OPINIÃO
16/05/2014 19:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O que o sexismo tem a ver com a polêmica no New York Times

O universo da imprensa norte-americana foi abalado nesta semana por um meteoro inesperado chamado demissão de Jill Abramson, até então editora-executiva do prestigiado The New York Times.

O colunista da revista New Yorker Ken Auletta foi quem acendeu o pavio: disse que Abramson havia reclamado sobre a diferença salarial entre ela e seu antecessor, Bill Keller e foi descrita como “insistente” por tentar ganhar o mesmo salário. Na quinta, Auletta falou que o NYT estava tentando negar que Abramson foi demitida por sexismo, e o publisher Arthur Sulzberger disse que o salário de Abramson era “comparável aos dos antigos diretores-executivos”. Os valores, no entanto, não foram oficialmente divulgados pelo NYT.

A questão salarial, no entanto, não foi a única hipótese apontada por Auletta. Segundo ele, a relação entre Sulzberger e Abramson sempre foi áspera: ele via ela como difícil, despótica e sem finesse em sua gestão. Abramson, por outro lado, estava cansada das instrusões de Sulzberger no seu comando de operações editoriais.

Por coincidência ou não, na mesma semana foi divulgada uma pesquisa da Strategy&, consultoria até recentemente conhecida como Booz & Company, que afirma que as presidentes-executivas mulheres enfrentam mais chances de serem demitidas do que seus colegas homens nos Estados Unidos. De acordo com o estudo, nos últimos 10 anos, menos de 30% dos presidentes-executivos das maiores empresas de capital aberto foram demitidos, enquanto a proporção entre mulheres estava próxima dos 40%. Uma razão apontada foi a de que as mulheres são convocadas para a liderança em tempos de crise para “limpar a sujeira”, o que as coloca em posição de risco. Além disso, segundo uma pesquisa da Gallup publicada no ano passado, um terço dos americanos preferem chefes homens e apenas 23% preferem mulheres no comando.

No ano passado já se falava de “turbulênicas no comando do Times”. Dean Baquet, editor subordinado a Abramson, chegou a comentar sobre as críticas que colegas de redação faziam a respeito da chefe. “Eu acho que há caricaturas fáceis que algumas pessoas fazem, uma da mulher reclamona e a outra do cara que é mais calmo”, disse Baquet. “Acho que essa é uma caricatura injusta”.

Vale lembrar que apenas 24% dos cargos de liderança do mundo são ocupados por mulheres, ainda que essa taxa corresponda a 40% nos EUA. O que muitas empresas acabaram descobrindo décadas após a inserção da mulher no mercado de trabalho, segundo especialistas, é que não basta dar espaço para as mulheres subirem, como criar um ambiente que as estimule a permanecer no topo - por exemplo, intrometer-se na gestão da mulher, como fez o publisher do NYT.

Ou quem sabe talvez a realidade para as mulheres que buscam o topo simplesmente ainda não seja justa.