OPINIÃO
01/12/2014 09:42 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Todo dia ela faz quase tudo sempre igual

Toca o sino do smartphone, bem pertinho do ouvido não tão esperto assim. Não dou chance pro soneca. Abro Whatsapp, abro e-mail, abro Facebook, abro Instagram, abro Twitter. Abro o olho. Necessariamente nessa ordem.

Thomas Pullicino via Getty Images

Toca o sino do smartphone, bem pertinho do ouvido não tão esperto assim. Não dou chance pro soneca. Abro Whatsapp, abro e-mail, abro Facebook, abro Instagram, abro Twitter. Abro o olho. Necessariamente nessa ordem.

Dou uma alongadinha nas costas com 12° de escoliose, respiro fundo porque falaram que é bom. Sento na cama que me abraçou por (poucas) horas. Resfrio o rosto, tento encontrá-lo no espelho. Nítido é que não está.

Ligo a TV, mais escuto do que vejo. Corto fruta e ela chama a aveia e a linhaça. Leite com café pouca coisa mais quente que a temperatura lar, o meu ambiente. Agora sim vejo e escuto a TV - tevi, teouvi, tepensei.

Preparo os quitutes das 3 em 3 horas. Lá se vão maça, soja e iogurte. Se tudo der certo, o dia vai ser longo. Escovo os dentes na operação ¼ da journée.

Volto pra telinha touch-screen. Quem sabe já não adianto qualquer coisa? Qualquer coisa. Mesmo. Continuo a escutar a outra telinha - aquela nada sensível. E, mais: controle remoto insensível. Tô na espera de respostas - gosto mesmo quando vem com emoji, o novo idioma universal.

Mãe, não é que eu esteja "viciada nesse celular - já tá demais, né, menina?". Pensando bem... Não é só smartphone. Já foi o Tetris, o Pacman, o bichinho virtual, já foi Cilada. Já foi e ainda é um livro. E revistas. Muitas delas.

Lembrando aqui, sempre teve sudoku em sala de aula. E mais livros, em festas inclusive. Já foram desenhos palitinho. E mais frequentemente as rasuras com caligrafias variadas que inventei. No fim das contas, sempre gostei dessa história de me ausentar em ambiente coletivo. Não me leve a mal. É que agora tem smartphone.

Mamãe, sua timeline é um tanto diferente da minha. Aprendi a moldá-la, assim como as demais redes sociais. Te expliquei alguma coisa quando fiz o Instagram que você pediu. Sei que alguma face desconhecida faz uma espécie de seleção (sobre)natural. Mas faço minha parte. Você deveria moldar sua linha do tempo também. Estou feliz com a minha. Por lá acho de tudo, e isso é bom. Tem até Tetris.

Smartphone, no metrô tem de monte. Claro. Como usuária do transporte público, tiro, no mínimo, uma crônica por dia. Ou do acento disputado, ou da conveniência em surfar nas molas da linha amarela. Mas hoje, mãe, algo tragicômico aconteceu. Minha bateria acabou no meio do caminho. No meio do caminho não tinha uma bateria. E eu virei minha própria crônica!

Para fugir do trânsito humanal, sigo minhas militáticas. Um robô: vagão certo, escada certa, hora certa para aquela ultrapassagem. Ângulo de cada curva calculado. Só falta a aceleração em cada diferente atrito. Se fosse sonâmbula, não teria dificuldade. Fico confusa quando encontro um conhecido. É como dirigir em SP: há de se fazer combinações da faixa mais fluida com o horário do dia. Faço o mesmo trajeto, mas coleciono rotas mentais alternativas. Que mané Waze. Seja o que sejá.

Confesso que conto degraus, não piso nas divisões do piso e pulo o gap. Mas deixo a esquerda livre. Tem gente que prefere dar liberdade à direita. E mais gente ainda que não considera escada rolante passagem. É no metrô que descubro os jogos de celular que estão na moda. Lembro-me de quando finalmente avistei o Candy Crush no aparelho alheio.

A hora do rush acontece na próxima esquina e debaixo do solo. É por isso que tenho tanto apreço nessas horas pelo celular. Mãe, a essa altura daria tudo por umas palavras cruzadas. Cadê a bateria no meio do caminho?

Escuto: "Não fique na região das portas se não desembarcar na próxima estação". E o faço. Fi-lo porque qui-lo. Hoje eu tenho um sonho: chegar na Paraíso.

Isto nem de longe é um poema, é só pra ficar mais fácil de ler. Apenas quis conversar um pouco com você, mãe. Poderia te mandar um áudio no Whatsapp. Mas hoje resolvi fazer uma carta, juro, com lápis e papel, enquanto assisto à última aula...

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