OPINIÃO
26/01/2015 19:17 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Por que um referendo sobre um plano de reforma é o melhor caminho para a Grécia

william.neuheisel/Flickr
Greek flag on the Acropolis

Nos próximos meses, decisões importantes deverão ser tomadas sobre o futuro da Grécia, incluindo nosso problema da dívida e a continuidade da política de austeridade.

Na esteira das eleições, a situação política interna está altamente polarizada entre forças que usam o medo e a insegurança e outras que capitalizam a ira e o desespero.

Isso insufla a extrema direita e a esquerda populista. Há retórica irresponsável e oportunista de sobra. Essa polarização está deixando sem espaço as forças da esquerda moderada que historicamente têm sido fundamentais na promoção da democracia e de reformas na Grécia.

Diante dessas circunstâncias, tive de fazer uma escolha política ousada. O Pasok (Partido Socialista Pan-Helenístico), partido de que fiz parte desde minha juventude e que liderei por muitos anos, foi assimilado por práticas e políticas conservadoras.

Em particular, ele mostrou sintomas claros de ter se rendido à política do clientelismo, em vez de confrontar o establishment clientelista político e financeiro que espreita a cena política grega há anos. Esse sistema comprometido é o cerne da crise recente.

O partido ficou identificado com os cortes de salários e pensões, com os pesados impostos do nosso ineficiente sistema de arrecadação, em vez de ser associado à boa governança, aos impostos equitativos e às reformas profundas que teriam retirado o fardo das costas das classes média e baixa.

Isso alienou muitos de nossos eleitores. Consequentemente, muitos dos seguidores do Pasok se distanciaram da política ou aderiram a outros partidos.

Eu e muitos outros alertamos repetidamente a liderança do partido sobre a necessidade de reavaliar nossa estratégia e também sobre a importância de apoiar um congresso democrático antes da convocação de novas eleições. Infelizmente, não nos deram ouvidos.

O que acabou se tornando uma demanda crescente de cidadãos progressistas da esquerda moderada foi a criação de uma alternativa genuína, um novo movimento.

Os conservadores da Nova Democracia vão precisar de tempo para se recuperar dessa derrota eleitoral, enquanto os populistas de esquerda do Syriza serão testados no governo. Um dos testes tem a ver com seu estilo de governo. Eles vêm de uma tradição marxista-leninista e de movimentos marginais de esquerda e muitas vezes apoiam dogmas profundamente autoritários. Um Estado com mais autoritarismo (de esquerda) seria uma catástrofe. Esperemos que não seja o caso.

ENCARANDO A TROIKA

Por outro lado, eles enfrentarão o dilema do programa da chamada "troika" (União Europeia, FMI e Banco Central Europeu): implementar políticas baseadas em sua retórica populista pré-eleitoral, o que pode significar um choque frontal com a União Europeia e o comprometimento dos avanços obtidos pelo país, ou mudar de curso, negociando seriamente com base em um plano de mudanças profundas.

Essa segunda opção é o objetivo do nosso novo Movimento dos Socialistas Democráticos - Kinima. Buscamos mudanças radicais em nossas instituições governamentais e demandamos o abandono das políticas da UE que se baseiam em um foco fracassado na austeridade.

Nossa alternativa é específica: propomos ser donos do plano de reforma, tirando-o das mão da Troika. Dessa maneira, os próprios gregos podem encontrar uma saída para a crise.

Em vez do plano da Troika, propomos um "plano grego" de reformas fundamentais, do sistema político ao tributário, da transparência e da meritocracia ao governo eletrônico; uma democracia funcional em oposição ao fracasso do capitalismo clientelista de estado.

Propomos reformas em linha com as reformas iniciais que realizamos - começando em 2010 --, quando eu era primeiro-ministro.

Chamamos essa ideia de "a revolução do auto-evidente".

Esse plano, acredito, vai nos colocar em uma boa posição para negociar a questão da dívida, o que por sua vez nos liberaria para usar o superávit orçamentário para crescimento, investimentos, serviços sociais e impostos mais leves para a classe média.

Um programa de estímulo mais amplo na Europa seria mais que bem-vindo. O quantitave easing (compra de títulos) anunciado pelo Banco Central Europeu é importante. Mas um programa robusto de estímulo fiscal, com investimentos públicos em infra-estrutura e treinamento por toda a Europa, é indispensável.

Também propus que convoquemos uma conferência global de especialistas na dívida grega tanto para discutir maneiras de aliviar o peso dela como para nos ajudar nas negociações com os parceiros da UE e do FMI.

Nossa proposta de um "plano grego", e um acordo com nossos parceiros da UE sobre um eventual perdão de partes da dívida, deveria então ser submetida a um referendo.

Cuidadosamente planejado, um referendo nacional para aprovar essa proposta seria uma garantia para nossos parceiros da UE de que estamos comprometidos com um caminho de mudanças para Grécia. O referendo seria uma obrigação e um profundo compromisso nacional de todos os partidos com a implementação dessas mudanças.

"O referendo seria um profundo compromisso nacional de todos os partidos com a implementação dessas mudanças."

Também temos uma agenda importante em relação às questões que garantem uma sociedade aberta - respeito aos direitos humanos, a luta contra o racismo, a islamofobia e o anti-semitismo, e a luta pela transparência e pela responsabilidade.

No front econômico, damos ênfase a um sistema tributário estável e justo e a investimentos em uma economia verde, que vá atacar os problemas atuais de investidores estrangeiros e cidadãos gregos.

Pretendemos utilizar experiências globais inovadoras para criar um movimento baseado em práticas de ampla participação, deliberação, autoorganização, soluções de crowd-sourcing, educação contínua e transparência.

Para sermos donos de nosso destino, nós gregos precisamos revitalizar nossa democracia.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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