OPINIÃO
30/03/2018 08:49 -03 | Atualizado 30/03/2018 08:49 -03

Gostando ou não: Seus dados são fruta madura pendendo da árvore

"Dados são o combustível do poder à maquina de marketing atual e os seus dados são fruta madura ao alcance dos marqueteiros."

Nos últimos dias as ações do Facebook tiveram queda de US$ 42 no valor.
Stephen Lam / Reuters
Nos últimos dias as ações do Facebook tiveram queda de US$ 42 no valor.

A tempestade que assolou o Facebook e o uso supostamente não autorizado de dados sobre 50 milhões de membros da sua comunidade digital pela empresa britânica Cambridge Anaytica não são nada surpreendentes. O fato que esses dados, extraídos de arquivos do Facebook, tenham sido usados para apoiar a campanha eleitoral de Donald Trump só vem aumentar o dilúvio.

Em última análise, a questão da privacidade dos dados compartilhados com seus amigos digitais alcançou, ainda que tardiamente, as manchetes. A queda vertiginosa de US$ 42 no valor das ações do Facebook reportada no últimos dias certamente assinala que a questão dos dados compartilhados é séria e grita por uma resolução e que os investidores estão ficando nervosos.

Vamos começar com um aviso prévio. Meu ganha-pão, por mais anos do que eu gostaria de admitir, tem sido encontrar maneiras criativas de vender coisas diretamente ao consumidor usando toda sorte de dados para identificar e atingir os candidatos mais prováveis. Se, por exemplo, eu e os meus colegas pudêssemos identificar famílias em via de mudar de residência, as chances de que conseguíssemos vender para eles uma série de coisas das quais vão precisar ou querer para a casa nova seriam grandes.

O problema sempre foi saber quem tinha esses dados e se as informações poderiam ser usadas para marketing.

Quando eu comecei nesse business, não se falava de "dados": tínhamos um monte de listas de endereços (cadastros)) que haviam sido coletadas de pessoas que pediram um produto para entrega, alugaram uma TV ou tornaram-se membros de alguma organização. Eu me lembro como fiquei orgulhoso quando consegui a lista de ex-alunos da faculdade. O retorno de uma vitoriosa campanha de mailing foi absolutamente nulo. A única resposta veio de um cavalheiro pedindo que não enviássemos mais emails.

O que naquela época era uma industria pouco sofisticada de pessoas fazendo compras pelo correio evoluiu, com o uso de computadores e da tecnologia de dados avançada, para tornar-se um componente altamente (excessivamente, segundo alguns) sofisticado da industria de comunicação. O vendedor quer saber tudo o que for possível sobre cada pessoa, não apenas os óbvios dados demográficos, mas os importantíssimos dados psicográficos, os gatilhos emocionais que influenciam o impulso de comprar, muitas vezes inconscientemente. O vendedor quer revirar a web à procura dos dados mais recentes. O total dos gastos em media digital cresceu de US$ 16,9 e 6% em investimento total em media em 2007 para US$ 83 e 36,7% em investimento total em media em 2016, segundo o "eMarketer".

O recém demitido CEO da Cambridge Analytical se vangloriou de "ter conseguido analisar e influenciar o eleitorado utilizando algoritmos psicográficos derivados desses dados", escreveu The New Yorker. Depois da eleição de Trump, Alexander Nix, o cabeça da Cambridge Analytica, cantou vitória, afirmando que os algoritmos psicográficos da empresa tinham ganho as eleições. Seu expert chefe técnico declarou: "Nós sabíamos a qual tipo de mensagem você seria susceptível, aonde você a receberia e quantas vezes nós teríamos que atigí-lo par que você mudasse seu modo de pensar sobre algo."

"Qual é a moeda mundial de hoje?" foi cotado um consultor líder no The New Yorker. "Não é ouro,são dados. É informação. " Coletar e usar dados tornou-se uma parte essencial do marketing business. Orwelliano ou não, isso tornou-se realidade.

A Netflix sabe de quais filmes você gosta, assim como quanto a Amazon registra cada compra que você faz e cada item que você pesquisa. Suas viagens, sua escolha de roupas, seus restaurantes prediletos, a frequência das suas visitas, os amigos com os quais você conversa e compartilha fotos, está tudo lá na web. Enquanto muitas empresas prometem privacidade, poucas dão garantias. Se a Equifax ou mesmo o governo Americano podem ser hackeados e os dados roubados, confiar que seus dados estejam a salvo pode ser mais otimismo do que realismo.

Você e a disponibilidade de seus dados são uma simples troca.

Se você não quiser que a Netflix passe os filmes que você quer ver na hora que você escolher (e até sugira outros filmes par você baseado naqueles que você assistiu) nada te obriga a ser um assinante. Se você não quiser que as suas compras da semana ou mesmo o saco de 30kg da ração do seu cachorro sejam entregues na sua casa, não tem problema.

A escolha é sua.

Mas lembre-se: quando optar pela conveniência dos benefícios digitais, você esta fornecendo dados pessoais. Alguma base de dados lá for a vai ficar sabendo que você tem um cachorro, que tipo de comida você consome (e estimar apuradamente o tamanho da sua família), de quantos e de quais filmes você gosta e por aí afora. E não tem como você recuperar esses dados.

Temos a tendência de não pensar sobre isso quando preenchemos um cadastro ou fazemos um pedido. E, até que a gente se acostume, não consegue entender com o vendedor de quem compramos alguma coisa recentemente sabe fazer pipocar anúncios para produtos similares na nossa tela enquanto abrimos nossos emails

Lembre-se: dados são o combustível do poder à maquina de marketing atual e os seus dados são fruta madura ao alcance dos marqueteiros.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.