OPINIÃO
09/05/2014 11:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Quem mexeu no meu feminismo ou por que não quero saber o que você acha que é um homem de verdade

Por que precisamos que homens endossem uma campanha "em combate" a crimes contra as mulheres? Especialmente se, nessa campanha, eles se apresentam como homens de verdade falando para outros homens? Onde está o poder das mulheres? Não está.

O inferno dantesco que 276 meninas estão vivendo na Nigéria com o sequestro do Boko Haram há mais de um mês ressuscitou a campanha #RealMenDontBuyGirls (Homens de Verdade Não Compram Mulheres), de 2011.

Obrigada, mas não


Outrora compartilhada (e realizada) por celebridades, a campanha agora está sendo tuitada por usuários "comuns" e virou trending topic no Twitter em países como Nigéria e Inglaterra. Basicamente, a campanha #BringBackOurGirls (Devolvam nossas meninas, em inglês), que foi apoiada por personalidades como Malala Yousfzai e Michelle Obama, alavancou essa hashtag mais antiga.

A BBC disse em um artigo que esse movimento de hashtags prova como está forte o sentimento em relação às meninas sequestradas na Nigéria. No termômetro do Twitter, pode ser, mas o fato de que uma hashtag criada por uma mulher - Ramaa Mosley - e usada por mulheres em prol de mulheres ter alavancado uma campanha sobre "homens de verdade" me fez lembrar o motivo pelo qual eu detesto a campanha #RealMenDontBuyGirls.

Motivo? Vamos lá: por que precisamos que homens endossem uma campanha "em combate" a crimes contra as mulheres? Especialmente se, nessa campanha, eles se apresentam como homens de verdade falando para outros homens? Onde está o poder das mulheres? Não está.

O problema dessa campanha, assim como o da #somostodosmacacos, é que a voz é dada justamente e mais uma vez ao privilegiado, e não ao desprivilegiado. Um branco desconhece o martírio de um negro em uma sociedade racista assim como um homem desconhece a opressão a que as mulheres são submetidas em uma sociedade patriarcal. Negros e mulheres são silenciados há tempo demais e está mais do que na hora de dar a voz a esses grupos.

Isso sem entrar na questão do que é um "homem de verdade", que é tão machista quanto todo o resto. Como disse o antropólogo John McCarroll (sim, um homem, veja você) em um texto publicado no She Rights, "nessas campanhas, a mística masculina ainda é muito presente, ainda que em uma versão mais gentil e doce". "Ao flertar com a força masculina e pedir a eles que a usem para proteger as mulheres, nós mais uma vez colocamos o homem no assento de motorista da cultura, pedindo a eles para renunciar à violência e ser guardiões menos crueis".

"O que todas essas mensagens dizem é que homens PODEM estuprar, machucar, comprar mulheres, chamar de gostosa na rua ou seja lá o que for, mas eles NÃO DEVERIAM. Homens, nós ouvimos, não deveriam machucar as mulheres, não por qualquer direito que as mulheres possam ter, mas porque outros homens podem fazer isso com as mulheres DELES, e isso seria horrível. O privilégio masculino é redefinido, mas não negado, de uma forma que deixa a masculinidade incontestada e ainda dominante. A maravilhosa, complexa, e multifacetada linguagem das gerações de trans, travestis, interseccionalistas e feministas e os diálogos de direitos humanos são deixados de lado a favor do pedido para que homens cisgêneros e héteros se reúnam com o resto do mundo na mesa dos adultos". É o que McCarroll chama de "linguagem de feminismo dos caras". Mais uma vez, por causa de um caso hediondo perpetrado por terroristas na Nigéria, o ˜feminismo dos caras˜se sobrepôs, desta vez no universo das hashtags.