OPINIÃO
10/03/2015 17:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

House of Cards e a reafirmação da Rússia como potência global

Após uma segunda temporada que insere como tema central da trama a política internacional por meio da controversa relação com a China, na qual os lobistas interferiam diretamente na temática, a nova temporada apresenta a relação dos Estados Unidos com a Rússia como o mais importante desafio que os personagens devem enfrentar em suas novas funções, tendo também as Nações Unidas e outros Estados atuando no cenário proposto.

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Frank e Claire Underwood estão de volta na aclamada série original do Netflix: House of Cards. Se você ainda não viu a terceira temporada, lançada integralmente no dia 27/02, cuidado com os spoilers. Na melhor série política desde The West Wing, Beau Willimon, seu criador, expõe bastidores inescrupulosos da política americana, que podem facilmente ser transportados para outros países.

Após uma segunda temporada que insere como tema central da trama a política internacional por meio da controversa relação com a China, na qual os lobistas interferiam diretamente na temática, a nova temporada apresenta a relação dos Estados Unidos com a Rússia como o mais importante desafio que os personagens devem enfrentar em suas novas funções, tendo também as Nações Unidas e outros Estados atuando no cenário proposto.

Merece destaque inicial a relevância que assuntos de política internacional tem no cenário político americano. Ao contrário do que observamos no Brasil, onde os temas de política externa não interferem em quase nada na popularidade de nossos representantes, nos EUA o assunto é central, a ponto de observarmos filmes e séries com temáticas internacionais bastante populares.

O assunto em voga é antigo, a relação Israel e Palestina, centrado na região do Vale do Jordão, fruto de controvérsias desde a Guerra dos Seis Dias, de 1967. Apesar disso, a série traz ambos Estados muito mais propensos à cooperação do que de fato observaríamos no mundo real. A proposta americana, levada pela Embaixadora Claire Underwood, de envio de tropas das Nações Unidas para a região, foi aceita rapidamente tanto por Israel como pela Palestina.

Aparece então o ponto central da trama internacional que se constrói: o relacionamento com a Rússia. Moscou não aceita as tropas na região por conta da proximidade com o Cáucaso e inicia uma contraposição bastante forte nas Nações Unidas e também nas relações bilaterais com os EUA para impedir que o plano dos Underwood seja levado à execução.

Críticas ao governo russo aparecem de forma transparente em protestos feitos pelo Pussy Riot em um jantar oficial oferecido por Frank ao Presidente Russo e também na discussão da pena aplicada a um americano por militância homossexual em Moscou. Tudo isso aliado a uma caricatura de Presidente (que apresenta similaridades bastante interessantes com Putin), batizado de Viktor Petrov.

Se House of Cards desejava criticar o governo da Rússia, conseguiu também, por outro lado, reconhecer o papel de protagonista do país no cenário global. Durante a Guerra Fria, o cinema e televisão americana de forma reiterada se utilizava do 'inimigo' soviético. Depositaram depois na China, alguns líderes africanos e no ´terror´ o estigma de inimigo. Com House of Cards, a Rússia se reencontra com a produção cinematográfica americana e recupera seu "papel".

A Rússia de Putin (eleito pela Forbes duas vezes seguidas - 2013 e 2014 - como o homem mais poderoso do mundo) se reafirma como protagonista do cenário internacional e reinsere elementos ao já complexo emaranhado global. A crise da Criméia, a relação com a União Europeia, as interferências no Oriente Médio e África, a aproximação com os BRIC´S e as novas preocupações de segurança demonstram uma Rússia player global, sem a qual os grandes temas das relações internacionais não serão discutidos.

Podemos esperar uma Rússia com orgulho nacional revigorado. Uma Rússia que não está disposta a jogar no tabuleiro de xadrez posto, mas sim derrubar todas as peças e bagunçar o jogo inteiro. Também podemos esperar uma Rússia autoritária, com economia instável e desrespeitando direitos humanos. Agora é aguardar as cenas dos próximos capítulos, para descobrir quais serão as jogadas de Moscou e as respostas principalmente de Estados Unidos e União Europeia.