OPINIÃO
24/05/2014 09:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Seis coisas que você nunca soube sobre <em>Mad Men</em>

Reprodução

O começo do fim de Mad Men, uma das séries mais celebradas e premiadas dos últimos anos, se aproxima. E merece um brinde, de preferência com o bom e velho Old Fashioned, drink tão visto nas mãos do protagonista Don Draper (Jon Hamm). Será neste domingo, 25, a exibição do último capítulo da primeira parte da temporada final. Ao que parece, a expectativa dos fãs do mundo inteiro aumenta na mesma proporção que a saudade precoce dos personagens.

Mas, sem pressa demais, Mad Men só termina mesmo em 2015, quando irá ao ar a segunda metade da sétima e última temporada, com os sete capítulos apocalípticos. Ultimamente, a estratégia de dividir a última temporada tem funcionado muito bem, a exemplo do sucesso de Breaking Bad, que dobrou a audiência na estreia da segunda parte. Para o criador da série, Matthew Weiner, essa divisão faz com que a história fique por mais tempo na cabeça das pessoas. Não se preocupe, diriam os fãs a Weiner, tudo indica que Mad Men ficará por muito tempo na lembrança do público.

Para promover a sétima temporada, o renomado publicitário americano Milton Glaser, criador do famoso logotipo "I (coração) NY", foi convidado a criar um novo visual à série. Não fosse pela mesma silhueta de sempre, o quadro seria quase todo diferente, agora com fundo psicodélico e tema musical de ninguém menos que David Bowie, com seu The man who sold the world - O homem que vendeu o mundo. O teaser lançado em abril com a composição de Glaser está em destaque na página oficial de Mad Men no Facebook, enquanto os pôsteres são vistos em outdoors e ônibus espalhados pelo território americano.

Exatamente por isso que proponho a análise de um dos pontos mais característicos da série: sua abertura - clássica, instigante, misteriosa, marcante. Vê-la agora é uma experiência totalmente diferente da época de estreia da primeira temporada, em 2007. Parece este o momento ideal para destrinchar suas particularidades, já que a história está num estágio avançado.

Ao assistir à apresentação de 36 segundos, temos a impressão de já ter visto cenas parecidas em outros filmes, mas a maioria dos detalhes passa despercebida. Há referências cinematográficas e estéticas de diferentes épocas, como os filmes de Alfred Hitchcock, 007, Matrix e até as fotografias do russo Alexander Rodchenko. Tudo indica que, assim como suas próprias inspirações, também será referência para outras produções no futuro. Não à toa, a série ganhou em 2008 o prêmio de Primetime Emmy Award For Outstanding Main Title Design - Melhor design de abertura.

São nas referências da abertura que vou me concentrar, não no conteúdo da série em si. Contei com a ajuda de diversas publicações sobre o tema e, em especial, com o trabalho "Mad Men: El hombre que cae", do espanhol Iván Bort Guale.

1 - A silhueta engravatada

Nos primeiros segundos, nosso campo de visão é o escritório de Don Draper, o publicitário protagonista da série, representado por uma silhueta que, apesar de usar terno e gravata, não tem olhar nem expressões faciais. Logo em seguida, são focalizados detalhes como o sapato e a mala de Draper. Conforme a câmera avança na sala lentamente, aumenta a sensação de intimidade do espectador. Aliás, o ritmo da câmera também remete ao ritmo de narrativa da série: é lento e silencioso, porém intenso.

O ambiente misterioso lembra levemente outra atmosfera, a do filme Matrix (1999). O protagonista Neo aparece algumas vezes cercado de um branco infinito, que nos dá a mesma sensação plástica de caída no vazio. Não há um lugar, nem efeito de realidade. Este vácuo poderia ser, então, qualquer tempo e espaço. O contexto não fica claro ao espectador - resta, então, o mistério.

