OPINIÃO
05/03/2015 14:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Por que não crio minha filha para ser uma 'boa menina'

Embora eu realmente pense que palavras gentis e corações bondosos fazem o mundo girar, o que muda o mundo, o que também tem importância, é a confiança, a assertividade e acreditar que você tem importância suficiente para ocupar algum espaço, para fazer uma diferença. Essas qualidades não são inconvenientes, são dádivas. A gentileza e a assertividade podem andar de mãos dadas.

Galit Breen

Minha filha cortou o dedo numa garrafa d'água "inquebrável" na escola. Recebi uma ligação no meio da tarde. Quando o número de telefone da escola aparece na minha tela, alguma coisa me faz falar e me mexer um pouco mais rápido, um pouco mais apressada, um pouco menos "eu". Ela tinha almoçado na enfermaria; a atadura tinha ficado encharcada de sangue três vezes; ela não tinha certeza se queria ir para casa ou ficar no colégio. Resolvi levá-lo ao médico para me certificar de que não havia problema com seu dedo, e foi lá que ela me deixou espantada com sua assertividade.

Nós nos apaixonamos por nossa pediatra quando minha filha mais velha ainda era bebê, teve que fazer uma consulta no Halloween e a pediatra nos atendeu fantasiada de gata. Ela é simpática, é competente, e todos nós adoramos conversar com ela. Por isso, quando ela mudou de clínica, nós fomos juntos. Recentemente ela anunciou que vai mudar novamente de consultório, e pretendemos acompanhá-la de novo. Mas quando recebi o telefonema sobre a garrafa d'água (inquebrável) e o dedo (cortado), eu ainda não tinha entendido ao certo onde nossa médica ia estar, e foi por isso que acabamos indo à clínica antiga, que fica perto de nossa casa. Lá, puderam atendê-la na hora, apesar de eu não ter ido lá desde que minha menina era muito pequena.

Entramos no consultório, imediatamente reconhecível. Um móbile estava pendurado sobre a maca; em cima de uma mesinha, revistas. Eu me lembro de ter lido livros para minha filha sentada naquela cadeira, me lembro de ela ter colorido os papéis dos exames e de eu estremecer quando ela levou injeções. Todas essas recordações da minha filha bebê, garotinha e em idade pré-escolar me inundaram enquanto ela se sentou sobre a maca sem que fosse preciso pedir que o fizesse, parecendo crescida e criança ao mesmo tempo. Percebi então que não seriam muitas consultas ainda nas quais eu poderia acompanhá-la na sala de exames.

Quando a médica que não conhecíamos entrou, ela apertou minha mão e então se voltou para minha filha. Devido ao modo como o consultório estava disposto, eu estava sentada e ela estava em pé, de costas para mim. A conversa foi apenas entre elas.

Fiquei ouvindo desde fora, pronta para intervir se fosse preciso. "Acho que você está muito bem", disse a médica, dando um tapinha carinhoso no braço de Kayli. "O corte não é muito fundo." Então Kayli começou a falar, mostrando onde estava o corte, qual era a profundidade, falando de quanto tinha sangrado. A consulta continuou dessa maneira; Kayli perguntou se devia colocar uma atadura no dedo, se poderia jogar vôlei com o dedo assim e o que poderia tomar ou fazer caso doesse. Eu não disse uma palavra.

Não sei ao certo há quanto tempo comecei a optar por focar sobre as necessidades de meus filhos tanto quanto presto atenção ao que convém aos outros -balconistas que estão com pressa, amigos que ainda não entenderam algo direito, professores com muita lição de casa a distribuir, médicos com tempo limitado para nos atender e (possivelmente) ideias preconcebidas na cabeça. Mas admito que não faz muito tempo.

Em algum momento de minha trajetória como mãe, percebi que não posso sempre evitar possivelmente causar um engarrafamento na fila por um sanduíche, em vez de dar a meus filhos a chance de aprenderem como pedir um sanduíche eles próprios. Não posso sempre priorizar o sentimento de outra pessoa em relação a uma amizade entre crianças que não está indo bem, em vez de pensar no que meus filhos podem aprender sobre eles mesmos, seus corações e como tratar os corações dos outros. Não posso sempre fazer questão de não decepcionar os outros, em vez de ajudar meus filhos a conhecer seus limites e defendê-los.

Quando eu era mãe de primeira viagem, achava que ter filhos bem comportados, que não causam confusão, significava que eu estava sendo uma boa mãe. E, embora eu realmente pense que palavras gentis e corações bondosos fazem o mundo girar, o que muda o mundo, o que também tem importância, é a confiança, a assertividade e acreditar que você tem importância suficiente para ocupar algum espaço, para fazer uma diferença. Essas qualidades não são inconvenientes, são dádivas. A gentileza e a assertividade podem andar de mãos dadas.

Foi a professora de minha filha quem meu deu algumas dessas palavras. Ela as proferiu naquela que será nossa última reunião de escola primária para Kayli. Estávamos sentadas no meio da sala de aula, debaixo de luzes fluorescentes, ao lado de uma pilha de livros, cadernos e pastas. Kayli e sua professora estavam sentadas frente a frente; também essa foi uma conversa na qual eu não passei de ouvinte. Olhando fundo nos olhos de minha filha, essa professora (fabulosa) falou: "Acho muito bom você ser tão tranquila e não se impor demais, mas quero que você saiba que também é tudo bem pedir quando você precisa de algo e saber que você é importante o suficiente para ocupar espaço."

Acho que pode ser difícil para as pessoas - especialmente para as mulheres e as meninas - se manifestarem para dizer o que precisam de adultos, de profissionais, de seus pares. Essa é uma habilidade, algo que precisa ser valorizado.

Por isso não ando mais recomendando às minhas filhas que sejam boazinhas. Gentis, sim; sensíveis, atentas aos outros. Mas que sejam igualmente gentis, sensíveis e atentas para suas próprias necessidades. Poderíamos, quem sabe, trocar a recomendação seja uma boa menina por

Seja esperta.

Ocupe espaço.

Quando precisar de alguma coisa, peça.

Use sua voz.

Fale mais alto e mais de uma vez, se for preciso.

Faça perguntas.

Seja espera.

Confie em você mesma.

Você é importante.

Essas são as mensagens que estou optando passar - para todos meus filhos.

Este post foi publicado originalmente no TheseLittleWaves.com

O livro de Galit, Kindness Wins, é um manual simples, sem firulas, de como ensinar nossos filhos a serem gentis online. A assertividade exerce um papel importante nisso. Saiba mais aqui.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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