OPINIÃO
08/07/2015 19:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02

E se tratássemos os sem-teto como amigos em potencial?

Nos últimos seis meses, passei mais tempo com um ex-sem-teto de 61 anos que com muitos dos meus amigos e familiares. O nome dele é Carlos Daniels, e ele passou 20 anos morando em estações de metrô de Nova York. Conforme nossa amizade foi se desenvolvendo, me perguntei o que aconteceria se encarássemos os sem-teto como encaramos qualquer novo relacionamento: abertos a conhecer a outra pessoa. A história de Carlos me ajudou a confrontar certas pré-concepções e a começar a entender uma das populações mais vulneráveis do país.

Nos últimos seis meses, passei mais tempo com um ex-sem-teto de 61 anos que com muitos dos meus amigos e familiares. O nome dele é Carlos Daniels, e ele passou 20 anos morando em estações de metrô de Nova York. Conforme nossa amizade foi se desenvolvendo, me perguntei o que aconteceria se encarássemos os sem-teto como encaramos qualquer novo relacionamento: abertos a conhecer a outra pessoa. A história de Carlos me ajudou a confrontar certas pré-concepções e a começar a entender uma das populações mais vulneráveis do país.

Mas temos de enfrentar um medo residual: será que os outros vão descartar Carlos e outras pessoas como ele? Espero que não. Desmerecer pessoas, especialmente as pobres, deveria te mandar pro inferno. Falo em inferno porque muito da história de Carlos tem origens no mal. Conhecemos muitas dessas forças destruidoras - desigualdade, vício e ódio, só para falar de algumas --, mas não damos a importância devida ao poder delas. À distância, costumamos culpar as vítimas. E o que é mais devastador é que essa acusação coletiva pode ser internalizada como verdade pelos afligidos.

Carlos saiu das ruas há três anos. Quando fala do passado, ele diz que passou boa parte da sua vida correndo atrás de um barato que não existe. O barato? A falsa euforia oferecida pelo cachimbo de crack, um barato que ele perseguiu diariamente de 1989 a 2012. Usar drogas foi uma escolha? Sim. Mas sua experiência de vida contribuiu para essa escolha? Sem dúvida.

Apesar de estar no lugar em que Carlos - sem-teto e viciado, dormindo em pedaços de papelão na estação da rua 168, em Manhattan -- passou os últimos cinco anos, não consigo enxergar muito. Não estava lá 50 anos atrás, quando sua avó lhe contou que sua casa foi queimada por brancos, no sul do Alabama, depois de seu avô ser enforcado por se rebelar contra o sistema. Só consigo imaginar: e se os opressores do avô de Carlos pudessem enxergar duas gerações no futuro e considerar o que aconteceria com o neto de sua vítima?

Alguém olhando de fora poderia achar que uma certa trajetória de vida faz sentido dada a história de Carlos. Mas mesmo que os eventos da vida dele me encham de horror e fúria, eles não o detêm. Para Carlos, esses eventos são meros detalhes. Ainda assim, uma memória da infância em particular o persegue: quando um professor branco escreveu no diploma do ensino médio que Carlos passaria a vida como analfabeto. Carlos se formou no ensino médio em Brownsville, no Brooklyn, sem saber ler nem escrever. Ele gostaria de voltar no tempo para provar que os professores estavam errados quando disseram que ele não teria sucesso na vida. Insisto que ele pode, de certa maneira. Ele não tem tanta certeza.

Houve uma época da vida adulta em que Carlos não esteve nas ruas, nem envolvido com drogas. Ele foi preso por tráfico aos 16 anos e ficou na cadeia até os 24. Mas depois da prisão ele não estava usando drogas e tinha dois empregos: trabalhava como faxineiro na IBM e em uma estação de trem. Nesse período ele morava em Beacon, um bairro de negros em Nova York.

Ele também aprendeu a ler na prisão. "A cadeia não é uma experiência boa para muita gente, mas foi para mim. Tinha aulas particulares. Os professores da cadeia tinham mais tempo para me ensinar do que os da escola. Me pergunto teria parado na prisão se tivesse tido aulas particulares na escola."

Carlos não pensou em se envolver com drogas até a morte de sua mãe. A dor intensa do luto pode tirar qualquer vida dos trilhos, mas, para Carlos, perder a mulher que lhe deu à luz e o criou pareceu mais que o próprio luto. Nessa época, ele encontrou uma pessoa de quem tinha comprado crack no passado. Ela lhe disse que ele poderia ganhar de 50 a 70 dólares por dia reciclando latas e garrafas. Vender esses recipientes usados foi o ganha-pão de Carlos durante seus anos como sem-teto - cinco anos na estação da rua 191, dez anos na rua 181 e 5 anos na rua 168.

