OPINIÃO
09/04/2018 15:11 -03 | Atualizado 09/04/2018 15:19 -03

O que significa a prisão do maior líder popular do Brasil

Desde sábado (7), o ex-presidente cumpre pena por corrupção e lavagem de dinheiro na Polícia Federal em Curitiba.

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Líder nas pesquisas de intenção de votos, Lula foi ovacionado por militantes antes de se entregar à Polícia Federal.

"Será mesmo que ele vai ser preso?" Nunca uma prisão anunciada foi tão incerta. De julho, quando foi condenado em 1ª instância, até a última semana, foram 9 meses de questionamentos sobre o possível cumprimento da sentença dada ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção e lavagem de dinheiro. O Brasil se tornou uma arena dividida em dois lados, com um fator comum entre eles: tanto os que defendem o ex-presidente quanto os que queriam sua condenação duvidavam da Justiça.

Os que afirmam que ele está sendo perseguido acreditavam que, no fundo, policias federais não teriam coragem de prender o ex-presidente líder nas pesquisas de intenção de voto. Do outro lado, mesmo os que enxergam sua prisão como um marco no combate à corrupção desconfiavam de que a Justiça o mandaria para a cadeia. A expectativa era de que o Supremo Tribunal Federal concederia um salvo-conduto que o deixaria recorrer da sentença em liberdade.

Os incrédulos erraram. Lula foi condenado em julho a 9 anos e 6 meses de prisão por decisão do juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato na 1ª instância, no caso do tríplex do Guarujá. Em janeiro, por decisão de colegiado, 3 desembargadores concordaram com a sentença de Moro, mas aumentaram a pena para 12 anos e 1 mês.

De acordo com a legislação brasileira, ao ter a condenação confirmada, o ex-presidente se torna inelegível, e já poderia cumprir a sentença, antes mesmo de o processo ser concluído. A defesa recorreu a instâncias superiores, mas não teve sucesso. Na quinta-feira (5), 17 horas depois de o recurso ter sido negado no Supremo, o TRF-4 (Tribunal Regional da 4ª Região), que confirmou a pena na 2ª instância, enviou um ofício ao juiz Sérgio Moro autorizando a prisão. Em 19 minutos, o magistrado expediu o mandado de prisão. Deu até às 17h do dia seguinte para o ex-presidente se apresentar à Polícia Federal.

Ainda assim, não parecia real que o ex-presidente seria preso. Tanto que deu 17h de sexta-feira, Lula não se entregou e ninguém sabia ao certo o que ia acontecer. Não estava claro se a polícia ia invadir a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde Lula estava, e prendê-lo à força. Uma multidão isolava o petista em seu berço político.

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Antes de se entregar à Polícia Federal, o ex-presidente discursou para uma multidão.

Neste momento, ele fazia o que sempre fez de melhor: política. Enquanto sua defesa negociava novos termos para a prisão, o ex-presidente traçava um novo quadro para as eleições. Líder nas pesquisas de intenção de voto, Lula está fora, barrado barrado na Lei da Ficha Limpa. Por mais que possa registrar candidatura, há entraves que a impedem de avançar. Mesmo dentro da cadeia, Lula ainda mexe no xadrez eleitoral.

Eleições 2018

Lula sinalizou apoio a dois pré-candidatos de esquerda: Guilherme Boulos, pré-candidato à Presidência pelo PSol, e à Manuela D'Ávila, presidenciável do PCdoB. Não deixou claro se indica alguém do PT nem qual seria esse nome. Até o momento, os dois seguem a caminhada em chapas separadas e disputando o mesmo voto. Neste cenário, com os votos de Lula fragmentados entre a esquerda, sai na frente o segundo colocado nas pesquisas de intenção de votos: o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), candidato de extrema-direita.

Os dias que antecederam o calvário do ex-presidente coincidiram com um momento decisivo para os que querem disputar o Palácio do Planalto: o fim do prazo para se filiar a um partido político e para deixar o governo. Entraram oficialmente na disputa o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB), o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa (PSB). Também seguem na disputa o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e a ex-ministra Marina Silva (Rede), além do empresário João Amoêdo (Novo).

São pelo menos 11 presidenciáveis e pouca certeza sobre o futuro. Há ainda a possibilidade de o atual presidente Michel Temer (MDB) entrar na disputa. As principais análises políticas indicam que sem Lula na disputa e com a esquerda dividida em diferentes frentes, Bolsonaro sai na frente e abre-se espaço para um nome de centro crescer entre os que não votariam em um candidato tão radical, mas também não se identificam com os nomes da esquerda.

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Manifestantes comemoram a prisão do ex-presidente em Curitiba.

Para este ano, o eleitor brasileiro tem uma particularidade: o enfoque no combate à corrupção. Este indicador faz a diferença na hora de dividir a população entre os que amam e os que odeiam o ex-presidente Lula. Pesquisa Ibope do fim do ano passado mostra que o índice de entrevistados que consideram a corrupção o grande problema do País no momento foi de 9%, em 2011, para 62%, em 2017 — superou saúde (52%) e segurança (33%).

Para os que desejavam a prisão do metalúrgico, há a percepção de que a corrupção pode ser punida. Significa um marco na Operação Lava Jato, que investiga o maior escândalo de corrupção já investigado no País. Lula foi condenado por ter sido beneficiado por parte da propina desviada de contratos da Petrobras com a empreiteira OAS.

De outro lado, há os que defendem o legado do governo do ex-presidente, marcado por políticas afirmativas e de combate à desigualdade social. Foi também um período de crescimento para a economia brasileira, com queda na taxa de desemprego e aumento do PIB (Produto Interno Bruto). Estes acreditam que o ex-presidente é alvo de perseguição política porque há outros políticos também investigados em processos que não tramitaram com a mesma rapidez.

Independentemente do desejo de parte da população, um dos poucos cenários nítidos para as eleições deste ano é que Lula está definitivamente fora da disputa formal. A política que ele e o partido adotarem nos próximos dias ajudarão a definir o jogo de 2018, mas o resultado é uma taça que o petista não vai erguer.