OPINIÃO
28/03/2016 15:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Brics e Diplomacia Pública

A morte dos Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul-, foi amplamente anunciada pela mídia nacional e internacional, nos últimos meses. A profunda recessão econômica enfrentada por Brasil e Rússia, a ascensão dos TICKS - novo acrônimo a agrupar Tailândia, Índia, China e Coreia do Sul, e o encerramento do fundo de investimentos exclusivo para os Brics, criado pelo Banco Goldman Sachs, foram os marcos notáveis dessa conclusão. De modo geral, tal abordagem reflete que o pensado papel dos Brics como propulsor do crescimento global erodiu-se.

ASSOCIATED PRESS
Russian President Vladimir Putin, left, shake hands with Brazilian President Dilma Rousseff during the meeting leaders of BRICS prior the G-20 Summit in Antalya, Turkey, Sunday, Nov. 15, 2015. (AP Photo/Alexander Zemlianichenko)

A morte dos Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul-, foi amplamente anunciada pela mídia nacional e internacional, nos últimos meses. A profunda recessão econômica enfrentada por Brasil e Rússia, a ascensão dos TICKS - novo acrônimo a agrupar Tailândia, Índia, China e Coreia do Sul, e o encerramento do fundo de investimentos exclusivo para os Brics, criado pelo Banco Goldman Sachs, foram os marcos notáveis dessa conclusão. De modo geral, tal abordagem reflete que o pensado papel dos Brics como propulsor do crescimento global erodiu-se.

Não obstante, uma análise mais consistente dos propósitos dos Brics, tanto em sua vertente teórica, quanto em sua vertente prática, exige uma reflexão mais ampla, além do estrito escopo econômico. Sabe-se, afinal, que o grupo a muito deixou de ser simples acrônimo de investimento (2001-2007), para articular-se numa plataforma de coordenação informal em foros e organismos internacionais (2008-2014), até transformar-se num mecanismo institucional (2015).

Diante disso, propõe-se que o agrupamento seja analisado numa perspectiva tridimensional. A saber: i) por seu desempenho no aspecto macroeconômico, da qual deriva sua origem; ii) por seu papel como player político na governança global, em particular na esfera econômico-financeira; e, por fim, iii) pelo desempenho de sua recente instituição financeira, o Novo Bando de Desenvolvimento (NBD), voltado para o financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em economias emergentes e países em desenvolvimento.

É importante notar que as dinâmicas no interior deste níveis não se operam de modo necessariamente harmonioso, vantajoso em todos os níveis, tampouco se trata de algo necessariamente inequívoco. Isto trata-se de uma constatação empírica.

Tal abordagem multinível, evidentemente, contraria a lógica difundida sobre o grupo na mídia ocidental. Isto revela, por sua vez, um outra faceta, ainda muito negligenciada, e que explica, em parte, as mutáveis percepções sobre o grupo, ao longo dos anos: a ausência de uma "diplomacia pública".

Numa era da informação, a política tornou-se uma disputa por credibilidade competitiva. Os governos competem um com os outros e com outras organizações para melhorar sua própria credibilidade e enfraquecer a de seus oponentes e criam assim um ambiente capacitador ou incapacitante para suas políticas.

Nessas circunstâncias, a diplomacia direcionada para a opinião pública pode se tornar tão importante para os resultados quanto as comunicações diplomáticas confidenciais tradicionais entre os líderes. Num mundo assim, informação é poder.

Sob tais condições, mais que nunca, consolidar a imagem do Brics como "global player" na governança econômico-financeira global passa por uma estratégia eficaz de diplomacia pública.

Num primeiro estágio, englobaria as comunicações diárias que envolvem explicar o contexto das decisões políticas internas e externas do agrupamento. Implica, demais, reagir e responder imediatamente a acusações falsas ou informações equivocadas. Esse perspectiva se mediria em horas, dias e semanas.

Num segundo estágio, desenvolveria uma comunicação estratégica, que desenvolve um conjunto de temas simples. Eventos especiais como o lançamento do NBD, por exemplo, se ajustariam nesta descrição. Uma campanha de diplomacia pública, ainda, planeja eventos simbólicos e comunicações para reforças temas importantes ou fazer progredir uma determinada política do grupo. Esse estágio ocorreria em semanas, meses e até anos.

E, por fim, o terceiro estágio da diplomacia pública implicaria o desenvolvimento de relacionamento duradouros com indivíduos-chaves por muitos anos ou até décadas por meio de bolas de estudo, intercâmbios, treinamento, seminários, conferências e acesso aos canais da mídia. Há que se dizer que, até então, esse é o aspecto mais concreto do grupo, como exemplo a criação da Universidade dos Brics, no ano passado.

No conjunto, constata-se o ceticismo e a rejeição da mídia ocidental com relação aos Brics. O aspecto econômico do grupo, da qual deriva sua origem, é nitidamente superdimensionado em detrimento de suas outras facetas.

Os esforços de coordenação em foros e organismos internacionais, e o funcionamento do Novo Banco de Desenvolvimento, demonstram que de mero fundo de investimentos, os Brics se tornaram uma "marca" a ser considerada nas questões da agenda internacional, particularmente nas tocante à esfera da governança econômico-financeira.

Nesse sentido, a ausência duma "diplomacia pública" do grupo, em boa medida, prejudica a consolidação de sua imagem internacional como "global player" na governança econômico-financeira global.

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