OPINIÃO
12/06/2014 09:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Dançando na Copa

Os ensaios começaram em abril, aos final de semana, de três a quatro horas por dia. O sigilo era tanto que todos eram revistados para não entrar com celular.

Fifa/Divulgação

Duas grandes amigas bailarinas dançarão na cerimônia de abertura da Copa do Mundo da Fifa, que está marcada para às 15h15 desta quinta, 12 de junho, pouco antes do primeiríssimo jogo, Brasil e Croácia. O show que chamará atenção do planeta para o país conta com quase 600 voluntários, entre bailarinos, ginastas, pernas-de-pau, capoeiristas e vários outros habilidosos. Com tempo total de aproximadamente 25 minutos, os organizadores calculam uma preparação artística de 20 horas para cada minuto percorrido na versão oficial.

Ainda que tenha ficado surpresa com a coincidência e, logo em seguida, animada em saber que haviam sido convidadas para participar de algo tão grandioso e significativo para a carreira, num terceiro momento, o que comecei a fazer foi lembrar dos nossos antigos espetáculos de final de ano e compará-los com apresentações em eventos desse porte.

A começar pelo local. Um é teatro, tem palco, teto acústico, pé-direito relativamente baixo, cadeiras majoritariamente estofadas, público próximo e marcações num chão plano (e meio grudendo, cheio de Xs). O outro, estádio, tem grama, céu aberto, arquibancadas, cadeiras...de estádio, público distante e marcações numa lona (maleável e cheia de furinhos, colocada sobre uma grama minuciosamente cuidada e recuidada para não ser danificada pelos mais variados aparelhos e apetrechos). Interessante a diferença, não é?

Conversando com a Mima de Freitas e a Gabriela Carvalho, que juntas têm quase 40 anos de dança, as diferenças foram ficando cada vez mais divertidas. "Todos ganham ponto!", disse Gabi, sobre os pequenos aparelhos de escuta que recebem nos ensaios, para ouvir, sem distorção, tanto as músicas da coreografia quanto as ordens de um pessoal que já foi responsável por nada menos que aberturas de Olimpíadas.

Para Mima, o que mais chamou a atenção no primeiro ensaio geral (coordenado no Itaquerão, no último domingo, dia 8 de junho), foi na verdade um trio: cameraman, repórter e helicóptero. "Chiquérrimo, né?", brincou. Tirando a maravilha das imagens aéreas captadas pelo helicóptero, a parte intimidadora da história são as câmeras, aos montes, mesmo que Mima conheça os palcos quase há tanto tempo quanto sabe andar sozinha. "A grandiosidade do espaço e da capacidade das arquibancadas assusta, e por mais que a emoção role solta no momento teremos que manter o foco em nossa concentração. Qualquer deslize - olhadinha nas arquibancadas, nos telões, nas 34 câmeras, nos vários repórteres - pode colocar tudo a perder", contou. Serão 61 mil pessoas na Arena Corinthians e talvez bilhões pela telinha, ou telão.

Os ensaios começaram em abril, aos final de semana, de três a quatro horas por dia. O sigilo era tanto que todos eram revistados para não entrar com celular. Depois de dois ensaios gerais, o segundo a dois dias da Copa, restará apenas uma chance de sentir o frio na barriga e transbordar de energia. "Todos os produtores estavam de ótimo humor e o clima foi bem leve e organizado", disse Gabi.

Já a coreografia, que ficou a cargo da diretora artística belga Daphne Cornez, residente no Brasil desde outubro, foi pensada em três atos: Natureza - maravilhas minerais e vegetais, Pessoas - alegria de viver, diversidade e paixão pela música e pela dança e Futebol - uma verdadeira arte brasileira. "É mais fácil para a gente pegar a sequência porque são passos mais simples, tem muita gente junta e nem todos fazem aulas de dança", disse Mima.

Tal montagem dos passos e personagens, de estilo contemporâneo, planejada a partir de viagens da equipe pelo país, estudos, danças típicas e impressões subjetivas, destoa dos clássicos balés de repertório. Apesar de também serem dividos em atos, Lago dos Cisnes, Dom Quixote, Quebra Nozes, A Bela Adormecida, Coppélia, e tantos outros, são bastante técnicos, emoldurados, românticos e dramáticos. E contam essencialmente uma história do começo ao fim.

O grand finale da abertura da Copa, muito diferente do que acontece em balés de repertório, terá um grandioso show dos artistas Pitbul e Claudia Leitte, dupla que irá apresentar o hit oficial da Copa, "We are one", ao lado do batuque do Olodum.

No entanto, há de se notar um aspecto comum em ambos os espetáculos: a ansiedade. Em dia de dança, bagunça e correria são normais. Uma mão lava a outra e assim as maquiagens são produzidas quase em série: base, cílios postiços, coque, gel, fita, batom vermelhão - próxima, quem está faltando? Os bastidores se equivalem porque não há regra de quem ajuda quem. A melhor maneira de se organizar é simplesmente a que acabou funcionando.

Gabi é certeira quanto à produção: "são 15 maquiadores, que se dividem em grupos e maquiam todo mundo. Tem várias pessoas no camarim nos ajudando, acho que são as próprias pessoas que fizeram as roupas". As fantasias são bufantes, maiores e mais vistosas do que os delicados tutus dos pequenos palcos. A maquiagem no rosto será azul, verde, rosa e qualquer outra cor junto de muito brilho. São 15 costureiras, 120 mil metros de tecido, 50 mil metros de linhas, outras 50 mil pedrarias e cristais, 300 metros de zíper e 606 adereços. O que conta é o mis en scène.

Na Copa, terá uma equipe extra de bailarinos. "Os substitutos estavam no ensaio geral também. Acompanham tudo mas não colocam figurino nem maquiagem", lembrou.

A trilha sonora foi composta especialmente para a Copa. "É linda, tanto pela voz quanto pelos instrumentos", disse Mima. Jogo de cintura tem que ter, seja batuque ou Tchaikovsky.

Agora, a pouco tempo do agora-ou-nunca, Gabi anda acelerada: "Os ensaios que estamos acostumadas duram o ano inteiro e são dois dias de apresentação. Para a Copa nos preparamos bem menos e é uma vez só. Não tem aquela história de 'ah, como ontem não deu certo, hoje faremos de outra forma'".

Do palco para o estádio, é tudo elevado à n-ésima potência. Só vamos descobrir o valor do "n" daqui a algumas horas. O n de cada um será único. O que você espera da abertura da Copa?

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