2014-04-11-Matrix.jpg

O mais importante é notar que se trata da maior metáfora da série. Don Draper é um homem rodeado de enigmas, sombras, aparências e mentiras. Mas é também o reflexo de uma classe social no contexto dos anos 60 dos Estados Unidos, um mundo de consumo, publicidade, prazeres, ilusões e provocações - the american way of life. O homem caindo é ainda o reflexo do nosso mundo pós o 11 de Setembro. Sendo assim, a forma em sombra poderia representar um típico cidadão do século 21, ainda que caia perfeitamente no personagem de Draper.

2 - A queda

O momento da queda é muito especial. Além de Matrix, há ainda duas grandes referências visuais. A primeira são os créditos de abertura de 007 Cassino Royale (2006), em que duas silhuetas, uma delas usando terno, exatamente como DD, brigam até que uma cai no vazio. A perspectiva da câmera, que acompanha tudo do alto, até o personagem atingir o chão, é o mesmo utilizado em Mad Men.

A segunda é a maior referência de todas: o filme Vertigo (1958; no Brasil, Um Corpo que Cai). Weiner, o próprio criador da série, já havia dito que Hitchcock é a maior influência do estilo visual de Mad Men. E sua expressão máxima fica justamente a cargo deste que é um dos filmes mais famosos de todos os tempos. Na cena em que o protagonista John Scottie Ferguson (o ator James Stewart) tem um pesadelo, imaginando estar em queda livre, a câmera se coloca de frente, focalizando o rosto sem corpo rodeado de um vácuo com linhas verticais e, depois, ela se posiciona no alto, mostrando uma silhueta que se afasta cada vez mais da câmera até atingir o chão - e lá temos novamente um branco completo.

A capa do DVD Mad Men também faz referência à capa do filme Vertigo. Em ambas, vemos um corpo em preto e branco ao centro, rodeado de aspirais, sugerindo a atração pela queda. O aspecto visual de cores e formas também nos lembra a capa do DVD do álbum Vertigo (2004) da banda U2, não por acaso com este nome.

2014-04-11-DVDs.JPG

3- Publicidades reais

Tanto na série quanto na abertura, a publicidade tem um papel fundamental. Atrás e ao lado do corpo que cai, aparecem vários cartazes publicitários nas fachadas dos arranha-céus que são, na verdade, publicidades originais da época.

Vemos que a mulher está em evidência em grande parte delas. Um dos momentos mais significativos é quando uma moça, que está prestes a se depilar, levanta a perna, dando a impressão, numa coreografia bem articulada, que está chutando o homem em queda. Essa imagem antecipa o tema da emancipação progressiva da figura feminina na década de 60: a mulher que até agora estava confinada numa posição inferior ao do homem começa a se fazer entender. Outro movimento coreografado é a caída do homem, de costas, dentro de um copo de bebida, literalmente mergulhando no álcool - algo que, de fato, aparece constantemente acompanhando os muitos cigarros da série.

Outros exemplos de propaganda são: a do whisky bourbon Old Tyler 86, publicado na revista Time, em 5 de março de 1963; a da água mineral gasosa White Rock, publicado na revista Life, em 18 de junho de 1950; e um da marca de isqueiros Zippo, publicado também na Life, em 29 de novembro de 1948. São majoritariamente produtos femininos, bebidas alcoólicas, automóveis e tabaco. Tudo remete ao sonho americano: ter uma família feliz, um bom trabalho, dinheiro, boa reputação e assim por diante. O anúncio do whisky por exemplo, diz "Enjoy the best America has to offer" - Aproveite o melhor que a América tem a oferecer. Acima de uma propaganda de aliança, lê-se "It's the gift that never fails" - O presente que nunca falha - uma cutucada à instituição do casamento. Trata-se de uma montagem harmônica, pois o slogan pertencia, na verdade, ao isqueiro Zippo.

2014-04-11-Propagandas.JPG

Há, portanto, um paradoxo entre o homem que tem a vida aparentemente ideal, mas está em decadência, e a vida americana que todos sonhariam viver. Através da ironia, questiona-se esse ideal, e aí notamos que algo está prestes de mudar...

