OPINIÃO
12/10/2018 18:37 -03 | Atualizado 12/10/2018 18:37 -03

Horário eleitoral expõe estratégias para conter fragilidades de Bolsonaro e Haddad

Uma análise sobre como as campanhas atacam pontos delicados a cada um dos candidatos neste início de disputa do 2º turno.

Montagem/Reuters

Jair Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PSL, e Fernando Haddad, presidenciável PT, voltaram nesta sexta-feira (12) ao horário eleitoral na televisão, exatamente nesta ordem. Desta vez, em um novo início de disputa, rumo ao 2º turno, que acontece no dia 28. Os dois com o mesmo tempo: 5 minutos cada.

Ambos aproveitaram o horário para conter as fragilidades de suas candidaturas. Além de explorarem o medo do eleitor (leia mais abaixo), focaram em pontos específicos. Bolsonaro foi direto nos públicos em que enfrenta maior resistência: mulheres e negros. "Sou mulher, sou negra e, acima de tudo, brasileira", diz uma suposta eleitora do candidato.

O capitão reformado do Exército, considerado símbolo de truculência por seus opositores, apela a palavras positivas, como gratidão, determinação e honestidade.

Já Haddad trocou a roupagem do horário eleitoral de olho no eleitor que não votou no PT, com foco em um país de paz, emprego e salário, saúde e educação. A peça também se destina a formar uma imagem de bom moço em torno do candidato. O apresenta como professor, pai de família, ex-ministro da Educação, autor de programas como ProUni e Fies sem fiador. Diferentemente do adversário, o petista consegue mostrar propostas, como a criação de um programa de combate ao desemprego.

O medo como tônica

Embora com propostas diferentes, os dois iniciam os vídeos baseados na mesma premissa: o medo. Bolsonaro atacou o temor dos brasileiros de que o Brasil se torne uma "Venezuela" - que vive uma crise humanitária -, o medo do "comunismo" - um modelo de sociedade sem classes sociais - e da "doutrinação" - uma imposição de valores.

A gravação chama Cuba de país mais atrasad do continente. Entretanto, como destaca o jornal Folha de S.Paulo, "a ilha socialista é a 73ª no ranking global de Índice de Desenvolvimento Humano, atrás de Chile, Argentina, Uruguai Costa Rica e Panamá, mas à frente do Brasil (79º) e outros 16 países da região, como México e Colômbia, descontadas pequenas ilhas caribenhas".

A campanha de Bolsonaro usa imagens de Lula e faz referência ao fato de o maior líder do partido adversário estar preso. "Se ele está preso é tão bandido como qualquer um outro", diz uma suposta eleitora.

Já o programa de Haddad, na onda dos casos de violência registrados na última semana, afirma que o adversário foi vítima daquilo que prega e planta a dúvida: "Se a violência já chegou nesse nível, imagina se ele fosse presidente". "Eu estou em pânico, eu tenho medo", acrescenta outra personagem da peça.

O vídeo do petista usa imagens de Bolsonaro no Acre dizendo que vai "fuzilar a petralhada", do deputado estadual eleito no Rio de Janeiro Rodrigo Amorim enaltecendo ter quebrado a placa que homenageava a vereadora Marielle Franco, assassinada em março, e do candidato ensinando uma criança a fazer sinal de arma.

Aposta ainda em uma gravação de um eleitor apertando as teclas 1 e 7, números do adversário, nas urnas com uma arma, seguido da narração "este é o Brasil de Bolsonaro".

À Folha de S.Paulo, Marco Aurelio Ruediger, diretor da Daap/FGV destaca que o discurso de ódio é generalizado, existe dos dois lados. "Temos de rejeitar esse nível de tensionamento segundo o qual o outro não é só adversário, mas inimigo a ser batido", pontua.

As fragilidades de cada um

Eleitorado feminino

Bolsonaro dedicou praticamente 20% do tempo disponível para atacar uma das principais críticas contra ele: a diminuição da mulher. Isso por já ter afirmado, sim, que não empregaria mulher com o mesmo salário de homem e ter dito que a única filha mulher era resultado de uma fraquejada.

Foi justamente a imagem da pequena Laura que ele levou à televisão para sensibilizar o eleitorado. Com lágrimas nos olhos, ele conta que desfez uma vasectomia pela "realização de grande parte das mulheres que é ter filhos". No trecho, o candidato diz que a atual esposa é mãe solteira.

As pesquisas de intenção de votos no primeiro turno apontavam que o candidato que pontuava melhor entre as mães solteiras era Haddad. Datafolha publicada no dia 2, mostrava que o ex-ministro da Educação tinha 29% das intenções de voto contra 14% do capitão reformado do Exército nesta fatia do eleitorado.

Frente ampla

Já Haddad, indiretamente, atacou a chaga do antipetismo que ronda sua campanha. Com uma presença tímida do tom vermelho e pouca exposição da imagem do ex-presidente Lula, Haddad se direciona ao eleitor que não votou no PT: "Mesmo que você tenha votado em outro candidato no primeiro turno, eu quero conversar com você. Essa campanha não é de um partido, é de todos que querem mudar para melhor o nosso País", diz.

O apelo continua: "Quero contar com todos que são à favor da democracia e dos direitos do povo. Seu apoio é muito importante".

A estratégia exibida na televisão tem sido a adotada pela campanha do petista. Na última semana, ele tem se descolado da imagem de Lula e procurado personalidades como o ex-presidente e ministro aposentado do STF Joaquim Barbosa e o empresário Josué Gomes para montar uma frente ampla em prol de sua candidatura.

Apesar dos esforços, apoios importantes para esta etapa ainda não foram conquistados, como o de Ciro Gomes (PDT), que ficou em terceiro no primeiro turno, e Marina Silva (Rede). Os dois não se posicionaram como oposição, mas também não ofereceram apoio explícito.

Com esses dois programas eleitorais, foi dada a largada de um ciclo que se encerrará no dia 26, dois dias antes de os brasileiros irem às urnas decidir o sucessor do presidente Michel Temer.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.