Mas foi só depois de saber do problema que ele tinha para conseguir sua certidão de nascimento que comecei a considerar as camadas por baixo do luto que levou Carlos às drogas. Na busca por uma moradia permanente, Carlos precisava da certidão de nascimento. A organização que administra sua casa atual o ajudou a encontrar o documento. Com mais de 60 anos, ele descobriu que nasceu na Virgínia, e não em Nova York, como sempre acreditou. Foi para a Virgínia que sua avó fugiu depois do assassinato de seu avô e do incêndio criminoso de sua casa. Foi na Virgínia que sua mãe conheceu o pai de Carlos, que só apareceu em sua vida de forma intermitente. Carlos não tem irmãos. A maior parte do tempo eram só ele e a mãe. Ela era tudo na vida dele. Mas ela nunca falou do tempo que passou na Virgínia. Carlos só sabia que a mãe era muito ressentida dos brancos, e ele tentava dissuadi-la dessa ideia. A ligação extremamente próxima com a mãe provavelmente explica porque a perda dela foi tão terrível; Carlos perdeu o que parecia ser a única pessoa de sua vida.

Como acabaram as duas décadas nas ruas? Em 2011, Carlos viu uma mulher muito perto dos trilhos, e a alertou para dar um passo para trás. Ela agradeceu, lhe trouxe comida e o convidou para ir à igreja. Ele começou a ir todas as semanas, conhecendo pessoas novas. Também passou a ver com outros olhos as pessoas que via na plataforma do metrô. "Estava conversando com gente que não se drogava. Elas iam para o trabalho e voltavam para casa. Lembrei da época em que eu fazia a mesma coisa."

"Decida o que você quer fazer da sua vida. E procure ajuda. Decida se você quer mudar sua vida. Isso não é para os outros. É para você".

Em 2012, exausto com a vida que levava, ele jogou fora o cachimbo de crack e decidiu parar com a droga para sempre. Carlos conseguiu moradia na região do Bowery, em um projeto que oferece alojamento para quem está saindo das ruas. É lá que ele vive há três anos. Quando questionado sobre que conselho daria a pessoas em situação parecida com a sua, Carlos diz: "Decida o que você quer fazer da sua vida. E procure ajuda. Decida se você quer mudar sua vida. Isso não é para os outros. É para você".

Agora, Carlos passa os dias lendo, rezando, participando de encontros comunitários na igreja e de programas sociais onde vive. Um deles é de escrita criativa. O sonho de Carlos é escrever um livro sobre sua vida. Ele diz que, quando foi à igreja pela primeira vez em 2011, só queria alguma coisa para comer e um lugar para passar tempo longe da estação. Quando voluntários de uma ONG ligada à minha igreja fizeram uma festa de fim de ano na região do Bowery em 2014, Carlos quis saber mais sobre a minha igreja. Ofereci um cookie, mas ele recusou, pois não come açúcar; na época eu estava tentando comer menos doces e disse que estava impressionada com a disciplina dele (em outras palavras: tinha inveja).

Evitei falar muito da igreja, pois não queria dar a impressão de que estava tentando convertê-lo. Mas as perguntas insistentes e a voz rouca dele me convenceram a convidá-lo a conhecer a igreja. Ele foi no domingo seguinte, vestindo uma camisa social vermelha. No começo ele disse que tinha ido por educação, mas depois me disse que iria todo domingo. Às vezes eu é que deixo de ir e, quando isso acontece, meu telefone toca e Carlos está do outro lado da linha:

"Não te vi na missa!"

"Te procurei na igreja. Cadê você?"

"O que? Você estava lá? Como não veio dizer um oi?"

Com Carlos na minha vida, não posso mais me esconder. Com ele cobrando minha responsabilidade, me sinto necessária e vista. Só espero que faça ele sentir o mesmo. Às vezes ser vista é um pouco desconfortável. Preferia que ele não notasse minha ausência, mas no fim das contas sou grata por ele me chamar a atenção. Por que achamos que nos esconder vai nos salvar? Ninguém é invisível e não devemos tratar uns aos outros como se fôssemos.

Para uma pessoa que às vezes se culpa, Carlos também demonstra muito orgulho por ter sobrevivido. Ele conta histórias de como conseguia restos de comida de restaurante e sempre dava um jeito de se limpar com sabão e um balde d'água. Ele me disse que é OK vivenciar a dignidade cuidando das suas necessidades mais humanas.

Antes de conhecer Carlos, eu separava muitos dos meus relacionamentos. Estava acostumada a colocar os amigos em diferentes categorias: amigos do trabalho, amigos da igreja, amigos da escola. Essas categorias, com suas características associadas, colocam muros entre as conexões. Carlos não fazia parte de nenhuma categoria específica. Durante um tempo isso me deixou confusa. Mas, quanto mais conversava com ele, menos preocupada ficava. Só queria conhecê-lo.

Agora acredito que a necessidade de ter amigos está acima de todas as outras coisas, e às vezes pode ser comparável à necessidade de abrigo e comida. Carlos diz que sua história ainda não tem fim. Ele ainda não tem certeza do que vai acontecer quando ele sair do abrigo em que mora hoje, mas espero que o Céu interceda a seu favor. Sabemos que as forças do bem podem mudar para melhor a trajetória de uma pessoa, coisas como educação de qualidade para todos e amor abundante entre as pessoas. Espero que ele tenha ambos. Enquanto isso, curto a harmonia entre nós. Quando se trata de interagir com pessoas de passados diferentes, Carlos está começando a ver as coisas de um jeito diferente, assim como eu. Ele diz: "Quanto mais converso com as pessoas mais entendo de onde elas vêm".

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.