OPINIÃO
08/04/2016 18:24 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Sororidade: mulheres unidas

Vocês tem que parar de chamar umas às outras de vadias e putas. Isso só faz com que seja aceitável que os homens as chamem de vadias e putas.

Lucia Lambriex via Getty Images
Mixed group of women gathered and sitting at a large table, smiling and raising their fists in a display of female power.

Por Izabela Costa*

"Vocês tem que parar de chamar umas às outras de vadias e putas. Isso só faz com que seja aceitável que os homens as chamem de vadias e putas".

Eu devia ter uns 12, 13 anos de idade. Era dia de aniversário na turma e eu estava empolgada, a ponto de achar uma boa ideia me maquiar. Ao chegar à festinha, reparei que minhas amigas também haviam se maquiado e nós passamos alguns minutos nos elogiando umas às outras. Eu sentia que estávamos lindas de verdade, até porque, acima de tudo, nós estávamos felizes. Mas no momento em que me separei delas, meu melhor amigo comentou que não entendia porque eu estava tão feliz. Respondi que estava me sentindo bonita, assim como as meninas e então ele ironizou: "engraçado, achei que mulher só se arrumava para competir com as outras".

Não dei bola, mas na hora de dormir pensei naquela frase muitas e muitas vezes, tentando me convencer de que ele tinha razão. Sua declaração, tão pronta, direta e firme me parecia também ser muito verdadeira e na minha mente comecei a lembrar de situações nas quais, supostamente, eu tivesse de fato competido com alguma amiga para ver quem era a mais bonita de todas. O mais estranho é que essa sensação seguiu dentro de mim até o fim do ensino fundamental, resistiu durante todo o colegial e só teve seu fim na faculdade, quando conversando com outras mulheres, me dei conta que de um modo ou de outro, todas nós já tínhamos ouvido coisa parecida em nossas respectivas infâncias.

Naquele momento ficou evidente para mim a existência de uma força oculta e maior que trabalhava desde sempre na intenção de causar discórdias e rancores nas relações entre as mulheres. Se eu e todas as minhas amigas ouvimos as mesmas "teorias" a vida toda, é por que isso deveria fazer algum sentido, certo?

"Eu quero incendiar esse lugar"

Errado. O machismo, em todas as suas ideias, não faz o menor sentido. E essa falsa rivalidade entre as mulheres é uma das piores, porque distancia e cria embates que por natureza nunca existiriam.

Se eu não acreditasse que estou constantemente em competição com outras mulheres, eu provavelmente teria uma vida mais tranquila e real, além de confiar e apoia-las contra os demais problemas que o patriarcado insiste em nos criar. Por isso gosto tanto e me esforço todos os dias para praticar a SORORIDADE, que nada mais é em seu significado mais puro, a irmandade entre mulheres a fim de alcançar um objetivo em comum. No caso, o fim do machismo.

É por causa da >sororidade que achei minhas amigas lindas naquela festinha.

É por causa da sororidade que nos debates feministas que participo, sempre escuto a toda mulher que deseja e tem algo para falar, ainda que discorde dela. É por causa da sororidade, inclusive, que me posiciono quando sinto que uma irmã falou algo equivocado ou não totalmente livre de machismo. Passar o pano não é uma atitude de quem se preocupa com a outra pessoa e a sororidade é pura consideração com as mulheres ao redor.

É por causa da sororidade que descobri a principal força deste movimento: a união e os benefícios que ela gera na vida de uma mulher além da própria consciência política. Você para de ver as outras mulheres como inimigas e sim como aliadas, pois sabe que é ao lado delas que você vai chegar onde quiser. A sororidade é um dos combustíveis do Feminismo e, se for ver bem, um dos grandes segredos da vida. Enquanto o machismo separa, a sororidade une e por isso ela é importante e precisa ser compreendida e executada cada vez mais.

Acreditem, estamos todas lindas, maquiadas ou não.

Ps.: Nesta semana a blogueira feminista Lola Aronovich foi alvo de ataques machistas em seu twitter, além de ter sido alertada por alguns leitores da existência de um blog fake com seu nome e que disseminava ideias nada feministas. Completamente sozinha, Lola publicou um texto desabafo pedindo ajuda na divulgação do caso e reafirmando que não tinha nenhuma ligação com o blog de mentira. Esperava que seu grito fosse ecoado pelas redes, mas tirando os esforços individuais de várias mulheres e algumas páginas no Facebook, vários coletivos feministas atuantes e de grande alcance se quer citaram a situação. Como qualquer processo humano, o feminismo também é cheio de falhas, mas o desamparo em relação a uma feminista coerente e com anos de luta nas costas chega a ser vergonhoso. Fica o recado então: mais sororidade meninas, sem isso não somos nada!

*Izabela Costa é jornalista, uma das criadoras do Perdidos no Ar, feminista e adora amostras grátis, segundo sua bio no Twitter. Lá no Medium ela também escreve bastante coisa sobre música e feminismo. Ela foi convidada pelo blog para participar do #AgoraÉQueSãoElas, uma ação em prol da ocupação feminina na mídia.

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