branca. Reconhece uma ampla insatisfação na classe média com a recuperação econômica que aprofundou desigualdades e atribui isso, ao menos parcialmente, a um cenário global desfavorável. Alimenta a percepção de que os EUA são explorados por seus parceiros comerciais, a partir de um regime de livre comércio que ele próprio capitaneou pelas últimas décadas. A retirada do país da Parceria Transpacífico e a pretensão de se renegociar os termos da NAFTA — Acordo de Livre Comércio da América do Norte — seguem a mesma lógica.

Se as consequências de uma guerra comercial — retração da economia global que já começa a ser sentida — são certas, a dúvida que resta é quanto à percepção deste processo pela audiência que elegeu Trump e que decidirá sobre sua recondução em 2020. Interpretarão como a consequência lógica das ações tomadas pelo governo norte-americano, atribuindo-lhe a devida responsabilidade? Ou perceberão este como mais um episódio da conspiração global para se aproveitar dos Estados Unidos, fortalecendo a guinada isolacionista já em curso? É, possivelmente, desta dúvida que depende o curso da guerra comercial cujos primeiros golpes já foram disparados.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.