OPINIÃO
26/03/2016 19:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Este é, realmente, o fim do BRICS?

Anadolu Agency via Getty Images
BELEK, TURKEY - NOVEMBER 15 : (L-R) Brazilian President Dilma Rousseff, Indian Prime Minister Narendra Modi, Russian President Vladimir Putin, Chinese President Xi Jinping and South African President Jacob Zuma pose for photographers during the BRICS leaders meeting prior to G20 Turkey Summit on November 15, 2015 in Antalya, Turkey. The 2015 G-20 Leaders Summit will be held in Antalya on November 15-16, 2015. (Photo by Ahmet Bolat/Anadolu Agency/Getty Images)

O economista chefe da Goldman Sachs, Jim O'Neill, em um estudo de 2001 intitulado Building Better Global Economic BRICs, cunhou a sigla que seria o sinônimo de alto crescimento e um possível símbolo da mudança no poder econômico global, ampliando a participação de economias não integrantes do G7 nos principais foros econômicos globais e sua relevância no cenário internacional.

Por conta do acúmulo de prejuízos constantes, o fundo criado pela própria Goldman Sachs para investir em ativos dos BRICS foi fechado recentemente. Com uma queda de 88% em relação aos ativos de 2010, o fundo contava com apenas U$98 milhões, menos de um oitavo do que geria há cinco anos. O fundo será agora redirecionado para países emergentes em geral.

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (que oficialmente passou a integrar a sigla em 2011) representavam, contudo, não apenas um grupo de emergentes em matéria econômica, mas também de países interessados na alteração do status quo vigente no cenário internacional, possibilitando uma nova balança de poder às relações internacionais.

Juntos, eles formaram um grupo extremamente heterogêneo, com interesses diversas vezes conflitantes, mas que concordam pragmaticamente com a tentativa de reordenação das relações internacionais e suas instituições.

Com certeza, da mesma forma que a atuação conjunta dos BRICS não dependia da Goldman Sachs, não será o banco de investimentos que decretará sua paralização. Contudo, os sinais econômicos e políticos devem ser vistos com cautela e o grupo que sempre apresentou dificuldades de coordenação, parece cada vez mais heterogêneo e preocupado com seus assuntos individuais.

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O milagre econômico chinês que por muitos anos impulsionou o crescimento de boa parte do mundo, incluindo o Brasil, que navegou confortavelmente com a venda de commodities a altos preços para o gigante asiático, encontra seus primeiros sinais de esfriamento. Não que o crescimento de 6% previsto para o ano de 2015 seja baixo, mas apresenta uma desaceleração ainda que pequena o que já causou impactos em diversos de seus parceiros, inclusive o Brasil. A dependência brasileira e de outros países, do capital e comércio chinês dentro de um cenário de retração do crescimento gera uma relativa incerteza no cenário econômico colocado.

A Rússia tem se destacado no cenário internacional por uma postura cada vez mais agressiva. Recupera o protagonismo provavelmente da forma mais antiquada que as relações internacionais podem relatar, pelo mecanismo bélico. O caso da Criméia e o da Síria representam uma proposta intervencionista bastante pesada, além da utilização cada vez mais firme do poder geopolítico de sua reserva de gás, deixam clara a intenção de Putin de retomar a posição Russa de líder global. Entretanto, aposta na insegurança e no temor de seus adversários, retomando protagonismo, mas gerando instabilidade sem ganhar credibilidade.

No caso brasileiro, o Itamaraty está desde o início do governo de Dilma Roussef completamente abandonado, seu orçamento cada vez mais reduzido e seu poder de atuação cada dia mais restrito. Roussef parece não ter interesse algum pelos assuntos internacionais e nem mesmo cumpre protocolarmente os mínimos compromissos oficiais necessários e pertinentes ao cargo (acaba de cancelar, por exemplo, pela segunda vez, uma missão ao Japão e é famosa por deixar esperando embaixadores e Chefes de Estado para audiências com ela).

O Brasil passa por uma crise político-econômica que afeta significativamente não apenas o crescimento econômico e a credibilidade do país perante investidores, mas também a legitimidade da presidente Dilma de liderar o país na adoção de uma postura de líder global. Sua política externa em relação à América do Sul está cada vez mais em cheque e o afastamento de antigos aliados europeus e norte-americanos, que por um lado se provou eficaz em uma série de foros internacionais, mostra-se em diversos setores também prejudicial sobretudo em matéria de investimentos e comércio.

Quando a Goldman Sachs fecha o fundo que destinava aos BRICS, apenas reflete a percepção internacional a respeito do grupo de emergentes que o integram: apesar do enorme potencial que apresentam, os países carecem de estabilidade e demonstram credibilidade constantemente afetada no cenário internacional.

Se a reordenação das relações internacionais era um de seus pontos focais, apesar de concordarem com a modificação do status quo, os BRICS não foram capazes de apresentar uma nova proposta ao cenário internacional.

De fato, os cinco países que integram o acrônimo representam uma possibilidade real de alteração da balança de poder no cenário internacional seja em termos políticos, seja em termos econômicos, mas precisam, antes de tudo, de organização, estabilidade e geração de credibilidade internacional para tanto.

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