OPINIÃO
14/05/2015 17:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Como criar cidades do futuro pulsantes e sustentáveis

As cidades de hoje não são sustentáveis, não importa como olhemos para elas. Em vez de contribuir com a longa lista de desafios para o desenvolvimento das cidades nas próximas décadas, eis um olhar otimista que pode se tornar realidade se conseguirmos transformar os desafios em oportunidades.

Sebo Zed/500px
...in the middle of the towers

SHENZEN - As cidades de hoje não são sustentáveis, não importa como olhemos para elas.

Para entender esses sistemas complexos e em constante evolução criados pelo homem, e para torná-los mais sustentáveis, precisamos de conhecimento e de vontade de mudar. Em vez de contribuir com a longa lista de desafios para o desenvolvimento das cidades nas próximas décadas, eis um olhar otimista que pode se tornar realidade se conseguirmos transformar os desafios em oportunidades.

Isso é importante: desde 2008 as cidades são o habitat da maioria da humanidade.

Sistemas pulsantes entre as cidades e o interior

As cidades do futuro serão pulsantes. Às vezes elas vão aumentar de densidade, e podem até mesmo encolher de tamanho com a chegada de moradores de áreas rurais, outras cidades e outros países, em busca das atrações especiais que as cidades oferecem em termos de empregos, cultura e educação. Outras vezes, a redução da densidade e novos tipos de empregos vão levar as pessoas para os seus arredores. Cada vez mais, cidades de alta densidade e uso misto serão cercadas por cidades de densidade menor e características particulares: cidades de montanha, cidades-jardim, cidades de água, cidades rurais e até mesmo cidades-floresta.

Mas todas elas estarão em rede por meio de sistemas de transporte de alta capacidade e alta velocidade.

Mais verdes e com custos sociais mais baixos

O efeito de ilha de calor que vai castigar as cidades tropicais nos anos futuros criará a necessidade de que elas se tornem mais verdes e mais limpas. Os custos sociais dos combustíveis fósseis em termos de emissão de gases causadores do efeito estufa, poluição do ar, barulho, calor e crescentes risco de saúde vão aumentar dramaticamente.

Portanto, vai fazer sentido econômico investir em energias renováveis. A eletricidade será a fonte energética predileta dentro das cidades: carros e ônibus elétricos, e resfriamento elétrico, resultado numa redução drástica da emissão de calor dos carros, menos necessidade de uso de ar-condicionado, ar mais puro, menos barulho e ambientes mais convidativos para quem quiser caminhar.

Mobilidade redefinida

A mobilidade está quase se tornando um direito humano: as pessoas querem se deslocar quando e para onde acharem necessário. A mobilidade amplia nosso conhecimento e nos ajuda a equilibrar as desigualdades.

A mobilidade pode se reinventar como a arte dos deslocamentos diários. Ela pode melhorar nossa saúde, pois não ficaremos mais horas sentados em carros que poluem o meio ambiente. A mobilidade pode ser limpa, usando carros elétricos ou de células de hidrogênio, que emitem apenas vapor.

A mobilidade verde pode renovar o vigor da vida nos subúrbios das grandes cidades. Essas regiões de baixa densidade serão agrupamentos de pequenas geradoras de energia, individuais e localizadas, que serão parte de uma rede inteligente e que armazenarão energia em combustíveis líquidos. A mobilidade limpa e confortável entre cidades de características especiais pode se tornar uma tendência importante na construção de uma vida mais saudável e recompensadora.

Design e estilo em vez de impostos e multas

A maioria das pessoas não gosta de impostos e multas. E se houvesse uma alternativa que desse prazer de fazer as coisas que são boas para nós e para as cidades, mesmo que elas pareçam custar um pouco mais à primeira vista? E se tivéssemos informações claras sobre o custo social de cada produto, que mostrasse que na maior parte das vezes o "barato" na verdade é muito caro e que o "caro" na verdade pode ser barato?

E se o design de eletrodomésticos e outros objetos de uso diário fosse tão bom a ponto de preferirmos pagar um pouco mais por um item durável do que pagar menos em um produto que é barato, mas malfeito? E se a cultura do desperdício e do consumo de produtos descartáveis saísse de moda e fosse substituída por uma cultura de produtos de alta qualidade e recicláveis? Isso pode ter impacto mais positivo que impostos e multas no que diz respeito à redução das emissões de dióxido de carbono e às ilhas urbanas de calor.

Cidades tropicais mais calmas e frescas

Especialmente nos trópicos, onde em algumas décadas vai viver a vasta maioria da população mundial, será crucial eliminar o efeito de ilha urbana de calor, para melhorar a qualidade de vida nas cidades.

