OPINIÃO
17/09/2015 20:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

A sociedade valoriza o sucesso e não a educação de um filho', diz diretora de 'Que horas ela volta'

Ela defende que a maternidade passa pela questão complexa da educação e diz, em tom de brincadeira, que o governo deveria entregar livros a mulheres grávidas.

Quando Anna Muylaert entrou na sala de cinema, já estava sendo ovacionada em pé. O público havia acabado de assistir seu recém-lançado filme e se preparava para a rodada de bate-papo com a diretora. A repercussão imediata da plateia refletia o que a crítica internacional já havia constatado: Que horas ela volta? é foda!

Recentemente o longa venceu a principal categoria do Festival de Berlim, na qual o público elege seu filme preferido na mostra, e na última semana foi eleito para ser a indicação brasileira ao Oscar 2016. Tanto sucesso rendeu alguns problemas para a diretora Anna Muylaert. "Quando você faz um filme que está dentro de um contexto de pequeno sucesso, está tudo bem. Mas como esse filme alcançou um sucesso maior, os homens têm dificuldade de aceitar que foi uma mulher que fez", declarou.

Durante um debate com o público, ocorrido no Caixa Belas Artes, em São Paulo, ela conversou com o blog sobre a produção. O encontro fez parte de uma programação especial que o cinema vem promovendo entre espectadores e realizadores (dá pra conferir a programação dos próximos encontros direto na página do Facebook do cinema). Muylaert contou que durante uma reunião sobre os direitos do filme, um distribuidor estrangeiro conversou apenas com outro integrante da produção que a acompanhava, sem falar com ela. Esse outro integrante era homem. "A mulher é forte, mas o homem não olha na cara dela, procura o olhar de outro pra ver quem é o culpado do sucesso", concluiu.

"O machismo está enraizado no DNA da sociedade, tanto em homens quanto em mulheres. No início da carreira, a maior dificuldade é que as pessoas te deixam fazer o trabalho, mas não te permitem ter crédito. Depois que você consegue o crédito, ganha dez vezes menos que seu par masculino. Tudo isso é uma luta que exige paciência, até que você faz um filme que, enquanto ele está dentro de um contexto de pequeno sucesso, está tudo bem. Mas como esse filme alcançou um sucesso maior, os homens têm dificuldade de aceitar que foi uma mulher que fez. Eles preferem acreditar que foram eles que fizeram. Então, eu venho sofrendo alguns bullyings, sim, inclusive no Brasil."

A enciclopédia Casé

Mas, antes da premiação alemã e desses problemas machistas, a exibição do longa nos Estados Unidos rendeu o prêmio de melhores atrizes a Regina Casé e Camila Márdila. Elas interpretam mãe e filha que não se veem há dez anos, até que Jéssica (Márdila) vem a São Paulo para prestar vestibular. Nisso acontece o choque sócio-econômico-afetivo-geracional-cutural com Val (Casé) - uma doméstica "que é praticamente da família", criou o filho da patroa como se fosse seu, mas tem um grande problema com Jéssica.

De uma forma simples e delicada, Que horas ela volta? ataca, muito efetivamente, algumas feridas abertas da sociedade. Segundo a diretora, como o filme não fala de Carnaval nem de violência, ocupa "um lugar do meio".

"É um lugar que está tentando explicar como a cultura funciona. [Um lugar] Que, apesar de ser simpático, está promovendo separatismo, não está pensando em cidadania, não está pensando na nação como um todo, onde os privilegiados estão mantendo seus privilégios e não estão refletindo. Isso gera abismo social e violência", explica.

Todas as críticas, elogios e prêmios que Casé vem recebendo não estão exagerados. Como bem disse a diretora durante o bate-papo no Belas Artes, Casé "é uma enciclopédia de falas e gestos". Se havia alguma linha tênue entre ser genial e ser caricata em sua atuação, ela não se deu conta da existência disso e fez uma autêntica pessoa comum que fará você se recordar da sua mãe, avó, tia ou babá.

Belezas críveis e atuações muito próximas do mundo real, que facilitam o espectador a se identificar com a história, marcam um elenco muito bem escolhido. Destaque para a cena em que o personagem de Lourenço Mutarelli faz uma proposta à Jéssica na cozinha da casa. Gravada toda em improviso, as reações dos atores lembram muito as peças do humorista inglês Ricky Gervais por serem genialmente constrangedoras.

Valorização da maternidade e olhar feminino

Além de falar de questões hierárquicas complexas do Brasil, o filme aborda também o tema da maternidade - ou "maternidades incompletas", como sugeriu alguém da plateia. Segundo Muylaert, ser mãe não é uma condição valorizada no País e prova disso é a figura da babá. Não foi à toa que, em alguns países, o filme recebeu o nome de A segunda mãe.

"O valor da nossa sociedade está baseado em conceitos concretos: dinheiro, parâmetros, medalhas. Ninguém vai te dar prêmio por você ser uma boa mãe, então a gente precisa olhar o mundo e mudá-lo, incluindo um olhar feminino. A mulher já soube incluir o olhar masculino na medida em que está trabalhando, ganhando prêmio e fazendo filme. O homem precisa agora absorver esse olhar feminino e entender outros valores. É um momento em que as mulheres estão muito fortes e os homens estão enfraquecidos diante das mulheres, na medida em que continuam acreditando só num olhar, que é o do valor financeiro, do poder. Só que a sociedade continua sendo machista"

Ela defende que a maternidade passa pela questão complexa da educação e diz, em tom de brincadeira, que o governo deveria entregar livros a mulheres grávidas. Para exemplificar isso, Muylaert recordou a história do sobrinho pequeno que, intimado a arrumar os brinquedos espalhados pela casa, disparou: "mas tia, eu não sei arrumar, só sei bagunçar". A fala até virou episódio da série de TV Um menino maluquinho, dirigida e escrita por ela. "Quando tem uma babá, ela mesma faz isso em três minutos; mas ensinar a arrumar leva meia hora". Mãe de dois filhos, ela revela, rindo, que tenta praticar isso em casa. "Não sou um sucesso porque eles [os filhos] reclamam muito. Mas, mais ou menos, vai indo".

"A sociedade valoriza o sucesso e não a educação de um filho. E qual é mais importante? Eu sou mãe e sou cineasta, então posso falar: As duas são complexas, mas ser mãe é muito mais"