OPINIÃO
22/04/2014 13:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

O jornalista dinamarquês que desistiu da Copa veio da cidade mais feliz do mundo

Depois de passar cinco dias lá, pensei que, realmente, países felizes não são todos iguais. O maior argumento para isso talvez seja o Brasil. Não dizem por aí que somos um país feliz?

Xavier Arnau via Getty Images

Esta semana, o depoimento em português do jornalista dinamarquês que desistiu de cobrir a Copa desencadeou milhares de compartilhamentos no Facebook. Em pouco tempo, Mikkel Keldorf Jensen recebeu tanto condenações quanto aplausos. De um lado, o criticavam por ter desistido, como jornalista que é, de investigar a fundo a denúncia que ele mesmo fez sobre o desaparecimento de crianças em Fortaleza, uma "limpeza" na cidade só para "gringo ver". De outro, o elogiavam por ter escolhido não ser cúmplice de um evento que esconde fraudes e, ao que parece, crimes.

A polêmica a menos de dois meses do mundial levou à procura de um esclarecimento sobre o caso. Ontem, a jornalista Gabriela Loureiro publicou a entrevista que fez com Jensen. Gabriela descobriu, enquanto investigava quem ele era, que contribuía frequentemente para o site Pladepressen, "uma revista eletrônica que fala sobre o cenário musical da segunda maior cidade da Dinamarca, Aarhos", onde o jornalista nasceu. Em janeiro deste ano, visitei a cidade, pouco tempo depois de ter sido eleita a "cidade mais feliz do mundo", de acordo com o ranking do World Happiness Report (ou Relatório Mundial de Felicidade), uma pesquisa realizada anualmente pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Se o que Jensen contou no recente depoimento chocou muitos brasileiros, imagino que tenha sido ainda mais impactante para quem nasceu em uma cidade como Aarhus. Não é a primeira vez que países escandinavos ficam entre os lugares com maior qualidade de vida do mundo. Nem que a Dinamarca é notícia por causa da segurança e educação exemplares.

O que me chamou atenção em toda essa história foi a curiosidade do dinamarquês em conferir de perto os desdobramentos da Copa, seu custo social, o andamento das obras, o povo brasileiro - para depois atingir um alto nível de frustração e desapontamento. Ele teve curiosidade em conhecer o país do futebol, até estudou português para isso, enquanto eu tive a curiosidade em conhecer a cidade mais feliz do mundo - e por que, afinal, a ONU lhe concedeu este título.

O último ranking Happiness Report, justamente o que premiou a cidade natal de Jensen em setembro de 2013, media o bem-estar dos habitantes em mais de 150 países, com base em seis fatores-chave: PIB per capita, expectativa de vida saudável, ter alguém com quem contar, liberdade para fazer escolhas de vida, a liberdade de corrupção e generosidade. Funciona de maneira similar a um Índice de Desenvolvimento Humano, que atribui notas de zero a um para determinados critérios, mas usando dez como pontuação máxima. De acordo com a matéria que li na BBC.com, o relatório concluiu que as pessoas mais felizes ganham mais, são mais produtivos e são melhores cidadãos.

Aarhus (ou Århus, lê-se "órrus") tem aproximadamente 300 mil habitantes e fica a cerca de 150 km a oeste da capital do país, Copenhague. Apesar de ter um litoral com praias não tão atrativas, tem um belo porto, indústrias importantes, uma das universidades mais respeitadas da Europa e uma atividade cultural intensa, a exemplo de um dos museus de arte contemporânea mais legais que já visitei, o ARoS, coroado com uma passarela-circunferência com todas as cores em degradê.

A matéria da BBC começava assim: "se, como Tolstoi escreveu em Anna Karenina, as famílias felizes são todas iguais, o que dizer de países felizes?". Depois de passar cinco dias lá, pensei que, realmente, países felizes não são todos iguais. O maior argumento para isso talvez seja o Brasil. Não dizem por aí que somos um país feliz? Pode ser que seja um dos países com mais gente feliz do mundo, sim, mas com certeza tem níveis de educação, segurança e saúde diferentes daqueles países que costumam aparecer no Relatório da ONU.

Perguntei a um amigo que mora lá qual seria para ele o principal fator que fazia da Dinamarca, nota 7.693, o país mais feliz do mundo. Ele me disse "temos defeitos, mas talvez seja nossa confiança - nas pessoas, no futuro, no sistema de saúde, na pontualidade do ônibus que te leva ao trabalho. Quase uma certeza de que seus planos darão certo, que seu dia vai acabar bem". A lógica é: viver em uma cidade como esta, com boas mostras de bem-estar da população, diminui consideravelmente seu nível de preocupação diária, e isso te faz uma pessoa mais feliz.

Mikkel Jensen teve suas razões para escolher não ficar para a Copa do Mundo. Na entrevista ao Brasil Post, disse "como jornalista, é o que eu deveria fazer. Mas muitas pessoas me disseram que eu estaria arriscando minha própria vida. Falar disso no Brasil também seria muito perigoso para mim". E nós temos razões para esperar pelo final dessa história, o tal documentário que ele diz estar finalizando, de longe, lá na Dinamarca.