É essencial que essas cidades se tornem mais frescas e mais calmas. Frescas, porque isso reduz a necessidade de ar-condicionado e o consequente desperdício de energia e poluição do ar; calmas, porque isso melhora a qualidade de vida da população e reduz os problemas de saúde relacionados ao barulho.

Alta densidade = alta inovação

Cidades são empolgantes e atraentes. Mas, como sabemos graças a pesquisas do Instituto Santa Fe, desde a antiguidade a atratividade das cidades está relacionada a seu tamanho: dobrar o tamanho da cidade mais que dobra sua atratividade em termos de cultura, ciência e economia. Cidades com densidade de 5mil habitantes por quilômetro quadrado, ou até mesmo até 10 mil, têm ótimos sistemas de comunicação, concorrência e cooperação e, portanto, são muito atraentes, especialmente para os jovens. Isso leva a novas descobertas em curtos espaços de tempo e é essencial para a inovação.

Cidades menores

Daqui dez anos, a maioria da população urbana do mundo ainda não vai estar morando em megacidades. Apesar de haver um ligeiro aumento na porcentagem da população que vive nesses grandes centros, a grande maioria das cidades existentes e futuras terão entre 100 000 e 500 000 habitantes, ou menos.

Esses tamanhos são suficientes para criar ambientes de alta densidade e alta intensidade, sem os efeitos colaterais negativos da megacidades: crescimento incontrolável, congestionamentos, altos índices de desigualdade, e problemas de poluição e de qualidade da água. As cidades menores, com ruas principais facilmente identificáveis - pense na Bahnhofstrasse, em Zurique, ou na Orchard Road, em Singapura - vão ser cada vez mais atraentes.

Desperdício inexistente

Com esperança, daqui dez anos desperdício será uma palavra do passado. Todo material trazido para a cidade terá múltiplos usos e múltiplas vidas antes de chegar ao fim de seu ciclo. A reciclagem será um grande negócio nas cidades. Ele vai criar valor e não será mais associado a lixo ou a algo indesejável.

Todo produto que esgota seu uso presente vai fornecer matérias-primase e componentes para um próximo produto - seja para a agricultura urbana, geração de energia renovável, coleta de materiais raros ou recomposição de componentes.

Conhecimento intensivo

Desde o começo do século 21, as cidades mais intensivas em conhecimento são listadas como as que têm melhores condições de vida, e essa tendência vai continuar nas próximas décadas. Conhecimento é a única coisa que pode crescer de forma ilimitada sem efeitos colaterais negativos. Ele pode ser trocado por todo tipo de produto.

Como resultado, as sociedades futuras devem se concentrar no crescimento do conhecimento, em vez do crescimento da produção material. Conhecimento consiste de informação, que por sua vez é composta de dados. A informação se torna a matéria-prima da sociedade e da cidade do futuro.

Informação não polui e tem muito valor. O conhecimento torna todo produto físico mais interessante e nos ajuda a redescobrir o valor de seus componentes. Por exemplo, conhecimento sobre a comida nos levará a ser mais respeitosos com relação à comida e à água, reduzindo a destruição que acontece no caminho entre a plantação e a mesa. Conhecimento também nos dá prazer nas coisas pequenas: computadores de vestir, sentidos ampliados e medicina robotizada.

Monitoramento e resposta

Em uma década, teremos aprendido com as cidades inteligentes emergentes de hoje. A internet da coisas será parte de nossa vida cotidiana, e vamos integrar naturalmente a comunicação com objetos inteligentes, como carros e eletrodomésticos.

As pessoas de sociedades avançadas terão deixado para trás o risco de serem constantemente monitoradas e censuradas por monitores e sensores - que serão domesticados e serão uma ajuda importante no dia-a-dia. A combinação de ideias de design cidadãs e o imenso poder de computação disponível em todos os lugares - assim como a água e a eletricidade - vão levar a um ambiente de computação e design no qual os cidadãos são muito mais ativos e produtivos no desenho e na melhoria de suas cidades.

Adaptação às condições locais

Nas próximas décadas, as cidades vão depender ainda mais de suas universidades como centros de pesquisas críticas, aprendizado e inovação. Cursos online massivos, como o "Future Cities" (cidades do futuro) vão oferecer o mesmo conteúdo excelente para pessoas de todo o mundo via internet.

Isso é necessário, pois, em 25 anos, mais de 2 bilhões de pessoas, especialmente em áreas ao norte e ao sul do Equador, vão precisar de um novo lugar para morar e trabalhar. Essas cidades não podem criar a mesma poluição das nossas cidades atuais. Em vez disso, especialistas locais, equipados com os métodos e instrumentos das melhores universidades do mundo, vão fazer adaptações às condições locais, para melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos.

O resultado disso é que cada cidade do futuro vai desenvolver características especiais, dependendo do clima e da cultura local, aumentando sua atratividade e as tornando distintas e únicas.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.