OPINIÃO
27/07/2018 16:42 -03 | Atualizado 27/07/2018 16:43 -03

O papel da ciência e dos divulgadores científicos no desenvolvimento da sociedade

"Se é verdade que nem todo mundo vai ser cientista, parece ser também verdade que, uma hora, todos dependerão de algo sobre ciência para tomar decisões."

Getty Images/iStockphoto

É segredo de polichinelo que o nível de conhecimento médio sobre temas científicos do brasileiro é muito baixo. Não apenas os desempenhos dos estudantes em exames padronizados como o PISA são bem abaixo dos de outros países economicamente desenvolvidos e até de países relativamente mais pobres; como um levantamento de 2014 da Abramundo também indica que apenas 5% da população adulta das grandes metrópoles do país têm um nível de conhecimento científico bom (capaz de interpretar gráficos e avaliar hipóteses a respeito de aspectos da natureza e do dia a dia). E nem é muito melhor mesmo entre os com nível superior: apenas 11% atingem esse patamar mais elevado.

Mas o que isso quer dizer?

O astrônomo americano Carl Sagan já alertava em seu clássico O Mundo Assombrado pelos Demônios de 1995: "Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e toda as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara."

A Divulgação Científica (DC) sozinha não tem o condão de subitamente - e nem mesmo a longo prazo - transformar toda a população em experts científicos, capazes de resolver equações com tensores ou desenvolver métodos novos de detecção de doenças genéticas. Um grau básico de conhecimento deverá ser atingido por meio da educação formal, isto é, numa escola. Ainda assim, a DC tem um papel a desempenhar, mesmo em um idílico mundo em que nossos alunos brilhem no PISA e o indicador da Abramundo jogue todos nós no nível máximo de proficiência.

Se é verdade que não é todo mundo - uma minoria, de fato - que vai ser cientista, parece ser também verdade que, uma hora ou outra, todos dependerão de conhecer algo sobre ciências para tomarem decisões pessoais: se escolhem este ou aquele tratamento curativo, se vai mesmo comprar um motor que dizem que usa água como combustível... e políticas, que afetam um grupo mais amplo: votar ou não em um candidato que promete introduzir novas terapias alternativas no SUS, apoiar ou não a participação do país em um consórcio internacional para detecção de novos planetas?

E temos que lembrar que a ciência tem como uma de suas características marcantes progredir com o tempo; conhecimentos se tornam defasados rapidamente. A DC, atuando nos espaços de educação informal - instigando conversas com amigos (e com nem tão amigos), análises no noticiário, trocas de mensagens nas mídias sociais... - pode permitir que as pessoas se mantenham informadas e atualizadas a respeito, e que tomem decisões baseadas nesse conhecimento atualizado - e não no que se aprendeu na escola décadas atrás e que hoje provavelmente não é mais considerado válido. Bem, talvez não haja uma decisão política e social que seja muito afetada por Plutão não ser mais um planeta; mas a consolidação das várias edições do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, reforçando a realidade da ocorrência do fenômeno do aquecimento global, que é, em boa medida, fruto da intervenção humana, tem consequências. Ou deveria ter.

No entanto, embora a DC se torne cada vez mais importante na medida em que novos (e nem tão novos) desafios exigem conhecimentos atualizados para que sejam abordados; enfrentamos uma mudança substancial do ambiente em que se dava a maior parte da comunicação da DC. Até uns 15, 20 anos atrás, reinavam os meios de comunicação em massa, em vias principalmente unidirecionais e com relativamente poucos veículos (uma meia dúzia de grandes grupos de jornais, revistas, rádio e TV). O ambiente atual, das mídias sociais, mudou quase que completamente o jogo (mesmo que o controle da oferta dessas mídias seja ainda mais concentrado do que o das mídias tradicionais). Praticamente qualquer cidadão conectado torna-se, ele mesmo, uma mídia de comunicação. Embora tenha o lado saudável de uma maior democratização, traz o ônus de uma menor previsibilidade - a comunicação se dá em um certo caos na barafunda de vozes, com um fluxo incessante de informações e desinformações, e contrainformações (mentiras deliberadas plantadas com vistas a manipular a opinião de certos alvos; Cambridge Analytica alguém?). Um tipo de profissionais de comunicação de ciências, os jornalistas científicos, foi bastante atingido com essas mudanças. As redações passaram a cortar pessoal frente à queda das receitas - em vendagem e, principalmente, em publicidade; e as equipes de editorias especializadas de ciências sofreram um armagedão, sendo quase todas desmanteladas.

Novas formas têm surgido nessa alteração da paisagem comunicativa. De blogues, a podcasts e vlogues em projetos independentes e alguns institucionais (ligados a centros de pesquisa e universidades) e corporativos (da parte da grande mídia que ainda sobrevive e algumas empresas). Nos quais atuam não apenas os jornalistas de ciência sobreviventes da hecatombe editorial, como também alunos e pesquisadores - graduando, pós-graduandos e professores - de cursos de ciências e simpatizantes - com vínculos afetivos com as ciências, mas que não têm formação na área.

Os novos divulgadores têm se empenhado e desenvolvido conhecimento prático da comunicação na paisagem cambiante da internet. Por outro lado, há todo um conhecimento acumulado por estudos acadêmicos que remontam a pelo menos desde o fim da 2a Guerra Mundial. Os pesquisadores começam a consolidar tais conhecimentos no que tem se convencionado a chamar de "ciência da comunicação de ciência". Um trabalho para se começar a desenvolver é colocar os dois grupos: os novos divulgadores e os pesquisadores da DC - em contato para troca de experiências e informação. A roda não precisa ser reinventada e muitas horas de retrabalho podem ser poupadas com essa interação.

Isso, porém, pode exigir investimentos oficiais mais sérios e organizados. Tais encontros precisam de financiamento, a pesquisa em DC precisa de financiamento - as consolidações trazidas pela incipiente ciência da comunicação da ciência têm revelado áreas que ainda necessitam de intensos estudos (por exemplo, por que determinados grupos resistem a determinados tipos de conhecimento científico - enquanto aceitam a ciência de modo geral?), é preciso investir na formação de novos divulgadores.

Há sinais que parecem indicar que a receita criticada por Sagan começa a produzir pequenos desastres - surtos de doenças preveníveis por vacinas, p.e. (A educação formal é uma medida de médio e longo prazo para remover o grosso do material combustível, mas é preciso manter uma brigada de incêndio a postos.) Para que não se converta na explosão anunciada, os postulantes a novos governantes precisam incluir em suas plataformas itens que abordem como pretendem lidar com essas necessidades: do papel ancilar da DC na tomada de decisões melhores, e dos projetos para se incrementar a DC (o cenário atual de desinvestimento em C&T fez retroceder mesmo os programas anteriores, como a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que começavam a engatilhar). Será esperar demais que o façam? Tomara que não. E que a sabatina dos pré-candidatos presidenciais pelos divulgadores de ciência durante o Conhecer Eleições 2018 possa resultar na formação e explicitação dessas plataformas.

Conhecer - Eleições Presidenciais 2018

Dia 29 de julho, pesquisadores e divulgadores científicos vão entrevistar os presidenciáveis para debater o futuro da ciência no desenvolvimento do País.

Transmissão: Science Vlogs Brasil (Youtube), Dispersciência (Facebook) e HuffPost Brasil

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.