OPINIÃO
30/01/2014 19:37 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Resolução de 2014: Liderar uma campanha de mudança social

Você acompanha de perto o que acontece no seu bairro e na sua cidade. Vive compartilhando denúncias no Facebook. Participa de grupos de discussão sobre os mais variados temas. Já pensou em liderar uma campanha de mudança social?

Há mais de 10 anos eu trabalho com as mais variadas causas -- de saúde a direitos humanos, passando por direito do consumidor e meio ambiente. Sempre quis entender como são gerados grandes momentos de transformação política. Mais do que isso, queria desvendar a fórmula da mobilização, que transforma a apatia em engajamento social.

Grandes manifestações, mobilização de base, denúncias, campanhas midiáticas, articulação política. Estas e outras táticas sempre foram usadas para influenciar a política para o bem social. Algumas mais eficazes que outras, porém a maioria restrita às pessoas que têm tempo, disponibilidade, recursos e contatos para liderar uma campanha, geralmente com o apoio de alguma organização da sociedade civil ou instituição.

Mas agora entramos em uma nova fase surpreendente. As mudanças sociais sociais estão acontecendo de uma forma muito mais rápida e ampla do que qualquer um poderia prever.

2013 nos provou isso, e 2014 promete muito mais.

A Internet trouxe ferramentas para que qualquer pessoa com apenas um acesso à internet, possa propor e lançar uma mobilização virtual. Eu tive o privilégio de acompanhar dezenas destas ações ao longo do último ano, desde que ajudei a fundar no Brasil a Change.org, uma plataforma de abaixo-assinados online aberta para qualquer um criar sua campanha. Neste tempo pude comprovar que o engajamento político através da internet está se multiplicando dramaticamente, impulsionado em parte pelas petições online que se disseminaram e viralizaram. Para dar uma ideia, a Change.org chegou a 1 milhão de usuários brasileiros em apenas oito meses depois do lançamento, hoje já próximo dos 2 milhões.

O que vemos são campanhas dos mais variados temas, desde a construção de uma pista de skate até salvar um programa de televisão educativo que seria cancelado. São campanhas criadas por pessoas comuns: a fã do programa, o frequentador de um centro cultural ameaçado ou o morador de um bairro negligenciado pela prefeitura.

E o mais surpreendente, estes heróis anônimos estão vencendo. No pouco tempo disponível, depois do trabalho ou dos estudos, eles buscam informações sobre a causa que estão denunciando, colocam as suas demandas online, divulgam, pressionam o poder público e vencem. O modelo tradicional de mobilizar continua sendo crucial, mas agora ele está sendo potencializado pela força de propagação da Internet.

Para começar bem o ano, eu queria compartilhar três casos vitoriosos inspiradores:

Charline Carelli é uma estudante de arquitetura que ficou indignada com um projeto de lei apresentado por um vereador para multar e aprender bicicletas, skates e patinetes que circulassem fora das ciclovias. Charline ganhou apoio no seu abaixo-assinado, fez a entrega das mais de 8 mil assinaturas e conseguiu convencer o vereador a remover as partes polêmicas do projeto de lei.



Flávia Lemos e Luciana Cury moram na Pompeia, em São Paulo, onde ajudaram a fundar o Coletivo Ocupe & Abrace, um grupo de bairro para revitalizar e ocupar uma praça da região. Foram elas que descobriram e denunciaram os planos da prefeitura de remover 30 árvores em uma grande avenida. Com pouco mais de 13 mil assinaturas, elas conseguiram convencer a prefeitura a revisar o projeto e manter as árvores.



Luciana Costa vive em Nova Odessa, São Paulo. Ela aprendeu inglês com o programa "Inglês com Música" da TV Cultura e ficou indignada em saber que o programa seria cancelado. Ela iniciou um abaixo-assinado apelando para o Presidente da Fundação Padre Anchieta, Marcos Mendonça, manter o programa. Após 1.926 assinaturas, a emissora anunciou que iria manter o programa na grade e gravar novos episódios.



Esses não foram os casos mais expressivos de mudança social que aconteceram no país no ano passado. Não geraram grandes transformações políticas, nem abalaram as estruturas do poder no Brasil.

Mas eles são um reflexo de mudanças maiores que estão por vir. A forma como a sociedade está aprendendo a se organizar para ocupar o seu espaço na política. Antes, uma denúncia era restrita aos círculos de quem denunciava, principalmente em casos de cidades pequenas, hoje é possível ter até apoio internacional. Hoje, autoridades e políticos não podem se dar ao luxo de ignorar demandas e críticas, eles sabem que uma exposição negativa viral poderá custar um próximo mandato, ou toda uma carreira política.

As mudanças hoje partem de todos os lados, de forma espontânea e descentralizada. Quando todos percebermos que não podemos esperar que outra pessoa organize, convoque e lidere, que qualquer um de nós pode ser esta pessoa, o engajamento e as transformações vão se multiplicar em uma escala exponencial.

Será que 2014 vai ser o ano em que você vai liderar uma campanha? Já pensou no que você quer mudar?