4- O enquadramento final

Durante a queda, observamos que o corpo não só cai, como se desarticula. A impressão é que este homem de prestígio perdeu sua estabilidade e nada mais lhe resta para se segurar. No "auge" do tombo, a câmera chega tão próxima dele, que é capaz de se transformar em outra cena apenas com o uso de um fundo preto, que se fecha e abre novamente. Ao abrir, revela-se parte do terno de um Don Draper em situação completamente diferente: ao invés de se espatifar no chão, o protagonista aparece em posição relaxada, sentado de costas em um sofá, com o braço apoiado na parte superior e cigarro na mão. Será este um símbolo de aparente controle da vida pessoal e profissional? A questão é: se ele não é um homem confiante, parece ser - e isso é tudo o que importa no mundo dos "homens loucos".

2014-04-11-DonDraper.jpg

Esse enquadramento, que se tornou um símbolo da série, pode ser entendido como uma referência às primeiras cenas do filme Notorius (1946; no Brasil, Interlúdio), de Hitchcock: é o mesmo ângulo e posicionamento que observamos o personagem de Cary Grant, outro personagem engravatado. Esta imagem final é aquela que anuncia que ele tem a habilidade de superar a queda vertiginosa e que, talvez, estivesse pronto para enfrentar uma nova fase.

5- Linhas, sombras e cores

Outro elemento a nos chamar atenção são as cores vermelho, preto e branco. Isto é, antes do toque psicodélico da sétima temporada. A começar pelo logo da série: letras grossas sempre vermelhas para "MAD", e branco ou preto para "MEN", que se alternam conforme a cor do fundo. Aliás Mad Men também se refere à famosa Madison Avenue, em Nova York, onde se passa a série. Esta combinação de cores é típica do movimento construtivista russo, muito conhecido pelas montagens do fotógrafo Alexander Rodchenko. Tal referência é reforçada pelas três imagens ligeiramente construtivistas na parede do escritório de Don Draper, mostradas nos primeiros segundos, antes dos mesmos objetos começarem a cair.

Conforme o personagem cai, outras cores aparecem nos vitrais do arranha-céus, mas elas têm tons claros, transparentes, enquanto o vermelho quase sempre se mantém consistente. É a cor do dinamismo, da estimulação, sensualidade e agressividade. São temas fazem parte do universo de toda a série: mulheres e sexualidade, dinamismo e publicidade, rivalidade e agressividade.

2014-04-11-Rodchenko.JPG

Como já dito anteriormente, o estilo hitchcockiano é bastante presente. Outro filme a contribuir é North by Northwest (1959; mesmo título no Brasil), através dos desenhos de Saul Bass para os créditos iniciais. Há muitas linhas verticais, que se apoiam também sobre um arranha-céu. Assim como na abertura de Mad Men, os vitrais são um painel para imagens. Além disso, o posicionamento da câmera deste filme de Hitchcock, do alto do prédio, focalizando a rua de cima, e depois, seguido pelo movimento da rua a partir da porta do edifício, é o mesmo utilizado no primeiro capítulo da série.

6- Música-tema

A canção por trás da abertura é um trecho da composição instrumental A beautiful Mine, de Ramble John, conhecido pelo nome de RJD2. Sua marca é misturar ritmos atuais com outros próprios dos anos 60, 70 e 80.

Em Mad Men, essa mistura reatualiza a série, dando certos aspectos da nossa época. O ritmo é convidativo e a acentuação crescente dá expectativa, conserva a tensão. Quando chega o momento da queda, a melodia acelera, o espaçamento diminui. Já nos últimos segundos, a canção parece acompanhar Don Draper, que retoma ao controle, e também dá a sua volta por cima. A música parece exprimir os movimentos de um sonho agitado - oras calmo, oras brusco. É como se Don Draper estivesse preso num pesadelo que ele mesmo havia criado para depois destruí-lo.